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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Post nº 80

O  MISTÉRIO  DO  “MILAGRE GREGO”

Platão e Aristóteles  (sec. IV AC)  são as duas maiores expressões da Cultura Grega
e a sua notável e benéfica influência permeia toda a nossa civilização

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É pacífico entre os estudiosos que a Civilização Ocidental se fundamenta em três pilares: a Cultura Grega, o Direito Romano e a Teologia Judaica. Porém, considerando-se: a) que o Direito Romano inspira-se em boa parte nas Leis atenienses de Sólon e é influenciado pela Filosofia Estóica; b) que o Velho Testamento somente tornou-se conhecido após ser publicado em grego no século II AC e, c) que o Novo Testamento foi inteiramente escrito em grego, parece-nos certo dizer que a Civilização Ocidental nada mais é do que a ampliação e evolução da Civilização Grega ao longo dos séculos.

A Grécia é uma pequena nação milenar de escassa população, cujo solo pedregoso jamais lhe permitiu ter próspera agricultura e boa pecuária. Grande parte é constituída por ilhas rochosas no mar ao redor, tão áridas quanto o solo continental. É pobre de minérios e na antiguidade suas habilidades náuticas, industriais e comerciais não superavam outros povos mediterrâneos, como os fenícios. Ademais, a Grécia não era um “país” na acepção do termo, mas um ajuntamento de pequenos países formados por “cidades-estado” independentes umas das outras e sem um poder central que as unisse política e administrativamente. A rivalidade entre esses “mini-países” era intensa e guerreavam muito mais uns contra os outros do que contra “estrangeiros”, mas apesar das rivalidades todos se julgavam “gregos” e partes de uma coisa maior chamada “Grécia”, dentro da qual partilhavam a mesma língua, cultura, religião e origem étnica. A Grécia, portanto, era uma NAÇÃO mas não era um PAÍS, de sorte que quando os seus habitantes se sentiam ameaçados por um poder “de fora” ou “estrangeiro” uniam-se em uma confederação e elegiam comandante supremo alguém com grande experiência militar e prestígio político de uma das suas cidades mais importantes, tal como ocorreu na lendária Guerra de Tróia e nas guerras contra o Império Persa.

Na batalha naval de Salamina os gregos derrotaram os persas e
mantiveram sua independência

Vê-se assim que a Grécia, além de pequena e pobre, era política e administrativamente dividida, não dispunha de real poder econômico e militar, e por isso não possuía peso internacional, e ainda por cima era atormentada por constantes disputas e guerras entre suas cidades, o que a fazia ainda mais pobre e insignificante. Como, então, se explica possa ter produzido tão extraordinária cultura, fonte de todos os nossos saberes científicos, filosóficos, jurídicos, literários, artísticos e até mesmo desportivos ?

O mistério até hoje não foi solucionado apesar das muitas teorias e hipóteses a respeito, todas elas sem maior sustentação, o que levou sábios eminentes a chamarem o fenômeno ocorrido na Grécia entre os séculos VI e II AC de “MILAGRE GREGO”.

Não é que os gregos desse longo e extraordinário período de 400 anos tenham criado e descoberto tudo, pois seu grande mérito na maioria dos casos foi sistematizar conhecimentos já existentes, especialmente nas áreas da matemática e da geometria, mas lhes deram validade científica formulando postulados e teoremas expostos em Tratados ainda plenamente válidos e estudados nas Escolas. Com isso descobriram que a Terra era redonda, girava em torno do Sol e seu tamanho era quase igual ao que somente nos foi possível medir com exatidão 2.200 anos depois com a ajuda de satélites artificiais e de sofisticado aparato científico.

Fato ímpar no mundo, inclusive no Ocidente, onde até o século XIX proibia-se às mulheres o acesso às universidades, os gregos séculos antes de Cristo não só incentivavam a educação feminina como davam à mulher lugar de destaque na vida intelectual da nação, louvando-a e premiando-a, do que é exemplo a grande poetisa Corina derrotando o grande poeta Píndaro em vários concursos de poesia, a ponto de em desespero ele perder as estribeiras e queixar-se insultuosamente em alto e bom som: "os juízes só lhe dão a vitória porque ela é linda, embora não passe de uma porca".

Ainda jovem o grande poeta Píndaro perdeu várias competições poéticas para a também
ainda jovem grande poetisa Corina e a insultou rudemente

Infelizmente poucos livros de grandes escritores da antiguidade chegaram até nós, fazendo com que só tenhamos fragmentos de sábios pré-socráticos como Heráclito e Pitágoras ou mesmo de pós-socráticos como Epicuro e Zeno. O mesmo ocorre com as grandes poetisas gregas como Safo, Corina e Mirtes, de cuja excelente obra lírica só temos fragmentos e notícias dadas por outros autores, mas que são suficientes para aquilatarmos do valor da sua obra e do prestígio que gozaram na Grécia da sua época. Apenas para comparar, os romanos, séculos posteriores aos gregos e com hegemonia muito maior e muito mais duradoura, e que por isso as obras dos seus grandes autores nos chegaram bem mais conservadas e em muito maior número, não nos legaram nenhuma poetisa ou mulher de reconhecido valor intelectual.


Corina forma com Safo e Mirtes o trio das maiores poetisas conhecidas
da antiguidade. Infelizmente só temos fragmentos de suas obras

Porém o mais impressionante é que numa “Era” ainda pré-científica os gregos criaram ciências como a Filosofia, a Estética, a Pedagogia, a Física, a Metafísica e a História; métodos de raciocínio e de investigação como a Dialética e a Lógica Formal. Criaram a arte como expressão do sentimento e da beleza ideal mostrada em suas insuperáveis esculturas e o esporte como expressão da mais apurada técnica e da beleza física eternizada nas Olimpíadas. Também criaram sofisticada tecnologia, como os notáveis aparelhos de elevado nível tecnológico de Arquimedes e Hieron de Alexandria. Na literatura, criaram o teatro nos moldes que, com as devidas adaptações, assistimos até hoje, e criaram quase todos os gêneros de poesia e de verso que conhecemos. Finalmente, deram caráter científico à Medicina, até então território privativo do empirismo e da superstição, e no nosso tempo médicos que concluem o curso e saem da Escola para exercer a “arte de curar” fazem o Juramento de Hipócrates, médico grego considerado o pai da medicina.


Após a vitória contra os persas Atenas ficou riquíssima e o seu líder Péricles construiu em homenagem
a deusa Atena o majestoso Paternon, obra prima da arquitetura grega 

Um episódio trivial mostra em poucas palavras a enorme importância da Cultura Grega para a Civilização Ocidental. Conta-se que o sábio Albert Einstein foi a uma recepção na casa de um colega na Universidade de Princeton e alguém lhe perguntou se ele já se indagara por que “um Einstein surgira no Ocidente e não na China”. Todos riram achando que o sábio responderia com uma das suas piadas, mas ele disse sério: “já pensei sobre isso e concluí que tanto eu quanto os meus colegas surgimos no Ocidente por duas coisas que se uniram para que a Revolução Científica ocorresse na Europa e não na Ásia: a invenção da Lógica Formal pelos gregos no século IV AC e a invenção do Método Experimental pelos europeus ocidentais no século XVII DC”.

Para o genial Einstein todo o nosso atual progresso científico e tecnológico tem por base o feliz fato se que em um dia qualquer há 2.400 anos em Atenas o professor Aristóteles sentou-se em sua escrivaninha e decidiu escrever um manual escolar para ensinar os seus alunos a técnica de pensar e de raciocinar corretamente, criando um método seguro de busca da verdade a que se deu o nome de “Lógica Formal”.

Todavia, penso que em meio as extraordinárias contribuições do “Milagre Grego” à civilização a mais notável de todas foi retirar o HOMEM da periferia do universo e colocá-lo no seu centro, tirando-o da sua condição de simples ATOR e fazendo-o também AUTOR da sua própria História.

Até então, como depois na Idade Média, achava-se que o centro do universo era ocupado pelos deuses e o homem era somente um apêndice e joguete do seu poder, mas os gregos fizeram os deuses iguais aos homens em físico, virtudes e defeitos, dando-lhes como caráter distintivo apenas a imortalidade, único predicado divino de que o homem não é dotado, não obstante ser sua suprema aspiração. Assim, puseram o homem junto aos deuses como seus “quase iguais” e criaram a mais importante de todas as correntes de pensamento na história da humanidade: O HUMANISMO !

Os gregos davam grande valor à educação e Alexandre, maior dos guerreiros,
teve como professor Aristóteles, maior dos mestres

O Cristianismo assimilou boa parte da filosofia grega, mas deu ao humanismo feição diversa: ao invés de fazer de Deus preocupação do homem, inverteu os pólos da equação e fez do homem preocupação de Deus, negando a aquele os atributos deste, que passaram a ter extensão imensamente maior do que os poucos e fracos atributos dos seus deuses “humanizados”, pois os gregos recusavam à divindade atributos que consideravam absurdos porque totalmente incompreensíveis à sua mente prática e racional, como é o caso do atributo da perfeição absoluta do Deus cristão.

O “humanismo” só voltaria a ser tema de debates na Renascença e os melhores intelectuais da época, como D’Avinci, Erasmus, Morus e Michelangelo, eram notórios humanistas à moda grega, embora católicos devotos.

Na ocasião a Grécia de há muito perdera seu esplendor intelectual e era página virada da História, tendo voltado há muitos séculos a ser o país insignificante que a natureza talhara para ser, mas o período áureo da sua cultura no primeiro milênio antes de Cristo, embora totalmente inexplicável, continuava a existir nos sonhos dos poetas e dos artistas, no pensamento dos filósofos de todas as tendências e nos projetos inovadores dos letrados, inspirando-os a vôos mais ousados e às mais brilhantes realizações.

Penso que o “Milagre Grego” é o mais extraordinário e o mais feliz de todos os muitos inexplicáveis episódios e intrigantes mistérios que povoam a História.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Post nº 79


AS  GRANDES  CRISES  ECONÔMICAS  DA  HISTÓRIA

Primeira grande crise econômica de que temos notícia detalhada foi a "Crise Agrária" de Roma no século II AC. Ela causou grave crise política e o assassinato dos senadores reformistas Tibério e Caio Graco.




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Importantes eventos históricos quase sempre vieram ligados a importantes eventos econômicos, embora nos falte elementos para identificá-los com clareza, salvo em pouquíssimos casos dos quais temos registros escritos. Entre estes está o relato bíblico da História de José, o jovem escravo judeu sábio na interpretação dos sonhos que há 3.500 anos previu longo período de bonança para a economia egípcia, o qual, segundo o seu extraordinário tirocínio, seria fatalmente seguido de grave crise econômica e duradouro período de pobreza e carência. Em termos da moderna ciência econômica, poderíamos chamar a alegoria bíblica das "7 Vacas Gordas" e das "7 Vacas Magras" de Ciclo Econômico, ou seja, um período de Crescimento seguido de outro de Recessão, assim como chamar o período de grande prosperidade  de Bull Market e o período de grande pobreza de Bear Market se quisermos usar o jargão dos operadores financeiros. A História de José é o primeiro grande exemplo conhecido de como devem os estadistas previdentes lidarem com a economia dos seus países durante períodos longos de prosperidade, que os gananciosos, mesmo os mais experientes, julgam serem "eternos", apesar da história mostrar que são sempre contingentes e passageiros.

Sabemos de outras grandes crises econômicas, especialmente das ocorridas no Império Romano de cuja história temos ótimo registro, como a "Crise Agrária do Século II AC" que ocasionou o assassinato dos famosos reformistas senadores irmãos Gracos, da "Crise da Inadimplência do Século I AC" que causou a rebelião e morte do senador Lucius Catilina, tema dos famosos discursos do senador Marcus Tulius Cícero chamados Catilinárias, da "Crise Inflacionária do Século III DC" que fez o imperador Diocleciano decretar o primeiro congelamento e tabelamento de preços de que se tem notícia, e da "Crise do Regime Escravocrata", que em última análise foi a causa maior do esfacelamento e fim do Império Romano do Ocidente, porém temos poucos dados sob os seus aspectos econômicos, sendo essas tormentosas crises mais conhecidas por seus aspectos políticos, objeto de minuciosos relatos dos historiadores e dos quais temos pleno conhecimento. Isto nos traz até aos séculos mais recentes, quando a economia se tornou muito mais dinâmica e as ciências econômicas e financeiras foram criadas, permitindo-nos uma acurada análise das Crises Econômicas que afetaram o mundo ocidental e tiveram repercussão no mundo oriental, motivo pelo qual podemos chamá-las de "Crises Econômicas Globais".

Em consequência da estreita ligação entre Economia e História torna-se difícil entender uma sem ter qualquer conhecimento da outra, ainda que superficial e rudimentar, razão pela qual, não obstante ser o nosso blog um portal de introdução à "História Antiga", julgamos oportuno divulgar o excelente ensaio publicado pela revista britânica The Economist, o qual nada mais é do que uma resumida história das graves crises econômicas que abalaram a civilização nos últimos 200 anos. Parece-nos que o historiador não recuou um pouco mais no tempo para abranger a "Crise das Tulipas" e a "Crise da Companhia das Índias Orientais" na Holanda, assim como também a "Crise do Banco da Inglaterra" no Reino Unido e a "Crise do Banco John Law" na França, porque elas não ultrapassaram as fronteiras dos países onde ocorreram e não abalaram a economia global. 

Tenham todos uma boa leitura.

          






sexta-feira, 20 de junho de 2014

Post nº 78


ÁTILA  É  PARALISADO  PELA  SUPERSTIÇÃO  NAS  MURALHAS  DE  AQUILEIA

Átila vingou-se da valente resistência da grande cidade romana de Aquileia
destruindo-a até os alicerces após três meses de cerco

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Átila cruzou os Alpes orientais no final de março de 452 DC e poucos dias depois cercou Aquileia, intimando-a a render-se. A cidade recusou e a batalha começou. Aconteceu então um fato que paralisou o ataque: no alto das muralhas havia soldados negros como carvão!

A massa de guerreiros hunos jamais vira gente dessa cor e ficou aterrorizada, pensando que certamente eram demônios que tinham vindo defender a cidade. Na verdade os “demônios” eram guerreiros vindos do sul do grande deserto africano, sobreviventes de uma feroz guerra tribal. Tinham se incorporado como guardas a uma grande caravana que seguia rumo a Cartago. Quando lá chegaram, maravilharam-se com a imensa metrópole, mas ficaram desempregados, e o sheik seu ex-patrão, um homem compassivo que se afeiçoara a eles, procurou ajudá-los. Como os guerreiros não sabiam fazer outra coisa senão lutar, o sheik lhes procurou emprego de natureza militar e soube que no sul da Itália legiões romanas estavam recrutando mercenários para preencher seus quadros devastados na recente guerra contra os hunos. Conseguiu passagens para eles em navios que se dirigiam aos portos do sul da península e pediu aos capitães seus amigos que os encaminhasse aos postos de recrutamento tão logo desembarcassem.

Assim aconteceu, e uma centena deles foi incorporada a uma legião juntamente com milhares de mercenários das mais diversas nacionalidades que para lá iam em busca de emprego. A grande legião perdera metade dos seus efetivos e por isso alistara mais de três mil mercenários, todos eles experientes na arte da guerra. Os duros treinamentos durante o outono e o inverno lhes ensinaram a disciplina e as táticas de combate romanas, fazendo com que a legião readquirisse seu antigo poderio e estivesse pronta para a batalha ao ser mandada para Aquileia no começo da primavera. Quatro dias após sua chegada os hunos aproximaram-se e a luta começou.

Foi quando viram os soldados negros e recuaram em pânico.

Átila, ao contrário da nossa propaganda na época, e que continua sendo repetida até hoje, não tinha nada de ignorante: conhecia várias cidades do norte da Itália, inclusive Ravena, e sabia falar, ler e escrever latim razoavelmente. Durante suas visitas à Itália vira pessoas de pele escura e sabia que elas não tinham nada a ver com “demônios”; por isso fez um veemente discurso aos supersticiosos soldados censurando-lhes a covardia e explicando-lhes que os soldados negros de quem tanto tinham medo eram gente comum, vinda de um lugar distante do outro lado do mar, onde o calor abrasador queimava a pele do povo e lhe dava a cor negra.

Ao contrário do que diz a história oficial, Átila não tinha nada de selvagem e o filósofo bizantino Crispus, que
foi embaixador de Constantinopla na sua corte, diz que ela era bastante sofisticada 

Certo de que suas explicações tinham bastado ordenou novo ataque, mas os soldados mantiveram-se a uma distância segura atirando flechas e pesadas pedras com as suas catapultas ao invés de tentarem escalar a muralha.

Indignado, Átila ordenou várias execuções por covardia, e ele pessoalmente cortou a cabeça de meia dúzia de “covardes”, mas isso em nada melhorou o ânimo combativo das tropas. Ele estava sem entender o que se passava na mente dos soldados acovardados quando um dos seus generais o procurou e disse-lhe: “Os homens não são covardes nem tem medo de morrer em combate, pois sabem que se morrerem lutando uma bela Valkiria levará suas almas para o Valhalla, onde passarão a eternidade caçando e galopando pelos seus paradisíacos campos sem fim; mas acham que se forem mortos por um demônio imortal este se tornará dono das suas almas e as levará para o inferno onde sofrerão eternamente”!
  
“Então é isso”, disse Átila, “Os soldados acham que os negros são demônios porque são imortais; se é assim, só há uma solução: matar um deles”!

Ele notara que os legionários negros tinham se divertido com a “covardia” dos atacantes e por isso ficavam imprudentemente de pé nas ameias fazendo gestos obscenos e zombando do inimigo, que até então se conservara à distância. Mandou suas tropas se postarem em frente da cidade e calmamente as passou em revista; depois fez meia volta e se aproximou da muralha, galopando velozmente ao longo dela sob uma chuva de flechas enquanto mirava cuidadosamente um dos legionários negros de pé sobre a ameia. O disparo do seu arco foi preciso e o soldado imprudente caiu do alto com o pescoço trespassado por uma flecha certeira.

Quando voltou da sua teatral corrida sob os aplausos ensurdecedores das suas tropas o valente rei dos hunos lhes disse: “Vocês viram que os negros não são demônios, pois não são imortais; vamos agora lutar de verdade e derrotá-los”! Os ferozes guerreiros atacaram em massa e só então a batalha de Aquileia realmente começou.

Por incrível que pareça a cidade resistiu três meses!

Exército de Aécio era muito inferior ao de Átila e ele preferiu adotar guerra de guerrilhas contra os hunos na
Itália ao invés de enfrentá-los em campo aberto. Por isso não pôde socorrer Aquileia.

Aécio ficara surpreso por Átila não haver desistido depois do primeiro mês, pois os hunos gostavam de lutar em campo aberto, galopando velozmente e disparando flechas contra o inimigo, mas detestavam cercos prolongados, nos quais tinham de lutar a pé escalando muralhas. Nesse tipo de luta, enquanto alguns grupos atacavam e eram repelidos os demais ficavam ociosos aguardando sua vez de atacar; isto os irritava e desgastava, e sempre que podiam evitavam tal tipo de combate. Também o surpreendeu o fato de Átila não ter deixado uma fração das suas tropas cercando a cidade e avançado com seu imenso exército sobre o resto da Itália.

Do ponto de vista militar a atitude do rei huno não fazia sentido.

O que Aécio só veio saber depois é que a covardia dos hunos diante dos “demônios” humilhara Átila profundamente e ele decidira vingar-se da zombaria dos legionários; por isso resolvera recuperar sua honra militar destruindo a cidade com ataque após ataque a fim de não dar descanso aos defensores e esmagá-los rapidamente. Porém os legionários lhe opuseram tenaz resistência, o que o fez se apegar ainda mais ao seu infantil projeto de vingança, alheio ao bom senso militar. O orgulho ferido de Átila, portanto, teve grande influência no resultado final da campanha.

Trecho do romance histórico "O Senhor dos Dragões"


quinta-feira, 27 de março de 2014

Post nº 77

A  QUEDA  DO  IMPÉRIO ROMANO  DO  OCIDENTE

Apesar de saqueada e incendiada pelos vândalos em 455, Roma ainda sobreviveria 21 anos como Império
  
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      A traiçoeira morte de Flávio Aécio (20-10-454 DC), último grande general de Roma, pelas mãos do imperador Valentiniano III a quem fielmente servira durante décadas, foi também a morte do Império Romano do Ocidente como grande potência militar e relevante ator político no cenário mundial. Cinco meses depois do covarde assassinato, ex-oficiais de Aécio vingaram o antigo chefe matando Valentiniano durante competição esportiva no Campo de Marte em Roma, à qual o infame imperador comparecera com seus mais importantes ministros (16-03-455 DC). O assassinato de um imperador e dos seus mais íntimos auxiliares pela Guarda Imperial na frente de milhares de pessoas, mostrava o imenso grau de indisciplina e desprezo das tropas pelas instituições, não muito diferente da que existia no povo romano.

      O riquíssimo senador Petrônio Maximus gastou rios de dinheiro para obter o apoio das tropas e do Senado e tornou-se sucessor de Valentiniano. Para legitimar-se no trono, o novo imperador casou com a viúva do seu antecessor, em cujo assassinato ele próprio colaborara, e passou a governar tão incompetente e irresponsavelmente quanto ele. Alguns meses depois, soube-se que Genserico, rei dos vândalos, partira do seu reino no norte da África à frente de poderosa frota e grande exército para atacar Roma. Povo e autoridades entraram em pânico e o inútil Petrônio Maximus, ao invés de preparar a resistência, foi ao Senado informar que nada havia a fazer e por isso fugiria com todas as riquezas que pudesse levar consigo, deixando a cidade entregue à própria sorte. Em seu covarde discurso aconselhou os senadores a fazerem o mesmo e estes o vaiaram, atirando-lhe objetos e expulsando-o com toda a sua comitiva. Quando Petrônio Maximus saiu à rua, multidão em frente do edifício o vaiou ainda mais furiosamente e começou a apedrejá-lo. Os seus comparsas conseguiram escapar, mas ele foi capturado e apedrejado até a morte (06-10-455 DC). Depois arrastaram pelas ruas seu cadáver ensanguentado e o jogaram no rio Tibre sob aplausos e gargalhadas dos seus algozes. Três dias depois, os vândalos entraram em Roma sem qualquer resistência e saquearam a cidade à vontade, incendiando vários dos seus edifícios.

O saque de Roma pelos vândalos foi total , inclusive das igrejas e mosteiros

      Diferentemente dos visigodos quarenta e cinco anos antes, desta vez os vândalos não pouparam nada, e embora tenham respeitado o Papa e os membros do clero, despojaram as igrejas e mosteiros de tudo, roubando até mesmo as jóias sacras e os artefatos cerimoniais, inclusive os do Templo de Jerusalém, trazidos à Roma pelo imperador Tito quatro séculos antes. Levado para a África, o volumoso tesouro de inestimável valor histórico e artístico desapareceu para sempre.

      Os vândalos também aprisionaram milhares de pessoas e as levaram para vendê-las no rico mercado de escravos de Cartago ou libertar a troco de resgate aqueles que pudessem pagar. Como que para completar a vingança de Aécio, a viúva e as filhas do finado Valentiniano, que estavam em Roma indiferentes ao que se passava, foram também aprisionadas, destituídas das jóias valiosas e luxuosos vestidos, e levadas para a África como os demais prisioneiros. Correram histórias na época de que elas tinham sido vendidas como escravas por preço altíssimo em leilão conduzido pelo próprio Genserico, mas tudo indica que os “compradores” foram seus próprios filhos, que trataram muito bem as princesas. Mais tarde o Imperador Romano do Oriente pagou bom resgate por elas e o velho pirata Genserico, sempre sedento de ouro, as mandou para Constantinopla, onde terminaram confortavelmente suas vidas atribuladas.

      Após os vândalos invadirem e saquearem Roma, tudo o que restou do império até seu melancólico final em 476 foi a recordação da sua passada grandeza. A era de governos imperiais estáveis também findou com Aécio, pois nos dois anos seguintes três imperadores foram violentamente tirados do poder. Valentiniano foi morto em março de 455, e seu comparsa, assassino e sucessor Petrônio Maximus o seguiu rápido em outubro do mesmo ano. Porém, assim que os vândalos se retiraram da Itália uma assembléia de príncipes galos-germânicos se reuniu em Arles e elegeu novo imperador o distinto príncipe Avito sob gerais aplausos e grandes esperanças. Mas seu governo foi tão corrupto e incompetente como os dois que o antecederam e um ano depois ele também foi destronado (Nov./456 DC) e morto no mês seguinte.

      O trono ficou vago durante vários meses, até que Majoriano, um bravo e austero romano da velha guarda, foi eleito em julho de 457. Começou governando auspiciosamente fazendo grandes reformas de há muito necessárias, mas adiadas anos a fio devido à oposição velada de fortíssimos grupos interessados na manutenção de privilégios. Infelizmente ele declarou guerra a Genserico e o astuto rei vândalo, enquanto fingia negociar um tratado de paz, atacou o porto onde a esquadra romana estava ancorada e a destruiu. Os descontentes com as reformas imediatamente culparam Majoriano pelo desastre, tramando sangrenta conspiração para derrubá-lo, e em agosto de 461 o único imperador decente que Roma tivera no século V foi preso e executado.

      Quatro imperadores assassinados em seis anos era demais e todos os cidadãos dignos recusaram o perigoso cargo, pois tinham sabiamente concluído que sentar no trono imperial era o modo mais curto de cometer suicídio.

      Richomer, hábil político e poderoso mercenário bárbaro a serviço do império, principal sustentáculo de Majoriano no início e o maior responsável por sua queda depois, se tornou líder maior e governou durante anos através de testas-de-ferro sem qualquer expressão social, política ou militar. Finalmente a morte o afastou, mas os novos imperadores continuaram a ser tão ineficazes e incompetentes quanto os bonecos de Richomer, até que Rômulo Augustulus, jovem e educado cavalheiro ainda quase adolescente, muito admirado na alta sociedade pelo seu belo porte e elegância, foi posto no trono em 475 pelo poderoso general Orestes seu pai. Ele seria o último imperador romano do ocidente até Carlos Magno ser ungido pelo Papa sob o mesmo título no ano 800, mais de três séculos depois.

Entre a deposição de Rômulo Augustulus  e a coroação de
Carlos Magno como Imperador Romano do Ocidente
passar-se-iam 326 anos

      A maioria das pessoas, mesmo as instruídas, pensa que o fim do Império Romano foi uma catástrofe causada por súbita e arrasadora invasão de povos bárbaros vindos do leste da Europa, e que sua queda teve o ruído de um trovão. Na verdade o seu fim ocorreu vagarosamente, e o seu último ato foi tão suave e estranho que pouca gente na época julgou que ele representasse o que é hoje conhecido como “A queda do Império Romano”.
   
      É verdade que houve grandes ataques e invasões militares, como as de Átila (451 e 452 DC), mas as verdadeiras invasões eram pacíficos movimentos migratórios de tribos germânicas que pediam humildemente a imperial permissão para cruzarem a fronteira e estabelecerem-se em terras incultas e abandonadas da Gália e da Hispania, hoje Bélgica, França, Espanha e Portugal. Longe de serem abruptas e violentas, estas massivas migrações duraram quase dois séculos, e os imigrantes apenas fugiam de intermináveis guerras tribais, fome e miséria generalizadas, buscando uma vida melhor nas prósperas regiões ocidentais da Europa, protegidas pelas famosas legiões romanas e celebradas pelos andarilhos menestréis como “Terra de Leite e Mel”. Mesmo as grandes invasões militares da Itália pelos visigodos, hunos e vândalos não tiveram maior significação política na vagarosa queda do império, porque as tropas invasoras não se estabeleciam no território e logo iam embora após destruírem e roubarem o que podiam. Os bárbaros somente começaram a se instalar na Itália após a morte de Aécio.

      Durante séculos também foi popular a crença de que o Império acabara porque Roma sucumbira diante dos bárbaros devido à decadência dos costumes de sua sociedade e à corrupção da sua civilização altamente sofisticada. A licenciosidade teria destruído as virtudes guerreiras do povo romano, fazendo-o presa fácil de bárbaros primitivos, mas de costumes ainda puros e não corrompidos pelos males da civilização. A falsidade de tal interpretação reside no fato de que Roma jamais foi tão poderosa econômica, política e militarmente quanto nos séculos I, II e III da nossa Era, quando o paganismo era quase absoluto e a licenciosidade atingia os extremos descritos por vários historiadores, sobretudo Suetônio no seu famoso "Crônica Escandalosa dos Doze Césares". Ao contrário desta crença puritana, foi exatamente a partir do fim do governo de Constantino na primeira metade do século IV, com o banimento do paganismo pretensamente impuro e a adoção do cristianismo pretensamente puro, que o Império entrou em crise irreversível e lentamente desagregou-se no decorrer do século V até o seu final colapso em 476.

Os nababescos festins da aristocracia romana e a "corrupção dos costumes"
nada tiveram a ver com a desagregação e o fim do Império
   
      As causas da “Queda do Império Romano”, portanto, não foram a decadência dos costumes nem as invasões bárbaras, embora estas tenham tido importante papel no processo, sobretudo por trazerem hordas de povos primitivos para viverem numa desenvolvida e sofisticada sociedade, produzindo brutal rebaixamento no seu nível de cultura e civilização. A principal causa do fim do império foi a transição do sistema escravocrata para o sistema feudal. Infelizmente para Aécio, ele foi o primeiro estadista romano a perceber que a única chance de sobrevivência do império seria a adoção do novo sistema, único que os bárbaros, avessos ao regime escravocrata, poderiam aceitar.

      A escravidão nos campos seria substituída pela servidão, fazendo dos antigos escravos inquilinos perpétuos da terra possuída por um senhor que lhes cobraria obediência e parte da produção como aluguel; este senhor possuiria a terra em nome de outro senhor mais poderoso, ao qual também pagaria obediência e aluguel, e este faria o mesmo em relação a outro senhor ainda mais poderoso, e assim por diante até chegar à pessoa do imperador. Este sistema já estava em vigor em algumas remotas regiões da Gália e da Espanha ocupadas pelos bárbaros, mas os proprietários de cultura romana não queriam nem ouvir falar dele, porque além de representar uma diminuição temporária dos lucros líquidos e do domínio discricionário sobre a terra, também significava a perda total do imenso patrimônio que os escravos representavam. Ademais, não conseguiam imaginar como poderia uma família aristocrática viver sem escravos! Foi a simpatia de Aécio pelo novo sistema, e o apoio dado aos bárbaros para desenvolvê-lo nas terras por eles ocupadas, o maior motivo para que a aristocracia romana sempre o olhasse com grande suspeita, e esta foi uma das razões que contribuíram para que ele jamais se tornasse imperador.

A substituição dos pequenos proprietários rurais por grandes latifundiários exigia exércitos de escravos e foi a
crise do sistema escravocrata a principal causa da desagregação do Império Romano do Ocidente
 

      Fato concreto é que o novo sistema não foi adotado a tempo de salvar o império e o mundo ocidental mergulhou em completa anarquia e selvageria por mais de três séculos, período obscuro conhecido como “Alta Idade Média”. Somente quando certa ordem voltou no tempo de Carlos Magno o sistema feudal adquiriu formato jurídico definitivo e no final do século IX implantara-se em toda a Europa, extinguindo a escravidão no continente. Porém o colapso das instituições do império quatro séculos antes tinha causado tamanho atraso econômico e retrocesso cultural, que mais cinco séculos se passariam até que viesse a Renascença e o tempo perdido começasse a ser recuperado.

      Mas voltando a Rômulo Augustulus, deve ser dito que ele governou apenas simbolicamente, tanto quanto os atuais soberanos europeus governam os seus reinos democráticos. Um ano após a coroação do último imperador, o rei dos hérulos Odoacro, que há anos assolava o norte da Itália com seus bandos de ferozes guerreiros, derrotou em batalha o seu ex-amigo general Orestes, pai do imperador, e assumiu o controle da Itália. Como resultado, achou desnecessário alguém em Ravena usando o título de imperador e posando de governante, pois queria governar o seu recém adquirido reino diretamente do palácio imperial em Ravena, como natural ao soberano da Itália. Mas para isso teria que despejar seu ocupante, “simpático jovem filho do seu ex-amigo Orestes, tornado inimigo por força das circunstâncias”!


Rômulo Augustulus recebe Odoacro com grandes honras nos portões de Ravena e humildemente
põe aos seus pés a sua coroa imperial (476 DC)

      Sendo hábil político e amante das formalidades legais, só recorrendo à força em último caso, Odoacro ficou feliz ao ver o imperador de Roma curvar-se diante dele e lhe fez excelente oferta: Rômulo Augustulus renunciaria ao seu título em solene cerimônia pública e sairia do palácio imperial espontaneamente em troca de magnífica mansão à beira mar, grande quantia em ouro no ato e excelente pensão anual, o bastante para que vivesse principescamente o resto da vida. Selado o acordo, ele renunciou como combinado (Set./476 DC) e foi viver em seu novo palácio como simples particular, evitando meter-se em assuntos políticos daí em diante.

      A ironia do prosaico evento, mais tarde chamado A Queda do Império Romano, foi que Odoacro era filho de importante ministro de Átila, e os hérulus, seu povo, eram uma tribo germânica que lutara sob a bandeira de Átila na Gália e na Itália, misturando-se largamente com os hunos. Em conseqüência, penso ser apropriado dizer que os hunos, derrotados por Aécio duas vezes, foram indiretamente vitoriosos no final. Por outro lado, o ridículo “negócio” entre Odoacro e Rômulo Augustulus povoou o anedotário fazendo as pessoas rirem em toda parte, mostrando que ao invés de ter sido o resultado de terrível batalha entre romanos e bárbaros, a chamada “Queda do Império Romano” foi apenas o resultado de um lucrativo acordo de cavalheiros.

Em solene cerimônia Rômulo Augustulus renuncia ao título de
imperador e passa a Odoacro as insígnias do poder imperial

      Indignado com a negociata, o Imperador Romano do Oriente reclamou o trono vazio sob o “argumento legal” de que era o legítimo herdeiro do Império Ocidental no caso do seu titular morrer ou renunciar sem deixar herdeiros e o senado romano não lhe eleger um sucessor. Mas Odoacro respondeu aos seus “clamores jurídicos” fazendo o senado escrever-lhe dizendo que “Um novo imperador é desnecessário ao povo romano, pois todos estão felizes e seguros sob o profícuo governo de Odoacro; de sorte que o melhor para sua Majestade do Oriente será cuidar dos seus próprios graves assuntos, um pesado fardo mesmo para alguém tão sábio e competente, e parar de se intrometer nos negócios do Ocidente de uma vez por todas”! Para completar, o senado romano mandou para Constantinopla a coroa e as insígnias do último Imperador do Ocidente, dizendo que ao Império bastava um só imperador e sua Majestade Oriental poderia usar as jóias também como Majestade Ocidental desde que não se metesse nos negócios do Ocidente.

      O povo romano considerou tudo uma piada e o caso virou apenas mais uma anedota entre as muitas que circulavam na ocasião. Assim, ao contrário do que muitos pensam, o Império Romano do Ocidente não caiu em meio a gritos de tragédia, mas em meio a gargalhadas de comédia.

      Na época ninguém achou que o Império houvesse acabado: “Mais cedo ou mais tarde um imperador como Teodósio o Grande irá surgir e colocará tudo novamente nos seus devidos lugares, fazendo as coisas voltarem à normalidade!” era o sentimento generalizado. Mas quando um ano passou e virou uma década e a década virou um século sem que nenhum novo grande imperador aparecesse, as pessoas finalmente perceberam que o Império tinha terminado e os historiadores tomaram o ano de 476 como data de sua queda. Na verdade o Império morrera vinte e dois antes junto com Flávio Aécio, seu último grande general.

Sic Transit Gloria Mundi


  

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Post nº 76

PERFIL  DE  UTHER  -  “O  SENHOR  DOS  DRAGÕES”

Uther era astuto, leal com amigos, impiedoso com inimigos e generoso com o povo. Mais
que qualquer outro cultivou a própria lenda e virou "O Senhor dos Dragões"



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Eis como o frade romano Gildasius Pisannensis descreve o seu amigo príncipe Uther Pendragon, cognominado por seus súditos de “O Senhor dos Dragões”.


            Ainda quando estudava com os padres em Bath, assimilara a fundo o preceito evangélico: “Sede simples como a pomba e astuto como a serpente”! Mas à medida que aprendia com a vida fez ao santo mandamento um pequeno acréscimo: “Sede simples como a pomba, astuto como a serpente e mortífero como o leão”!

            Era homem simples e cordial, jamais mostrando pompa ou orgulho e tratando a todos como seus iguais. Também era polido e atencioso, e na medida do possível ajudava os que recorriam aos seus préstimos. Arrogância era uma palavra que não existia no seu dicionário. Porém essa postura pessoal era apenas a base sólida para o exercício da sua principal qualidade: a astúcia!
 
            Conquistava as pessoas com seus modos simples e amigáveis apenas para usá-las na consecução dos seus objetivos; mas como muitas vezes não precisava delas no presente, nunca excluía a hipótese de precisar delas no futuro, e mantinha a mesma postura simples e cordial em todas as ocasiões. Até porque isto lhe evitava possíveis acusações de falsidade ou hipocrisia. Sabia distinguir amigos e inimigos não apenas pelo que diziam ou faziam, mas também por um simples gesto ou palavra, e às vezes até mesmo por um olhar. Era exímio conhecedor de pessoas e excelente jogador, prevendo sempre com antecedência duas ou três jogadas à frente; isto fazia com que ninguém o superasse em qualquer tipo de negociação, e embora nada fizesse que não fosse do seu próprio interesse, premiava os que lhe serviam com lealdade, reforçando sua reputação de homem correto e desarmando espíritos menos sutis que o seu. Muitos anos depois, quando já éramos amigos íntimos, questionei seu excessivo pragmatismo e ele me respondeu com toda a sinceridade do seu espírito simples: “Olhe aqui, Gildásio: você só é frade porque sua mulher morreu e você quis ganhar do céu o conforto que a terra lhe negou, por isso pare com essa tolice de dizer que existem pessoas que não agem por interesse. Até mesmo o santo só é santo porque deseja ganhar de Deus a recompensa do paraíso”!

            Assim era Uther: duro, pragmático e objetivo. Porque era simples e cordial jamais usava palavras ásperas, e porque era astuto jamais fazia ameaças, pois raciocinava corretamente: “Ameaças só servem para prevenir os inimigos e despertá-los da sua falsa sensação de segurança; melhor deixá-los adormecidos para mais facilmente liquidá-los no momento oportuno”! E aí entrava a terceira virtude que ele acrescentara ao mandamento evangélico: a mortífera agilidade do leão!

Uther impressionava por seu porte, bravura e frieza, sua voz forte, segura e impositiva,
mas sobretudo pelo medo causado pela fama que o acompanhava

            Ele fazia de tudo para não entrar numa briga, mas se nela entrasse o fazia de modo tão rápido e letal que destruía completamente o inimigo e os seus aliados, não sobrando ninguém para revidar. Por isso é que ao eliminar os filhos e genros de Gorlósio eliminara também seus descendentes varões. Apesar disso ele se considerava generoso e humanitário, pois nunca matava por matar. Na verdade o seu objetivo não era torturar ou matar ninguém: era apenas livrar-se de um incômodo. Uma vez ele me disse com a mais fria honestidade: “Saiba você, meu bom Gildásio, que jamais fiz o mal quando podia fazer o bem ou matei alguém que não merecesse morrer para beneficio de todos. Jamais maltratei pessoa alguma, nem mesmo meus piores inimigos, e quando fui obrigado a eliminá-los o fiz de forma rápida e quase indolor, poupando-os de sofrimentos desnecessários”!

            Também se julgava um homem da lei, pois há tempos descobrira que a forma melhor de manter o poder era através de leis que o legitimassem e dessem ao governante a reputação de ser justo e imparcial. Para tal fim nada melhor do que leis escritas ministradas por juízes instruídos. A palavra escrita sempre tivera entre os povos cultos grande prestígio e entre os incultos respeito quase religioso; por isso comprou em Bath um exemplar do Código Teodosiano, promulgado pelo Imperador Romano do Oriente, e sabendo ler bem o latim o examinou com auxílio de um advogado e dele excluiu todas as regras em desacordo com os costumes de Cornwall, acrescentando-lhe algumas que aumentavam o poder do Marchensis romano; ou seja, dele próprio. Depois contratou escribas para fazerem uma pequena edição privada do código por ele modificado e pôs ricas capas de couro nos exemplares produzidos. Os escribas estavam ansiosos por um emprego seguro, e quando lhes ofereceu o cargo de juízes em Cornwall aceitaram sem hesitar. Deu-lhes roupas vistosas e os instalou dignamente nos vilarejos mais importantes, decretando que dali em diante todos os litígios deviam ser a eles submetidos e decididos de acordo com as leis da “Santa Igreja”, pois, sendo um governante romano e cristão, outras leis não poderia ele admitir em seu distrito senão aquelas decretadas pelo imperador e aprovadas pela Igreja!

Melhor que ninguém Uther soube cultivar mitos que incendiavam a imaginação
popular e tornou-se legendário

            Porém a nomeação dos juízes não lhe custou praticamente nada, pois uma taxa era cobrada aos vencidos em proporção ao valor do litígio por eles causado. Nos casos criminais uma pesada multa era aplicada ao infrator, e quando havia condenação à morte todos os bens do condenado iam para os “cofres públicos”. Mas ele sabia que a tentação de suborno e extorsão era grande e poderia desviar os juízes da função para a qual os nomeara, desmoralizando o sistema que tentava implantar. Em conseqüência os advertiu previamente de que qualquer ato de corrupção resultaria na imediata execução do juiz corrupto, e para mostrar que não estava brincando enforcou pessoalmente diante deles dois ladrões presos alguns dias antes, enquanto dizia aos futuros julgadores: “Um juiz corrupto é três vezes mais ladrão do que qualquer ladrão comum; por isso ao invés de enforcá-lo eu o manterei vivo e cortarei seus pés e pernas, depois cortarei suas mãos e braços, e finalmente cortarei sua cabeça, mandando espetar seus restos em estacas para que sejam comidos pelos urubus. A falta de um enterro cristão também condenará sua alma ao inferno”!

            Claro que se podia apelar ao Marchensis da sentença, mas quando não era do seu interesse modificá-la dizia ao apelante que o juiz fizera o que a lei mandava, e como “suprema autoridade imperial” ele era obrigado a cumpri-la; infelizmente não podia fazer nada pelo “prezado amigo”, pois a lei era a lei. Nas poucas apelações que atendia dizia que o juiz se enganara e aplicara a lei de forma errônea, devendo ser por isso severamente repreendido. Ele nunca o repreendia, limitando-se a modificar a decisão através de uma boa justificativa legal feita pelo próprio juiz que a prolatara e chamado para ouvir a “repreensão”, mas na verdade para redigir a decisão modificando sua sentença. Isto os ensinou que nos casos importantes deviam antes ouvir a opinião do chefe. Porém apelações eram raras, pois ordenara aos juízes decidirem com o vistoso código aberto e lendo para os litigantes a regra na qual se baseavam. Eles não entendiam nada da leitura porque quase ninguém sabia latim, mas isto só fazia aumentar o prestígio da decisão, pois nas suas mentes simples as misteriosas palavras soavam como algo mágico e a lei adquiria significado místico, fazendo-a temida e obedecida. Aos poucos a justiça romana, ou melhor, a justiça de Uther, se tornou respeitada em todo Cornwall pela sua “correção e imparcialidade”!

Ninguém ousava desafiar Uther, homem cuja lenda dizia que vencia e domava dragões

            Todavia os mais poderosos senhores continuavam fora do seu alcance porque todos eles tinham exércitos particulares, e embora fossem leais ao “chefe dos chefes” sempre poderiam se revoltar. Aliás, essa coisa de “chefes” o incomodava bastante, pois no seu entendimento o poder era indivisível, mas enquanto não pudesse acabar com seus bandos armados teria de dançar de acordo com a música. Assim, tal como o imperador Augusto, que governava como ditador enquanto fingia que tudo era decidido pelo senado, Uther costumava convocar os chefes regularmente para reuniões onde os assuntos importantes eram discutidos. Geralmente expunha a matéria sem dar opinião, dizendo que ouviria todos os demais e a decisão seria tomada em conjunto. Embora ele já houvesse decidido previamente, deixava que a discussão se aprofundasse, ouvindo atentamente e não apresentado objeções às opiniões contrárias que iam aparecendo, mas fazia muitas perguntas sob o pretexto de querer entendê-las melhor até que elas se mostravam inviáveis aos olhos dos demais e alguém aparecia com a opinião que lhe interessava. Porém continuava perguntando e aos poucos ia concordando, até que todos também concordavam e ele proclamava que a opinião do amigo fulano prevalecera por unanimidade. Às vezes não se chegava a um consenso e ele dizia impaciente: “Todos sabem que sou homem razoável, que sempre concorda com as sábias opiniões dos amigos e que jamais aprovaria algo que não fosse do nosso mútuo interesse, mas sou obrigado a dizer que a opinião do amigo cicrano é a que melhor atende às circunstâncias atuais e peço aos que confiam no meu julgamento que apóiem a opinião dele. Vamos votar”.

            Ele nunca perdia, e os senhores cuja opinião tinha prevalecido, e até mesmo os que tinham sido vencidos, aplaudiam o seu espírito conciliador.

            Este era o verdadeiro Uther Pendragon, “Senhor dos Dragões”, príncipe bravo e correto que todos viam, respeitavam e temiam, mas que pouquíssimos conheciam.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Post nº 75

ATTILA  AND  AETIUS  -  A  STUDY  OF  CHARACTER
"Legend is the poetry of history"          
The author           

Attila in front of his troops on the eve of the battle of Chalons - Scene of the famous
opera "Attila" by Giuseppe Verdi

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            I don’t know in History any coincidence more amazing than the relationship between Attila and Aetius: two men of the same age, from completely different nations and civilizations; who albeit separated by hundreds of miles lived for long periods in each other’s houses; who were friends from youth; who became leaders of their respective people and in a decisive moment for the survival of their peoples and civilizations became ferocious enemies on the battlefield, playing the most dangerous, bloody and decisive game in the history of the Western Roman Empire.

            The one who won the game would impose his civilization all over Europe. Therefore, if Attila had won Europe would be now a pagan primitive Asiatic Civilization instead of a Christian advanced Roman one. The fact was that even after becoming enemies Aetius and Attila always maintained the most profound respect for each other’s military skills, and this respect was transmitted to their respective followers and Armies. This doesn’t mean that both men were good fellows, God forbid, for both of them were capable of the most terrible deeds to reach their respective goals; for instance: Attila killed his only brother to occupy the Royal throne alone, only three years after both of them had begun to reign together; Aetius killed his most dangerous rival when he discovered that his enemy and followers were planning a plot to destroy his position in the Roman Army and in the Imperial Court.

            They were brave and skilled warriors, sharing the same personal abilities in individual fighting, for Aetius, as said by Gregorius De Tours, was ‘eques promptissimus sagittarum jactu peritus’ (the most speedy riding his horse and expert shooting his bow), and Attila was the same according to history. They were ruthless, cold and dangerous in political and military matters, but they were also kind and generous to their friends once assured that they weren’t a risk to their political or military power. They could perceive a false friend or a scoundrel from afar, but they could also recognize the worth qualities of a man and, what was still more important: respect these qualities even if he was an enemy.

            However, there were also important differences in the character of both men in political and military aspects, for Attila and so the Huns used to play clean and fair: loyalty and trust was his trademark, but not Aetius’ and even less the Romans’.

            The motto for Attila seemed to be: ‘If you want to kill a man, be harsh and challenge him to a single combat face to face; violence is the best way to solve problems and must always be used to impose fear and respect’. For Aetius it seemed to be quite the opposite: ‘If you want to kill a man, be kind and polite and do it as smoothly and diplomatically as possible; violence is the last resort to solve problems and must be used only when strictly necessary’.

            But this doesn’t mean that Aetius was in want of courage; in fact courage was one of his most remarkable attributes, as Merobaldus said in his Panegyric: ‘lorica non tam munimen quam vestimentum’ (for you, armour wasn’t a protection, but an ornament).


Aetius talks to one of his generals in the famous opera "Attila" by Giuseppe Verdi
  
            However, the two men’s differences of character were due more to their cultural environments than to their personalities. Attila had been raised riding horses on the open plains with his friends without any sort of sophistication, luxuries or intellectual concerns. For those men, the foremost virtues were conspicuous bravery, brutality and unconditional loyalty, which involve trust and love of truth; simulation, disguise and falsehood were capital sins for them. On the other hand, Aetius had been raised in the most sophisticated, hypocritical, luxurious, and intellectualised civilization of all. In this society open brutality, conspicuous bravery and unconditional loyalty were the fast track to failure and self-destruction. Bravery and brutality should be disguised so as not to provoke fear or suspicion in other countrymen and loyalty was pretence or a commodity for trading. You couldn’t trust anyone and truth was only a matter of convenience. The educated Roman used to learn by his own experience or by the accurate study of the best analytical and enlightened historians that simulation and falsehood were the capital virtues for a successful social or political career in his society.

            Aetius, as a Roman statesman, was an unscrupulous politician but he could also have and maintain a true friendship although always an interested one. This friendship, albeit true, had to be with one who could be useful in case of need without representing any kind of risks. This was Aetius’ way to have things done: charming and friendly behaviour disguising the coldest political calculation and the most ultimate dissimulation disguising his ruthlessness when necessary in some appropriate cases. Nevertheless, it was the roman way and I would like to ask specialists in Politics if this kind of behaviour isn’t appropriate for a true statesman in a developed and sophisticated society, for I think that it certainly is.

            His highly skilled political behaviour not only won great prizes in his brilliant career and several dedicated friends, but also distrust, suspicion and enemies, especially in the Imperial Court and in the High Echelons of the army usually formed by generals chosen by the Empress, and Aetius’ enemies, as a counterbalance to his power in the low military ranks where his popularity was enormous.

            The relationship and the game between Aetius and Empress Galla Placídia were great mysteries of the time and most historians, all of them pious clergymen who hated “pagan” Aetius because he had killed their idol, “devout catholic” Bonifatius, say that, despite being close political allies, the general and the empress were friendly enemies. According to them, she distrusted him and despised his falsehood and bad character!


Image of Gala Placidia in a golden tray - Roman-bizantyne art 5º Century AD

             But their bias against Aetius and their dishonest judgement is made evident when they talk about Attila’s invasion of the West in 452. These same pious historians and critics of his “bad character” say that there were at the time among the Romans a complete discouragement and a strong desire to negotiate with Attila no matter what the costs or consequences. Nevertheless, they add that in the middle of the rampant cowardice only Aetius stood his ground refusing any deal with Attila and almost without official support restlessly organised an alliance between the Romans and the Germanic tribes of the West which produced the decisive victory of Chalons.

            This means that despite his former friendship with the Huns and being the only Roman able to negotiate with them, in the decisive moment he opted for his country instead of his Hun friends. Attila, who was very well informed by his spies about what was happening among the Romans felt his respect for Aetius growing and, considering the facts, what we can say is that the calumnies against Aetius are so absurd that it is better to ignore them altogether. With all his defects, which actually are the statesman’s virtues, he was not only the noblest Roman citizen and gifted general of his time, but also the last.
   
            Returning to our comparison between Aetius and Attila we have already seen how different human relationships were in the Hun and Roman societies. In fact, Aetius and Attila had already perceived the gap but differently: staying in Roman cities several times, Attila knew the Roman way of life and despised it altogether. He perceived the corruption and the falsehood of its social and political spectrum, taking careful notes about what from his point of view was wrong in its decadent society. For him, this kind of civilization wasn’t worthwhile surviving.

Attila in the famous opera "Attila" by Giuseppe Verdi

            When Attila realised that his friend Aetius in whose house he was a dear guest was also a perfect product of that despicable society, in spite of his being a nice guy and a truly great warrior, he began to behave and deal with Aetius very carefully. Nevertheless, his respect for the warrior qualities of his friend remained intact. While time passed, Attila continued to take careful notes of Aetius’ military achievements and his respect for him grew stronger.

            Aetius had seen things from a different angle typical of a civilised man. For him, although healthy, the Huns’ society was also a very primitive one: it represented an old era in mankind’s history, surpassed a long time ago; so it wasn’t the Roman civilization that should recede to its barbarian stage, but the still barbaric Huns that should advance towards a more modern way of life adopting the Roman culture.

            Both cultures were completely different and incompatible; they could not coexist face to face as great military powers so one should be absorbed by the other and disappear, for they could not coexist forever. To sum up: Aetius was a modern prince who knew that the first duty for a prince was to preserve the safety of his principality at any cost without ethical or moral worries. To keep his position safe was a second duty, only a result of the first accomplishment. On the other hand, Attila was a primitive prince who cared only about his position because nations or states were things beyond his understanding. The truth was that the world was in the verge of an enormous clash of civilizations and in Chalons the West fortunately prevailed over the East.


Aetius performed by Todd Thomas in Handel's opera "Ezio" (Aetius in italian)
            
            Like his rival, Aetius also kept in high account Attila’s military skills and achievements. This kind of mutual respect led to an episode that many say to be true and many others say to be a legend, pure creation of the imagination of some flatterers, because they were also present on the occasion and they say that they didn’t see the scene. However, we have to keep in mind that legends are also an important source of history because they always have its origins in real facts. Legend is the way that in oral tradition fact is transmitted mouth-to-mouth by creative storytellers and registered in the imaginative people’s minds. If you want a more erudite definition of what legend is I dare say that legend is the poetry of history.

            Anyway, truth or legend here is the story. Reliable military witnesses told that in the aftermath of the huge and terrible Battle of Chalons, when after an agonic night the Huns conceded the costly victory to the Romans and withdrew at dawn, Aetius was on horseback, immobile, watching their retreat from a nearby hill accompanied by all his general staff and could see clearly Attila moving nervously on horseback back and forth, commanding the retreat. Suddenly, Attila realised that Aetius illuminated by the first rays of the rising sun was watching and following his movements carefully from the top of the hill.

            Attila turned his horse and galloped in Aetius’ direction for a few dozen yards, raised his right arm and very seriously made a long farewell gesture. Aetius replied in the same style and Attila, turning his horse again to his men, who were also watching the amazing, chivalrous scene, went away slowly.