Compre já

quinta-feira, 27 de março de 2014

Post nº 77

A  QUEDA  DO  IMPÉRIO ROMANO  DO  OCIDENTE

Apesar de saqueada e incendiada pelos vândalos em 455, Roma ainda sobreviveria 21 anos como Império
  
Para adquirir estes livros históricos do autor clique
acima no banner da Livraria Cultura 


      A traiçoeira morte de Flávio Aécio (20-10-454 DC), último grande general de Roma, pelas mãos do imperador Valentiniano III a quem fielmente servira durante décadas, foi também a morte do Império Romano do Ocidente como grande potência militar e relevante ator político no cenário mundial. Cinco meses depois do covarde assassinato, ex-oficiais de Aécio vingaram o antigo chefe matando Valentiniano durante competição esportiva no Campo de Marte em Roma, à qual o infame imperador comparecera com seus mais importantes ministros (16-03-455 DC). O assassinato de um imperador e dos seus mais íntimos auxiliares pela Guarda Imperial na frente de milhares de pessoas, mostrava o imenso grau de indisciplina e desprezo das tropas pelas instituições, não muito diferente da que existia no povo romano.

      O riquíssimo senador Petrônio Maximus gastou rios de dinheiro para obter o apoio das tropas e do Senado e tornou-se sucessor de Valentiniano. Para legitimar-se no trono, o novo imperador casou com a viúva do seu antecessor, em cujo assassinato ele próprio colaborara, e passou a governar tão incompetente e irresponsavelmente quanto ele. Alguns meses depois, soube-se que Genserico, rei dos vândalos, partira do seu reino no norte da África à frente de poderosa frota e grande exército para atacar Roma. Povo e autoridades entraram em pânico e o inútil Petrônio Maximus, ao invés de preparar a resistência, foi ao Senado informar que nada havia a fazer e por isso fugiria com todas as riquezas que pudesse levar consigo, deixando a cidade entregue à própria sorte. Em seu covarde discurso aconselhou os senadores a fazerem o mesmo e estes o vaiaram, atirando-lhe objetos e expulsando-o com toda a sua comitiva. Quando Petrônio Maximus saiu à rua, multidão em frente do edifício o vaiou ainda mais furiosamente e começou a apedrejá-lo. Os seus comparsas conseguiram escapar, mas ele foi capturado e apedrejado até a morte (06-10-455 DC). Depois arrastaram pelas ruas seu cadáver ensanguentado e o jogaram no rio Tibre sob aplausos e gargalhadas dos seus algozes. Três dias depois, os vândalos entraram em Roma sem qualquer resistência e saquearam a cidade à vontade, incendiando vários dos seus edifícios.

O saque de Roma pelos vândalos foi total , inclusive das igrejas e mosteiros

      Diferentemente dos visigodos quarenta e cinco anos antes, desta vez os vândalos não pouparam nada, e embora tenham respeitado o Papa e os membros do clero, despojaram as igrejas e mosteiros de tudo, roubando até mesmo as jóias sacras e os artefatos cerimoniais, inclusive os do Templo de Jerusalém, trazidos à Roma pelo imperador Tito quatro séculos antes. Levado para a África, o volumoso tesouro de inestimável valor histórico e artístico desapareceu para sempre.

      Os vândalos também aprisionaram milhares de pessoas e as levaram para vendê-las no rico mercado de escravos de Cartago ou libertar a troco de resgate aqueles que pudessem pagar. Como que para completar a vingança de Aécio, a viúva e as filhas do finado Valentiniano, que estavam em Roma indiferentes ao que se passava, foram também aprisionadas, destituídas das jóias valiosas e luxuosos vestidos, e levadas para a África como os demais prisioneiros. Correram histórias na época de que elas tinham sido vendidas como escravas por preço altíssimo em leilão conduzido pelo próprio Genserico, mas tudo indica que os “compradores” foram seus próprios filhos, que trataram muito bem as princesas. Mais tarde o Imperador Romano do Oriente pagou bom resgate por elas e o velho pirata Genserico, sempre sedento de ouro, as mandou para Constantinopla, onde terminaram confortavelmente suas vidas atribuladas.

      Após os vândalos invadirem e saquearem Roma, tudo o que restou do império até seu melancólico final em 476 foi a recordação da sua passada grandeza. A era de governos imperiais estáveis também findou com Aécio, pois nos dois anos seguintes três imperadores foram violentamente tirados do poder. Valentiniano foi morto em março de 455, e seu comparsa, assassino e sucessor Petrônio Maximus o seguiu rápido em outubro do mesmo ano. Porém, assim que os vândalos se retiraram da Itália uma assembléia de príncipes galos-germânicos se reuniu em Arles e elegeu novo imperador o distinto príncipe Avito sob gerais aplausos e grandes esperanças. Mas seu governo foi tão corrupto e incompetente como os dois que o antecederam e um ano depois ele também foi destronado (Nov./456 DC) e morto no mês seguinte.

      O trono ficou vago durante vários meses, até que Majoriano, um bravo e austero romano da velha guarda, foi eleito em julho de 457. Começou governando auspiciosamente fazendo grandes reformas de há muito necessárias, mas adiadas anos a fio devido à oposição velada de fortíssimos grupos interessados na manutenção de privilégios. Infelizmente ele declarou guerra a Genserico e o astuto rei vândalo, enquanto fingia negociar um tratado de paz, atacou o porto onde a esquadra romana estava ancorada e a destruiu. Os descontentes com as reformas imediatamente culparam Majoriano pelo desastre, tramando sangrenta conspiração para derrubá-lo, e em agosto de 461 o único imperador decente que Roma tivera no século V foi preso e executado.

      Quatro imperadores assassinados em seis anos era demais e todos os cidadãos dignos recusaram o perigoso cargo, pois tinham sabiamente concluído que sentar no trono imperial era o modo mais curto de cometer suicídio.

      Richomer, hábil político e poderoso mercenário bárbaro a serviço do império, principal sustentáculo de Majoriano no início e o maior responsável por sua queda depois, se tornou líder maior e governou durante anos através de testas-de-ferro sem qualquer expressão social, política ou militar. Finalmente a morte o afastou, mas os novos imperadores continuaram a ser tão ineficazes e incompetentes quanto os bonecos de Richomer, até que Rômulo Augustulus, jovem e educado cavalheiro ainda quase adolescente, muito admirado na alta sociedade pelo seu belo porte e elegância, foi posto no trono em 475 pelo poderoso general Orestes seu pai. Ele seria o último imperador romano do ocidente até Carlos Magno ser ungido pelo Papa sob o mesmo título no ano 800, mais de três séculos depois.

Entre a deposição de Rômulo Augustulus  e a coroação de
Carlos Magno como Imperador Romano do Ocidente
passar-se-iam 326 anos

      A maioria das pessoas, mesmo as instruídas, pensa que o fim do Império Romano foi uma catástrofe causada por súbita e arrasadora invasão de povos bárbaros vindos do leste da Europa, e que sua queda teve o ruído de um trovão. Na verdade o seu fim ocorreu vagarosamente, e o seu último ato foi tão suave e estranho que pouca gente na época julgou que ele representasse o que é hoje conhecido como “A queda do Império Romano”.
   
      É verdade que houve grandes ataques e invasões militares, como as de Átila (451 e 452 DC), mas as verdadeiras invasões eram pacíficos movimentos migratórios de tribos germânicas que pediam humildemente a imperial permissão para cruzarem a fronteira e estabelecerem-se em terras incultas e abandonadas da Gália e da Hispania, hoje Bélgica, França, Espanha e Portugal. Longe de serem abruptas e violentas, estas massivas migrações duraram quase dois séculos, e os imigrantes apenas fugiam de intermináveis guerras tribais, fome e miséria generalizadas, buscando uma vida melhor nas prósperas regiões ocidentais da Europa, protegidas pelas famosas legiões romanas e celebradas pelos andarilhos menestréis como “Terra de Leite e Mel”. Mesmo as grandes invasões militares da Itália pelos visigodos, hunos e vândalos não tiveram maior significação política na vagarosa queda do império, porque as tropas invasoras não se estabeleciam no território e logo iam embora após destruírem e roubarem o que podiam. Os bárbaros somente começaram a se instalar na Itália após a morte de Aécio.

      Durante séculos também foi popular a crença de que o Império acabara porque Roma sucumbira diante dos bárbaros devido à decadência dos costumes de sua sociedade e à corrupção da sua civilização altamente sofisticada. A licenciosidade teria destruído as virtudes guerreiras do povo romano, fazendo-o presa fácil de bárbaros primitivos, mas de costumes ainda puros e não corrompidos pelos males da civilização. A falsidade de tal interpretação reside no fato de que Roma jamais foi tão poderosa econômica, política e militarmente quanto nos séculos I, II e III da nossa Era, quando o paganismo era quase absoluto e a licenciosidade atingia os extremos descritos por vários historiadores, sobretudo Suetônio no seu famoso "Crônica Escandalosa dos Doze Césares". Ao contrário desta crença puritana, foi exatamente a partir do fim do governo de Constantino na primeira metade do século IV, com o banimento do paganismo pretensamente impuro e a adoção do cristianismo pretensamente puro, que o Império entrou em crise irreversível e lentamente desagregou-se no decorrer do século V até o seu final colapso em 476.

Os nababescos festins da aristocracia romana e a "corrupção dos costumes"
nada tiveram a ver com a desagregação e o fim do Império
   
      As causas da “Queda do Império Romano”, portanto, não foram a decadência dos costumes nem as invasões bárbaras, embora estas tenham tido importante papel no processo, sobretudo por trazerem hordas de povos primitivos para viverem numa desenvolvida e sofisticada sociedade, produzindo brutal rebaixamento no seu nível de cultura e civilização. A principal causa do fim do império foi a transição do sistema escravocrata para o sistema feudal. Infelizmente para Aécio, ele foi o primeiro estadista romano a perceber que a única chance de sobrevivência do império seria a adoção do novo sistema, único que os bárbaros, avessos ao regime escravocrata, poderiam aceitar.

      A escravidão nos campos seria substituída pela servidão, fazendo dos antigos escravos inquilinos perpétuos da terra possuída por um senhor que lhes cobraria obediência e parte da produção como aluguel; este senhor possuiria a terra em nome de outro senhor mais poderoso, ao qual também pagaria obediência e aluguel, e este faria o mesmo em relação a outro senhor ainda mais poderoso, e assim por diante até chegar à pessoa do imperador. Este sistema já estava em vigor em algumas remotas regiões da Gália e da Espanha ocupadas pelos bárbaros, mas os proprietários de cultura romana não queriam nem ouvir falar dele, porque além de representar uma diminuição temporária dos lucros líquidos e do domínio discricionário sobre a terra, também significava a perda total do imenso patrimônio que os escravos representavam. Ademais, não conseguiam imaginar como poderia uma família aristocrática viver sem escravos! Foi a simpatia de Aécio pelo novo sistema, e o apoio dado aos bárbaros para desenvolvê-lo nas terras por eles ocupadas, o maior motivo para que a aristocracia romana sempre o olhasse com grande suspeita, e esta foi uma das razões que contribuíram para que ele jamais se tornasse imperador.

A substituição dos pequenos proprietários rurais por grandes latifundiários exigia exércitos de escravos e foi a
crise do sistema escravocrata a principal causa da desagregação do Império Romano do Ocidente
 

      Fato concreto é que o novo sistema não foi adotado a tempo de salvar o império e o mundo ocidental mergulhou em completa anarquia e selvageria por mais de três séculos, período obscuro conhecido como “Alta Idade Média”. Somente quando certa ordem voltou no tempo de Carlos Magno o sistema feudal adquiriu formato jurídico definitivo e no final do século IX implantara-se em toda a Europa, extinguindo a escravidão no continente. Porém o colapso das instituições do império quatro séculos antes tinha causado tamanho atraso econômico e retrocesso cultural, que mais cinco séculos se passariam até que viesse a Renascença e o tempo perdido começasse a ser recuperado.

      Mas voltando a Rômulo Augustulus, deve ser dito que ele governou apenas simbolicamente, tanto quanto os atuais soberanos europeus governam os seus reinos democráticos. Um ano após a coroação do último imperador, o rei dos hérulos Odoacro, que há anos assolava o norte da Itália com seus bandos de ferozes guerreiros, derrotou em batalha o seu ex-amigo general Orestes, pai do imperador, e assumiu o controle da Itália. Como resultado, achou desnecessário alguém em Ravena usando o título de imperador e posando de governante, pois queria governar o seu recém adquirido reino diretamente do palácio imperial em Ravena, como natural ao soberano da Itália. Mas para isso teria que despejar seu ocupante, “simpático jovem filho do seu ex-amigo Orestes, tornado inimigo por força das circunstâncias”!


Rômulo Augustulus recebe Odoacro com grandes honras nos portões de Ravena e humildemente
põe aos seus pés a sua coroa imperial (476 DC)

      Sendo hábil político e amante das formalidades legais, só recorrendo à força em último caso, Odoacro ficou feliz ao ver o imperador de Roma curvar-se diante dele e lhe fez excelente oferta: Rômulo Augustulus renunciaria ao seu título em solene cerimônia pública e sairia do palácio imperial espontaneamente em troca de magnífica mansão à beira mar, grande quantia em ouro no ato e excelente pensão anual, o bastante para que vivesse principescamente o resto da vida. Selado o acordo, ele renunciou como combinado (Set./476 DC) e foi viver em seu novo palácio como simples particular, evitando meter-se em assuntos políticos daí em diante.

      A ironia do prosaico evento, mais tarde chamado A Queda do Império Romano, foi que Odoacro era filho de importante ministro de Átila, e os hérulus, seu povo, eram uma tribo germânica que lutara sob a bandeira de Átila na Gália e na Itália, misturando-se largamente com os hunos. Em conseqüência, penso ser apropriado dizer que os hunos, derrotados por Aécio duas vezes, foram indiretamente vitoriosos no final. Por outro lado, o ridículo “negócio” entre Odoacro e Rômulo Augustulus povoou o anedotário fazendo as pessoas rirem em toda parte, mostrando que ao invés de ter sido o resultado de terrível batalha entre romanos e bárbaros, a chamada “Queda do Império Romano” foi apenas o resultado de um lucrativo acordo de cavalheiros.

Em solene cerimônia Rômulo Augustulus renuncia ao título de
imperador e passa a Odoacro as insígnias do poder imperial

      Indignado com a negociata, o Imperador Romano do Oriente reclamou o trono vazio sob o “argumento legal” de que era o legítimo herdeiro do Império Ocidental no caso do seu titular morrer ou renunciar sem deixar herdeiros e o senado romano não lhe eleger um sucessor. Mas Odoacro respondeu aos seus “clamores jurídicos” fazendo o senado escrever-lhe dizendo que “Um novo imperador é desnecessário ao povo romano, pois todos estão felizes e seguros sob o profícuo governo de Odoacro; de sorte que o melhor para sua Majestade do Oriente será cuidar dos seus próprios graves assuntos, um pesado fardo mesmo para alguém tão sábio e competente, e parar de se intrometer nos negócios do Ocidente de uma vez por todas”! Para completar, o senado romano mandou para Constantinopla a coroa e as insígnias do último Imperador do Ocidente, dizendo que ao Império bastava um só imperador e sua Majestade Oriental poderia usar as jóias também como Majestade Ocidental desde que não se metesse nos negócios do Ocidente.

      O povo romano considerou tudo uma piada e o caso virou apenas mais uma anedota entre as muitas que circulavam na ocasião. Assim, ao contrário do que muitos pensam, o Império Romano do Ocidente não caiu em meio a gritos de tragédia, mas em meio a gargalhadas de comédia.

      Na época ninguém achou que o Império houvesse acabado: “Mais cedo ou mais tarde um imperador como Teodósio o Grande irá surgir e colocará tudo novamente nos seus devidos lugares, fazendo as coisas voltarem à normalidade!” era o sentimento generalizado. Mas quando um ano passou e virou uma década e a década virou um século sem que nenhum novo grande imperador aparecesse, as pessoas finalmente perceberam que o Império tinha terminado e os historiadores tomaram o ano de 476 como data de sua queda. Na verdade o Império morrera vinte e dois antes junto com Flávio Aécio, seu último grande general.

Sic Transit Gloria Mundi


  

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Post nº 76

PERFIL  DE  UTHER  -  “O  SENHOR  DOS  DRAGÕES”

Uther era astuto, leal com amigos, impiedoso com inimigos e generoso com o povo. Mais
que qualquer outro cultivou a própria lenda e virou "O Senhor dos Dragões"



Para adquirir estes livros históricos pela internet
clique acima no banner da Livraria Cultura



Eis como o frade romano Gildasius Pisannensis descreve o seu amigo príncipe Uther Pendragon, cognominado por seus súditos de “O Senhor dos Dragões”.


            Ainda quando estudava com os padres em Bath, assimilara a fundo o preceito evangélico: “Sede simples como a pomba e astuto como a serpente”! Mas à medida que aprendia com a vida fez ao santo mandamento um pequeno acréscimo: “Sede simples como a pomba, astuto como a serpente e mortífero como o leão”!

            Era homem simples e cordial, jamais mostrando pompa ou orgulho e tratando a todos como seus iguais. Também era polido e atencioso, e na medida do possível ajudava os que recorriam aos seus préstimos. Arrogância era uma palavra que não existia no seu dicionário. Porém essa postura pessoal era apenas a base sólida para o exercício da sua principal qualidade: a astúcia!
 
            Conquistava as pessoas com seus modos simples e amigáveis apenas para usá-las na consecução dos seus objetivos; mas como muitas vezes não precisava delas no presente, nunca excluía a hipótese de precisar delas no futuro, e mantinha a mesma postura simples e cordial em todas as ocasiões. Até porque isto lhe evitava possíveis acusações de falsidade ou hipocrisia. Sabia distinguir amigos e inimigos não apenas pelo que diziam ou faziam, mas também por um simples gesto ou palavra, e às vezes até mesmo por um olhar. Era exímio conhecedor de pessoas e excelente jogador, prevendo sempre com antecedência duas ou três jogadas à frente; isto fazia com que ninguém o superasse em qualquer tipo de negociação, e embora nada fizesse que não fosse do seu próprio interesse, premiava os que lhe serviam com lealdade, reforçando sua reputação de homem correto e desarmando espíritos menos sutis que o seu. Muitos anos depois, quando já éramos amigos íntimos, questionei seu excessivo pragmatismo e ele me respondeu com toda a sinceridade do seu espírito simples: “Olhe aqui, Gildásio: você só é frade porque sua mulher morreu e você quis ganhar do céu o conforto que a terra lhe negou, por isso pare com essa tolice de dizer que existem pessoas que não agem por interesse. Até mesmo o santo só é santo porque deseja ganhar de Deus a recompensa do paraíso”!

            Assim era Uther: duro, pragmático e objetivo. Porque era simples e cordial jamais usava palavras ásperas, e porque era astuto jamais fazia ameaças, pois raciocinava corretamente: “Ameaças só servem para prevenir os inimigos e despertá-los da sua falsa sensação de segurança; melhor deixá-los adormecidos para mais facilmente liquidá-los no momento oportuno”! E aí entrava a terceira virtude que ele acrescentara ao mandamento evangélico: a mortífera agilidade do leão!

Uther impressionava por seu porte, bravura e frieza, sua voz forte, segura e impositiva,
mas sobretudo pelo medo causado pela fama que o acompanhava

            Ele fazia de tudo para não entrar numa briga, mas se nela entrasse o fazia de modo tão rápido e letal que destruía completamente o inimigo e os seus aliados, não sobrando ninguém para revidar. Por isso é que ao eliminar os filhos e genros de Gorlósio eliminara também seus descendentes varões. Apesar disso ele se considerava generoso e humanitário, pois nunca matava por matar. Na verdade o seu objetivo não era torturar ou matar ninguém: era apenas livrar-se de um incômodo. Uma vez ele me disse com a mais fria honestidade: “Saiba você, meu bom Gildásio, que jamais fiz o mal quando podia fazer o bem ou matei alguém que não merecesse morrer para beneficio de todos. Jamais maltratei pessoa alguma, nem mesmo meus piores inimigos, e quando fui obrigado a eliminá-los o fiz de forma rápida e quase indolor, poupando-os de sofrimentos desnecessários”!

            Também se julgava um homem da lei, pois há tempos descobrira que a forma melhor de manter o poder era através de leis que o legitimassem e dessem ao governante a reputação de ser justo e imparcial. Para tal fim nada melhor do que leis escritas ministradas por juízes instruídos. A palavra escrita sempre tivera entre os povos cultos grande prestígio e entre os incultos respeito quase religioso; por isso comprou em Bath um exemplar do Código Teodosiano, promulgado pelo Imperador Romano do Oriente, e sabendo ler bem o latim o examinou com auxílio de um advogado e dele excluiu todas as regras em desacordo com os costumes de Cornwall, acrescentando-lhe algumas que aumentavam o poder do Marchensis romano; ou seja, dele próprio. Depois contratou escribas para fazerem uma pequena edição privada do código por ele modificado e pôs ricas capas de couro nos exemplares produzidos. Os escribas estavam ansiosos por um emprego seguro, e quando lhes ofereceu o cargo de juízes em Cornwall aceitaram sem hesitar. Deu-lhes roupas vistosas e os instalou dignamente nos vilarejos mais importantes, decretando que dali em diante todos os litígios deviam ser a eles submetidos e decididos de acordo com as leis da “Santa Igreja”, pois, sendo um governante romano e cristão, outras leis não poderia ele admitir em seu distrito senão aquelas decretadas pelo imperador e aprovadas pela Igreja!

Melhor que ninguém Uther soube cultivar mitos que incendiavam a imaginação
popular e tornou-se legendário

            Porém a nomeação dos juízes não lhe custou praticamente nada, pois uma taxa era cobrada aos vencidos em proporção ao valor do litígio por eles causado. Nos casos criminais uma pesada multa era aplicada ao infrator, e quando havia condenação à morte todos os bens do condenado iam para os “cofres públicos”. Mas ele sabia que a tentação de suborno e extorsão era grande e poderia desviar os juízes da função para a qual os nomeara, desmoralizando o sistema que tentava implantar. Em conseqüência os advertiu previamente de que qualquer ato de corrupção resultaria na imediata execução do juiz corrupto, e para mostrar que não estava brincando enforcou pessoalmente diante deles dois ladrões presos alguns dias antes, enquanto dizia aos futuros julgadores: “Um juiz corrupto é três vezes mais ladrão do que qualquer ladrão comum; por isso ao invés de enforcá-lo eu o manterei vivo e cortarei seus pés e pernas, depois cortarei suas mãos e braços, e finalmente cortarei sua cabeça, mandando espetar seus restos em estacas para que sejam comidos pelos urubus. A falta de um enterro cristão também condenará sua alma ao inferno”!

            Claro que se podia apelar ao Marchensis da sentença, mas quando não era do seu interesse modificá-la dizia ao apelante que o juiz fizera o que a lei mandava, e como “suprema autoridade imperial” ele era obrigado a cumpri-la; infelizmente não podia fazer nada pelo “prezado amigo”, pois a lei era a lei. Nas poucas apelações que atendia dizia que o juiz se enganara e aplicara a lei de forma errônea, devendo ser por isso severamente repreendido. Ele nunca o repreendia, limitando-se a modificar a decisão através de uma boa justificativa legal feita pelo próprio juiz que a prolatara e chamado para ouvir a “repreensão”, mas na verdade para redigir a decisão modificando sua sentença. Isto os ensinou que nos casos importantes deviam antes ouvir a opinião do chefe. Porém apelações eram raras, pois ordenara aos juízes decidirem com o vistoso código aberto e lendo para os litigantes a regra na qual se baseavam. Eles não entendiam nada da leitura porque quase ninguém sabia latim, mas isto só fazia aumentar o prestígio da decisão, pois nas suas mentes simples as misteriosas palavras soavam como algo mágico e a lei adquiria significado místico, fazendo-a temida e obedecida. Aos poucos a justiça romana, ou melhor, a justiça de Uther, se tornou respeitada em todo Cornwall pela sua “correção e imparcialidade”!

Ninguém ousava desafiar Uther, homem cuja lenda dizia que vencia e domava dragões

            Todavia os mais poderosos senhores continuavam fora do seu alcance porque todos eles tinham exércitos particulares, e embora fossem leais ao “chefe dos chefes” sempre poderiam se revoltar. Aliás, essa coisa de “chefes” o incomodava bastante, pois no seu entendimento o poder era indivisível, mas enquanto não pudesse acabar com seus bandos armados teria de dançar de acordo com a música. Assim, tal como o imperador Augusto, que governava como ditador enquanto fingia que tudo era decidido pelo senado, Uther costumava convocar os chefes regularmente para reuniões onde os assuntos importantes eram discutidos. Geralmente expunha a matéria sem dar opinião, dizendo que ouviria todos os demais e a decisão seria tomada em conjunto. Embora ele já houvesse decidido previamente, deixava que a discussão se aprofundasse, ouvindo atentamente e não apresentado objeções às opiniões contrárias que iam aparecendo, mas fazia muitas perguntas sob o pretexto de querer entendê-las melhor até que elas se mostravam inviáveis aos olhos dos demais e alguém aparecia com a opinião que lhe interessava. Porém continuava perguntando e aos poucos ia concordando, até que todos também concordavam e ele proclamava que a opinião do amigo fulano prevalecera por unanimidade. Às vezes não se chegava a um consenso e ele dizia impaciente: “Todos sabem que sou homem razoável, que sempre concorda com as sábias opiniões dos amigos e que jamais aprovaria algo que não fosse do nosso mútuo interesse, mas sou obrigado a dizer que a opinião do amigo cicrano é a que melhor atende às circunstâncias atuais e peço aos que confiam no meu julgamento que apóiem a opinião dele. Vamos votar”.

            Ele nunca perdia, e os senhores cuja opinião tinha prevalecido, e até mesmo os que tinham sido vencidos, aplaudiam o seu espírito conciliador.

            Este era o verdadeiro Uther Pendragon, “Senhor dos Dragões”, príncipe bravo e correto que todos viam, respeitavam e temiam, mas que pouquíssimos conheciam.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Post nº 75

ATTILA  AND  AETIUS  -  A  STUDY  OF  CHARACTER
"Legend is the poetry of history"          
The author           

Aetius in front of his gothic troops on the eve of the battle of Chalons - Scene of the famous
opera "Attila" by Giuseppe Verdi

To buy these books in English look for them at Amazon.com

To buy this book in portuguese look for it on the
banner of Livraria Cultura above


            I don’t know in History any coincidence more amazing than the relationship between Attila and Aetius: two men of the same age, from completely different nations and civilizations; who albeit separated by hundreds of miles lived for long periods in each other’s houses; who were friends from youth; who became leaders of their respective people and in a decisive moment for the survival of their peoples and civilizations became ferocious enemies on the battlefield, playing the most dangerous, bloody and decisive game in the history of the Western Roman Empire.

            The one who won the game would impose his civilization all over Europe. Therefore, if Attila had won Europe would be now a pagan primitive Asiatic Civilization instead of a Christian advanced Roman one. The fact was that even after becoming enemies Aetius and Attila always maintained the most profound respect for each other’s military skills, and this respect was transmitted to their respective followers and Armies. This doesn’t mean that both men were good fellows, God forbid, for both of them were capable of the most terrible deeds to reach their respective goals; for instance: Attila killed his only brother to occupy the Royal throne alone, only three years after both of them had begun to reign together; Aetius killed his most dangerous rival when he discovered that his enemy and followers were planning a plot to destroy his position in the Roman Army and in the Imperial Court.

            They were brave and skilled warriors, sharing the same personal abilities in individual fighting, for Aetius, as said by Gregorius De Tours, was ‘eques promptissimus sagittarum jactu peritus’ (the most speedy riding his horse and expert shooting his bow), and Attila was the same according to history. They were ruthless, cold and dangerous in political and military matters, but they were also kind and generous to their friends once assured that they weren’t a risk to their political or military power. They could perceive a false friend or a scoundrel from afar, but they could also recognize the worth qualities of a man and, what was still more important: respect these qualities even if he was an enemy.

            However, there were also important differences in the character of both men in political and military aspects, for Attila and so the Huns used to play clean and fair: loyalty and trust was his trademark, but not Aetius’ and even less the Romans’.

            The motto for Attila seemed to be: ‘If you want to kill a man, be harsh and challenge him to a single combat face to face; violence is the best way to solve problems and must always be used to impose fear and respect’. For Aetius it seemed to be quite the opposite: ‘If you want to kill a man, be kind and polite and do it as smoothly and diplomatically as possible; violence is the last resort to solve problems and must be used only when strictly necessary’.

            But this doesn’t mean that Aetius was in want of courage; in fact courage was one of his most remarkable attributes, as Merobaldus said in his Panegyric: ‘lorica non tam munimen quam vestimentum’ (for you, armour wasn’t a protection, but an ornament).


Aetius talks to one of his generals in the famous opera "Attila" by Giuseppe Verdi
  
            However, the two men’s differences of character were due more to their cultural environments than to their personalities. Attila had been raised riding horses on the open plains with his friends without any sort of sophistication, luxuries or intellectual concerns. For those men, the foremost virtues were conspicuous bravery, brutality and unconditional loyalty, which involve trust and love of truth; simulation, disguise and falsehood were capital sins for them. On the other hand, Aetius had been raised in the most sophisticated, hypocritical, luxurious, and intellectualised civilization of all. In this society open brutality, conspicuous bravery and unconditional loyalty were the fast track to failure and self-destruction. Bravery and brutality should be disguised so as not to provoke fear or suspicion in other countrymen and loyalty was pretence or a commodity for trading. You couldn’t trust anyone and truth was only a matter of convenience. The educated Roman used to learn by his own experience or by the accurate study of the best analytical and enlightened historians that simulation and falsehood were the capital virtues for a successful social or political career in his society.

            Aetius, as a Roman statesman, was an unscrupulous politician but he could also have and maintain a true friendship although always an interested one. This friendship, albeit true, had to be with one who could be useful in case of need without representing any kind of risks. This was Aetius’ way to have things done: charming and friendly behaviour disguising the coldest political calculation and the most ultimate dissimulation disguising his ruthlessness when necessary in some appropriate cases. Nevertheless, it was the roman way and I would like to ask specialists in Politics if this kind of behaviour isn’t appropriate for a true statesman in a developed and sophisticated society, for I think that it certainly is.

            His highly skilled political behaviour not only won great prizes in his brilliant career and several dedicated friends, but also distrust, suspicion and enemies, especially in the Imperial Court and in the High Echelons of the army usually formed by generals chosen by the Empress, and Aetius’ enemies, as a counterbalance to his power in the low military ranks where his popularity was enormous.

            The relationship and the game between Aetius and Empress Galla Placídia were great mysteries of the time and most historians, all of them pious clergymen who hated “pagan” Aetius because he had killed their idol, “devout catholic” Bonifatius, say that, despite being close political allies, the general and the empress were friendly enemies. According to them, she distrusted him and despised his falsehood and bad character!


Image of Gala Placidia in a golden tray - Roman-bizantyne art 5º Century AD

             But their bias against Aetius and their dishonest judgement is made evident when they talk about Attila’s invasion of the West in 452. These same pious historians and critics of his “bad character” say that there were at the time among the Romans a complete discouragement and a strong desire to negotiate with Attila no matter what the costs or consequences. Nevertheless, they add that in the middle of the rampant cowardice only Aetius stood his ground refusing any deal with Attila and almost without official support restlessly organised an alliance between the Romans and the Germanic tribes of the West which produced the decisive victory of Chalons.

            This means that despite his former friendship with the Huns and being the only Roman able to negotiate with them, in the decisive moment he opted for his country instead of his Hun friends. Attila, who was very well informed by his spies about what was happening among the Romans felt his respect for Aetius growing and, considering the facts, what we can say is that the calumnies against Aetius are so absurd that it is better to ignore them altogether. With all his defects, which actually are the statesman’s virtues, he was not only the noblest Roman citizen and gifted general of his time, but also the last.
   
            Returning to our comparison between Aetius and Attila we have already seen how different human relationships were in the Hun and Roman societies. In fact, Aetius and Attila had already perceived the gap but differently: staying in Roman cities several times, Attila knew the Roman way of life and despised it altogether. He perceived the corruption and the falsehood of its social and political spectrum, taking careful notes about what from his point of view was wrong in its decadent society. For him, this kind of civilization wasn’t worthwhile surviving.

Attila in the famous opera "Attila" by Giuseppe Verdi

            When Attila realised that his friend Aetius in whose house he was a dear guest was also a perfect product of that despicable society, in spite of his being a nice guy and a truly great warrior, he began to behave and deal with Aetius very carefully. Nevertheless, his respect for the warrior qualities of his friend remained intact. While time passed, Attila continued to take careful notes of Aetius’ military achievements and his respect for him grew stronger.

            Aetius had seen things from a different angle typical of a civilised man. For him, although healthy, the Huns’ society was also a very primitive one: it represented an old era in mankind’s history, surpassed a long time ago; so it wasn’t the Roman civilization that should recede to its barbarian stage, but the still barbaric Huns that should advance towards a more modern way of life adopting the Roman culture.

            Both cultures were completely different and incompatible; they could not coexist face to face as great military powers so one should be absorbed by the other and disappear, for they could not coexist forever. To sum up: Aetius was a modern prince who knew that the first duty for a prince was to preserve the safety of his principality at any cost without ethical or moral worries. To keep his position safe was a second duty, only a result of the first accomplishment. On the other hand, Attila was a primitive prince who cared only about his position because nations or states were things beyond his understanding. The truth was that the world was in the verge of an enormous clash of civilizations and in Chalons the West fortunately prevailed over the East.


Aetius performed by Todd Thomas in Handel's opera "Ezio" (Aetius in italian)
            
            Like his rival, Aetius also kept in high account Attila’s military skills and achievements. This kind of mutual respect led to an episode that many say to be true and many others say to be a legend, pure creation of the imagination of some flatterers, because they were also present on the occasion and they say that they didn’t see the scene. However, we have to keep in mind that legends are also an important source of history because they always have its origins in real facts. Legend is the way that in oral tradition fact is transmitted mouth-to-mouth by creative storytellers and registered in the imaginative people’s minds. If you want a more erudite definition of what legend is I dare say that legend is the poetry of history.

            Anyway, truth or legend here is the story. Reliable military witnesses told that in the aftermath of the huge and terrible Battle of Chalons, when after an agonic night the Huns conceded the costly victory to the Romans and withdrew at dawn, Aetius was on horseback, immobile, watching their retreat from a nearby hill accompanied by all his general staff and could see clearly Attila moving nervously on horseback back and forth, commanding the retreat. Suddenly, Attila realised that Aetius illuminated by the first rays of the rising sun was watching and following his movements carefully from the top of the hill.

            Attila turned his horse and galloped in Aetius’ direction for a few dozen yards, raised his right arm and very seriously made a long farewell gesture. Aetius replied in the same style and Attila, turning his horse again to his men, who were also watching the amazing, chivalrous scene, went away slowly.



segunda-feira, 15 de abril de 2013

Post nº 74

AVITUS  -  O  IMPERADOR  QUE  VIROU  BISPO

Efígie de Avitus em moeda cunhada durante seu curto reinado (455-456 DC)




Para adquirir estes livros do autor clique acima no
banner da Livraria Cultura

            
             Em 455 Genserico, rei dos vândalos, marchou contra Roma e o covarde imperador Petrônio Maximus ao invés de lhe opor resistência resolveu fugir, aconselhando os senadores a fazerem o mesmo. Estes o apuparam e quando ele saiu à rua com sua claque de fujões o povo os vaiou e apedrejou. Todos correram, mas a furiosa multidão agarrou o imperador e o apedrejou até matá-lo em plena via pública. Depois o arrastou pelas ruas e o jogou nas águas do rio Tibre, de onde o cadáver nunca foi recuperado. A cidade ficou entregue à anarquia até os vândalos chegarem alguns dias depois e a saquearem durante uma semana, roubando e prendendo gente rica para dela cobrar resgate. Concluído o saque de tudo que tivesse algum valor, Genserico voltou ao seu reino deixando a “capital do mundo” nua das imensas riquezas que por tantos séculos ostentara.

Em 70 DC os romanos saquearam o sagrado tesouro do Templo de Jerusalém e o guardaram em Roma como
troféu, mas em 455 os Vândalos o tomaram e o levaram para a África, onde sumiu para sempre

             Roma ficou várias semanas sem governo até assembléia de príncipes germânicos reunida em Arles aclamar novo imperador o príncipe Avitus, galo-romano de família riquíssima, natural de Clermont na França atual, que fora amigo íntimo de Aécio e ocupara importantes cargos imperiais, inclusive o de governador da Gália nos anos 430. Enfadado das tarefas oficiais, ele se recolhera à luxuosa vida privada em seu palácio particular de Clermont por mais de uma década, mas Aécio interrompera o seu ócio e o trouxera de volta à atividade durante a invasão de Átila, fazendo com que ele participasse ao seu lado da batalha dos Campos Catalúnicos em julho de 451. Sendo homem muito culto, passara longa temporada na corte de Teodorico, rei dos visigodos, aproveitando sua estadia para ensinar poética, retórica e literatura ao príncipe herdeiro, futuro Teodorico II. Ótimo diplomata, antes da decisiva batalha fora encarregado por Aécio de trazer o velho rei Teodorico para a coalizão contra Átila, pois devido a antigas querelas ele hesitava juntar-se ao general romano. Avitus aplainara as divergências e Teodorico aliara-se a Aécio, possibilitando a derrota dos hunos.

             Agradecido, Aécio o fez novamente governador da Gália e ele ficara no cargo até o assassinato do amigo, quando então se demitiu, mas Petrônio Maximus,  em um dos seus poucos atos inteligentes, insistira para que voltasse devido às suas excelentes relações com os povos germânicos de há muito estabelecidos na grande província. Estava há pouco tempo no cargo pela terceira vez quando a assembléia de príncipes o aclamou imperador, mas a escolha só foi aprovada pelo senado romano sob a condição dele vir residir na cidade, pois há quase um século a capital administrativa mudara por razões estratégicas, primeiro para Milão e depois para Ravena, permanecendo Roma apenas a capital oficial. Avitus aceitou e viajou para a grande metrópole sob gerais aplausos.

Os visigodos possuíam grande valor guerreiro e o seu apoio aos romanos, conseguido por Avitus, foi decisivo
para que Aécio derrotasse Átila na grande batalha dos Campos Catalúnicos (451 DC)

             O auspicioso início do seu governo logo deu lugar a intensa recriminação popular e a forte oposição no Senado, pois o novo imperador nenhuma medida tomou para sanar a grave situação em que ficara Roma após a catastrófica invasão dos vândalos. Enquanto a economia e a administração imperial se deterioravam ainda mais, ele permanecia inerte e indiferente, preocupado apenas em manter o luxuoso estilo de vida a que estava acostumado na vida privada e do qual jamais se afastara mesmo quando exercera importantes magistraturas oficiais e governara a Gália. A verdade é que Avitus era afeiçoado ao ócio e estava habituado apenas a funções burocráticas rotineiras que davam grande prestígio, mas não exigiam esforço nem requeriam a tomada de graves decisões, sendo inteiramente inadequado para lidar com situações excepcionais onde liderança e competência administrativa eram fundamentais. O resultado foi o Senado expulsá-lo do trono imperial sob instigação do poderoso conde Ricimerus após apenas um ano de governo. Inconformado, Avitus voltou-se para a Gália em busca de suporte porque, repudiado pelo senado que festivamente o recebera um ano antes, fugira de Roma e agora pedia aos príncipes gauleses que o aclamaram para repô-lo no trono.

             Como pudera ocorrer tão brusca mudança de sentimentos em menos de doze meses? A resposta era simples: incompetência e corrupção, as mesmas doenças dos outros dois últimos imperadores. As virtudes que tinham feito o riquíssimo Avitus popular entre os rudes príncipes da Gália eram a refinada educação e o talento diplomático. Muito gentil, instruído, elegante e sedutor, ele conquistara os príncipes e, conforme as más línguas, também suas mulheres. Como governador, pusera em prática aquilo que melhor sabia fazer: nada! Deixava os príncipes dirigirem seus domínios como bem entendessem, limitando-se a assinar os decretos que lhe traziam prontos e suas inspeções eram agradáveis visitas sociais aos amigos ao invés de fiscalizações de um enérgico delegado imperial visando corrigir abusos e injustiças. Em conseqüência gozava de grande popularidade entre os príncipes, dos quais era apenas um carimbo.

             Na verdade, o seu modo de governar era adequado ao caso da Gália, pois de há muito fora ela dividida em principados bárbaros romanizados cujos líderes governavam sob títulos romanos dados pelo imperador: cônsul, prefeito, pretor e conde. Mas a obediência ao monarca limitava-se ao fornecimento de tropas para repelir outros invasores que viessem tomar as terras que lhes tinham sido concedidas e ao pagamento de um tributo anual. Nada mais. Isto significa que referidos príncipes eram independentes de fato, embora não de direito, o que os tornava súditos inúteis ao imperador no caso de revolta ou de invasão em outro lugar que não fosse a Gália. Ao ir para a Itália Avitus ficara por conta própria, apesar de não sabê-lo e achar que ninguém em Roma o desafiaria por contar com os príncipes gauleses caso lhe ameaçassem o poder por eles outorgado, mas a falsidade da sua certeza ele teria de descobrir com a própria experiência.

             Fato é que uma vez em Roma ele teria que governar para e com os romanos, fazendo face aos imensos problemas que enfrentavam e não deles se distanciando como se ainda estivesse na Gália governando para e com seus compadres gauleses. Ao se deparar com a dura realidade, custou a entender que o confortável estilo por ele adotado na Gália era totalmente inadequado para um vasto império que se desintegrava e necessitava de um líder forte e enérgico. Sua fina educação, elegância e diplomacia, que tanto sucesso faziam entre os bárbaros, eram irrelevantes em Roma, pois a cidade estava cheia de nobres com suas mesmas qualidades. Para piorar as coisas, na sofisticada capital do mundo ele se dedicara com afinco ao seu esporte predileto na rude província: a caça às mulheres!

             Tudo indica que acostumado às grosseiras damas gaulesas ele perdera a cabeça ao ver as lindas e elegantíssimas damas romanas, passando a agir de forma cínica e despudorada, assediando até mesmo aquelas de reconhecida virtude. Em todo caso tivera sucesso com muitas senhoras e senhoritas da mais alta aristocracia e pusera afrontosos chifres nas testas de alguns dos mais influentes senadores.

Flavius Ricimerus (nome germânico Richomer ou Ricimer). Um dos poucos generais que tiveram sua
efígie em moedas sem ocuparem o trono imperial
      
             Sua incompetência administrativa e seu mau comportamento já tinham posto sua reputação em nível baixíssimo quando Ricimerus destruiu grande frota vândala que ia para o norte da Itália fazer o mesmo que fizera um ano antes no sul: roubar, destruir e escravizar. A vitória foi esmagadora e Ricimerus foi recebido em Roma não só como triunfador, mas também como vingador! Desmoralização suprema, Avitus não foi convidado para as festas, e quando quis ir de qualquer forma Ricimerus lhe disse que seria preso se fosse, devendo deixar o trono antes que dele fosse retirado à força. Em desespero, fugiu para o norte com seus guardas e pediu aos príncipes que lhe fornecessem tropas para resistir à rebelião, mas eles se negaram ao ver que nada ganhariam, pois Ricimerus proibira a volta de Avitus a Roma e eles não iriam lutar por uma causa que nenhuma vantagem lhes traria. O imperador inútil teria que se costurar com as próprias linhas.

             Ao saberem da recusa dos príncipes e verem a ameaça de guerra civil afastada, os senadores romanos resolveram se vingar das humilhações, da desonra das filhas e dos chifres que Avitus lhes pusera, condenando-o à morte e prometendo boa recompensa a quem o executasse. A sentença era absurda, pois Avitus não cometera crime algum, a não ser os de adultério e sedução de esposas e filhas de aristocratas, mas para eles referidas "infrações" eram muito mais graves do que roubo e assassinato! Tentando escapar do supremo opróbio ele não só renunciou formalmente ao trono como praticou ato de supremo cretinismo: gastando rios de dinheiro obteve dos habitantes de Piacenza sua eleição para o cargo de bispo da cidade, pois a lei canônica conferia imunidade aos príncipes da Igreja. O resultado foi que num passe de mágica um imperador virou bispo como se fora o auge de uma tragicomédia em teatro de 3ª categoria!

             A história do século 5º é péssima, havendo versão de que Avitus travou batalha com Ricimerus e após ser derrotado foi por ele obrigado a se tornar bispo, mas isso não tem nenhum suporte lógico porque Avitus não possuía exército devido à geral falta de apoio e não havia razão para que Ricimerus o obrigasse a usar a tiara ao invés do diadema. Até porque o seu dever era executá-lo, cumprindo sentença do Senado, e não dar-lhe imunidade. Tudo indica que o pseudo fato é invenção de Sidonius Apolinarius, genro de Avitus e historiador que tudo fez para livrar sua memória do ridículo.

             Vago o trono definitivamente, não havia a menor suspeita sobre quem o ocuparia, pois o conde Ricimerus, único com poder militar suficiente para ocupá-lo, não podia fazê-lo porque era mercenário bárbaro que nem sequer era cidadão romano. Se o ocupasse, ninguém o levaria a sério: nem os romanos nem os reis bárbaros vassalos, todos eles rivais entre si. No entretempo, Avitus pediu ao Senado que a sentença de morte expedida contra ele fosse revogada devido ao seu novo status clerical, mas aí lhe veio o golpe final: o Papa declarou nula sua eleição ao bispado de Piacenza devido ao fato dele não possuir ordens sacras e por isso estar impedido pela lei canônica de ser bispo. Vendo que poderia ser preso a qualquer momento, ou até mesmo assassinado por alguém em busca da recompensa oferecida pelo Senado, Avitus fugiu com seus guardas a procura de esconderijo nos Alpes em pleno inverno, porém semanas depois alguns deles voltaram dizendo que ele morrera de morte natural nas montanhas e lá fora enterrado.

             Novamente há a versão de que ele morreu não quando fugia, mas quando viajava a fim de levar sagrada relíquia para importante diocese gaulesa. Dessa tola versão deve ser dito o mesmo que foi dito da outra sobre a sua ridícula transformação em bispo.

             Fato é que a história dos soldados sobre o verdadeiro fim de Avitus parecia ser correta, pois ninguém reclamou o prêmio pela possível execução do condenado, mas existia a suspeita de que o ex-imperador se escondera em lugar secreto e ele próprio mandara seus fiéis seguidores divulgarem a história para que a perseguição cessasse e o deixassem terminar seus dias em paz.

             Nunca se soube com certeza qual das versões era a verdadeira, mas, vivo ou morto, o bom camarada Avitus sumiu de vez do cenário sócio-político europeu, deixando como marca própria apenas a ridícula história do imperador que virou bispo para escapar de absurda sentença de morte, decretada tão somente porque ousara plantar vistosos chifres nas testas de eminentes senadores.




quinta-feira, 11 de abril de 2013

Post nº 73

ALEXANDRE  MAGNO  -  O  JOVEM  REI  QUE  CONQUISTOU  O  MUNDO

Alexandre Magno - Retrato bastante fiel à realidade, feito com base em seus bustos,
 estátuas e efígies em moedas. Detalhe de tela de Charles Le Brun (séc. XVII)


Para adquirir estes livros do autor clique acima no
banner da Livraria Cultura


             A Pérsia era um grande império, mas a sua fraqueza militar ficara evidente na primeira metade do século V AC quando os modestos gregos infligiram-lhe derrota humilhante nas chamadas "Guerras Médicas" (medos-persas) e tornaram vãos os seus desígnios de conquista da Grécia ao destruírem a sua poderosa esquadra na batalha naval de Salamina (480 AC).  Desde então houvera uma paz muito tensa, entremeada de intrigas, querelas políticas e combates ocasionais, com a Pérsia sempre se metendo nos negócios da Grécia por iniciativa própria ou a chamado de uma ou de outra cidade-estado grega em guerra com suas vizinhas. Isto fazia com que os gregos vissem nos persas seus inimigos naturais e quando Felipe os conclamou a guerra todos se alistaram sob a sua bandeira, a qual seria levada adiante por seu filho Alexandre.

Após a vitória dos gregos sobre os persas na batalha naval de Salamina houve 140 anos de paz muito tensa,
até que Felipe resolveu romper o impasse. Tela de Wilhelm von Kaulbach (séc. XIX)

             Com um exército de vinte e cinco mil homens, imenso para os padrões gregos, Alexandre invadiu a Pérsia e usando a nova Falange Macedônica herdada do pai derrotou os persas na batalha do rio Grânico, fazendo com que quase todas as províncias ocidentais do cambaleante império passassem para o seu lado. As que não passaram foram aniquiladas a ferro e fogo, como foi o caso da grande cidade portuária de Tiro.

             À medida que obtinha vitória sobre vitória, Alexandre conseguia mais e mais cavalos, abundantes nas regiões conquistadas e próprios para campanhas militares nas vastas planícies da Ásia. Ele então fez mais três inovações na falange: 1) criou pelotões independentes de cavaleiros armados apenas com espadas que ficavam na retaguarda e só se lançavam sobre o inimigo quando este conseguia escapar das "mandíbulas", saindo pelo campo aos magotes totalmente desnorteado; 2) pôs hoplitas espadachins em torno dos hoplitas lanceiros ao longo do retângulo do bloco de falange, de forma que o inimigo que lograsse passar por entre os "espinhos do porco" ficava frente a frente com um hábil espadachim que o liquidava depressa; 3) com a substituição dos lanceiros das linhas de frente e de flanco por espadachins, reduziu à três as linhas de lanceiros e fez a terceira conservar suas lanças em pé, só as baixando quando o lanceiro da frente tombava. Isto diminuiu os "espinhos do porco", porém deu-lhe mais agilidade e o impressionante espetáculo das enormes lanças levantadas foi psicologicamente importante para aterrorizar o inimigo antes que ele se lançasse ao combate. Lutar com um inimigo de antemão aterrorizado é valiosa vantagem tática e ninguém melhor que Alexandre sabia disso.

Após a derrota final Dario III fugiu, mas durante a fuga foi assassinado por traidores e deixado na margem da estrada, onde Alexandre o achou. Gravura de autor anônimo do séc. XIX 

Foi desse modo que ele esmagou os grandes exércitos persas, em média três ou quatro vezes maiores que o seu. Os inúmeros povos do vasto Império (cossacos, russos, afegãos, paquistaneses, indianos, etc.) nunca tinham visto máquina de guerra tão organizada, fria, azeitada e mortífera, e passaram a se render em massa a “Sikhanda”, como o chamavam. Assim, Alexandre se tornou o novo “Grande Rei dos Arianos” (título do imperador persa), muito mais temido e respeitado do que os seus antecessores, pois fazia questão de participar de todas as batalhas, não só orientando e dando ordens aos seus homens como lutando pessoalmente no meio deles frente a frente com o inimigo.

Alexandre derrota os elefantes do rei Porus na batalha de Hydaspes, também
chamada batalha do rio Indo. Gravura de André Castagne (1899)

             Se isso por um lado o fez Guerreiro dos Guerreiros, por outro lhe encurtou a vida, pois foi ferido várias vezes, algumas gravemente, e os relatos indicam que a sua morte prematura aos trinta e dois anos deveu-se principalmente ao enfraquecimento das suas resistências orgânicas graças aos seus excessos (bebia demais) e aos graves ferimentos mal curados. Ainda por cima fora tomado de grave depressão após matar em uma bebedeira o seu melhor amigo, que muitos dizem ter sido seu amante. Algum tempo depois outro oficial, que também diziam ser seu parceiro sexual, morreu vítima de súbita enfermidade durante uma viagem e a sua depressão aumentou ainda mais, fazendo-o apresentar nítidos sintomas de desequilíbrio e megalomania poucos meses antes da sua morte.

Alexandre tratou bem a família de Dario. Tornou-se amigo da rainha-viúva e casou com
uma das suas filhas. Tela de Charles Le Brum (1673)
 
             O homossexualismo, sobretudo entre soldados, não era censurável nas culturas greco-orientais e disso não o salvou o seu harém de belas mulheres da mais alta aristocracia nem as lindas princesas persas que tomou como esposas. Astutamente, casara com a belíssima Roxane, filha de um poderoso rei afegão e provavelmente sobrinha ou prima do Rei Dario III de quem o seu pai seria parente e súdito, de forma que ninguém podia negar ser ele membro da família real persa. Soberano por direito de herança do “parente” seu inimigo, assassinado por traidores que mandou executar, foi aceito pelos povos do império como seu novo monarca universal e deu a Dario majestosos funerais, chorando-o hipocritamente.

O império de Alexandre em sua máxima extensão (322 AC)
             Para consolidar-se no trono, fez-se amigo íntimo da rainha-viúva e tomou sob sua proteção a família real, casando-se com a princesa Barsine, filha reconhecida do falecido rei, pois a poligamia era legal tanto na Macedônia como na Pérsia. Assim agindo, tornou-se "herdeiro" de Dario e legitimou o seu direito à coroa.

Alexandre e Barsine, filha de Dario e sua segunda esposa. Mural achado nas
ruínas de Pompeia, soterrada pelas cinzas do Vesúvio (séc. I DC)
            
             Ele estava no auge do poder quando o majestoso palácio imperial de Persépolis foi incendiado. Uns dizem que o incêndio foi acidental e outros que foi proposital, tendo sido Alexandre o seu autor, seguindo perverso conselho de sedutora cortesã grega chamada Thaís após ficar temporariamente enlouquecido pelo alcóol e pelas drogas  durante uma bacanal, mas qualquer que tinha sido o caso ele ficou transtornado ao constatar os efeitos da catástrofe e mudou a capital de Persépolis para Babilônia.

Persépolis - reconstituição de uma das alas externas do palácio imperial provavelmente
incendiado por Alexandre em momento de embriaguez e loucura

             A decisão lhe foi fatal, pois apesar de esplendorosa a cidade era insalubre, cortada por braços de rio e cercada de pântanos, fábricas de nuvens de mosquitos e fontes de febres mortíferas. Com o organismo enfraquecido pelas guerras incessantes, ferimentos mal tratados, drogas inebriantes pseudamente curativas e excessivo consumo de bebida alcoólica, adoeceu gravemente quando se preparava para conquistar a Península Arábica e morreu em poucas semanas.





Moedas com a efígie de Alexandre ao tornar-se ele "Senhor do Mundo"
             Alexandre teve um filho com a princesa Roxane, mas não prevendo a morte próxima não lhe nomeou tutor de sua confiança que fosse suficientemente poderoso para garantir-lhe os direitos em caso de sucessão, evento bastante previsível quando se participa de batalha após batalha de forma ativa e arriscada como no seu caso.

Olímpia, mãe de Alexandre, era uma mulher bonita e inteligente, mas era megalomaníaca
e convenceu o filho de que ele era um deus. Medalhão antigo.

             Tudo indica que não o fez por superstição, pois desde criança tinham lhe metido na cabeça que era um "deus". Deuses na tradição grega tinham as virtudes e defeitos dos homens comuns, mas diferiam por serem "imortais". A sua mãe psicótica (há indícios de que era apaixonada pela beleza do filho) foi quem criou o mito da "divindade" de Alexandre após fato singular: amamentava-o pela manhã poucos dias após o seu nascimento, em quarto inundado de sol pelas amplas janelas abertas, quando uma pequena águia entrou e pousou no espaldar da cama diante dos olhos assustados das servas reais. Após alguns segundos ela abriu majestosamente as asas sobre o idílico quadro e alçou vôo, saindo pela mesma janela por onde entrara. Verdade ou não, a história espalhou-se e a arrogante rainha, fingindo indiferença, disse que fora apenas uma visita que Zeus, rei dos deuses, viera fazer ao filho em forma de águia. Alexandre cresceu ouvindo a tolice e no mundo supersticioso da época certamente passou a julgar-se um "deus imortal".




Bustos de Alexandre jovem. Há evidências de que Olímpia
tinha pelo filho adoração incestuosa (séc. IV AC)

             A belíssima Roxane tem origem e vida controversas. Alguns dizem que ela não era parenta de Dario e nem sequer era persa, sendo o seu pai rei de um dos "tans" (Turkestan, Kazakistan, Afeganistan, Pakistan, etc.) que recebera o conquistador como o verdadeiro Grande Rei dos Arianos. Há indícios de que o Mito Ariano foi habilmente usado por Alexandre para ganhar apoio dos povos a nordeste e a leste da Pérsia, especialmente dos indianos. Ele também tomara como esposa a princesa Barsine, esta realmente filha de Dario, pois a poligamia era legal entre os macedônios e os persas. Roxane estava em segundo lugar ao enviuvar, mas diz-se que ela matou a rival e foi para o Épiro morar com a sogra Olímpia a fim de reivindicar o trono da Macedônia para o seu filho pequenino. Algum tempo depois um usurpador teria assassinado Olímpia, Roxane e a criança, assenhoreando-se do trono macedônico. Todavia as evidências históricas sobre isso são duvidosas e o que se conhece de Alexandre mostra que ele era uma raposa política e sabia que a coisa certa a fazer era casar com mulheres da família de Dario. Também não faz sentido Roxane matar a rival para depois sair com o filho da Pérsia, cenário principal dos acontecimentos e onde tudo era decidido. Todavia, qualquer que fosse o grau de parentesco com o imperador vencido, parece certo que Roxane vivia na sua corte e foi escolhida por Alexandre devido à sua extraordinária beleza, unindo o útil ao agradável. O fato de ser prima ou sobrinha de Dario não a impede de também ser filha de rei menor, parente e súdito do Grande Rei persa.

Alexandre e Roxane.  Tudo indica que ela era filha de um rei primo e súdito de Dario. Nota-se
que o pintor retrata Alexandre diferente da realidade. Tela de Pietro Rotari (1756)

             Não há provas de que Alexandre tenha sido envenenado, embora isso acidentalmente possa ter ocorrido devido a algum "medicamento" tóxico usado na época, mas depois de sua morte a rainha Roxane e o príncipe herdeiro saíram de cena (322 AC), não havendo certeza sobre o que de fato ocorreu. Os seus generais então dividiram o Império entre si e Ptolomeu, general-governador do Egito, exigiu que o sarcófago do Grande Rei fosse levado para Alexandria, cidade que ele fundara. Há mesmo uma história dizendo que ele atacou o cortejo funerário que se dirigia à Macedônia e o desviou para o Egito.


A procissão funerária da Babilônia a Alexandria com o seu catafalco durou meses. Gravura de
autor anônimo do século XIX baseada em descrição do escritor grego Diodorus 

             Todavia é certo que Ptolomeu o pôs em majestoso templo-mausoléu em Alexandria após proclamar-se rei da terra dos faraós e criou um culto divino a Alexandre. O mausoléu existiu durante setecentos anos e era visitado por multidões, incluindo grandes personalidades da antiguidade, como César e Augusto. No início do século III DC o imperador Septímius Severus proibiu visitas do público para evitar danos ao corpo mumificado e mandou selar o sarcófago, mas visitas ocasionais de grandes personalidades, como a do imperador Caracala, continuaram a ser admitidas excepcionalmente. No final do século IV DC o imperador Teodósio mandou fechar os templos pagãos e o seu sucessor Arcádio mandou que fossem transformados em igrejas ortodoxas, demolindo-se aqueles que não fossem adaptáveis à nova religião. Assim, o majestoso templo-mausoléu foi destruído por fanáticos cristãos e não se sabe sequer o local onde ele ficava nem o destino dado ao sarcófogo e ao corpo do conquistador.

             Depois da sua morte precoce o seu gigantesco Império se esfacelou, mas a Falange Grega ainda reinou invencível por mais de um século como a mais perfeita formação militar tática e estratégica já inventada e só foi superada pela Legião Romana no final da Segunda Guerra Púnica (202 AC). Esta se tornaria a mais perfeita formação militar de todos os tempos e sua organização tática, disposição estratégica e técnicas de combate ainda hoje são objeto de estudos nas Academias Militares do mundo inteiro