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terça-feira, 26 de agosto de 2014

Post nº 81

JOHANNES  -  O  IMPERADOR  QUE  DESFILOU
COMO  PALHAÇO  MONTADO  DE  COSTAS
EM  UM  BURRO  ANTES  DA  EXECUÇÃO

Moedas com a efígie do imperador Johannes cunhadas no seu curto reinado (425-26 DC). De todos
os imperadores romanos, ele e Maximus foram os que tiveram morte mais ignominiosa


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Em 423 a imperatriz Galla Placídia, viúva do ex-imperador adjunto Constâncio, foi expulsa da Corte imperial em Ravena por seu irmão o imperador Honório. Comentava-se que após a morte de Constâncio ela tentara forçar o irmão a adotar como herdeiro e sucessor o seu filho Valentiniano de apenas quatro anos de idade e isto irritara Johannes, secretário de Honório e verdadeiro governante civil do Império. Em consequência, Placídia foi expulsa e exilada em Constantinopla.

O imperador Honório reinou por 30 anos mas nunca governou coisa nenhuma, pois era um idiota enfermiço que deixava tudo na mão dos seus incompetentes e corruptos assessores. Na verdade Honório não tinha capacidade para distinguir ou julgar da competência ou honestidade de quem quer que fosse.

Durante o seu incompetente reinado, de 395 a 425, Roma foi tomada e saqueada pelos Godos em 410 e o Império só não se esfacelou antes ou depois porque teve a sorte de ter no comando do exército competentes generais como Stilicon, Constâncio, Bonifácio e Aécio, sendo que Constâncio chegou a ser seu cunhado e imperador adjunto. Porém passou pouco tempo no cargo, pois morreu subitamente dois anos antes de Honório.

Durante o reinado do incompetente Honório os godos invadiram e saquearam Roma (410 DC)

Em 425 os romanos receberam a notícia de que o imbecilizado Honório finalmente morrera e souberam com estupefação que o burocrata Johannes proclamara-se imperador com o apoio do ilustre patrício Castinus, usurpando o trono do herdeiro legítimo Teodósio II, imperador Romano do Oriente e sobrinho do falecido imperador do Ocidente.

Johannes era um burocrata astuto e sabia muito bem que o distante Teodósio nada poderia fazer contra a sua usurpação desde que tivesse a seu favor um poderoso exército, por isso escreveu a todos os altos comandantes militares das províncias fronteiriças, onde se concentrava o grosso das legiões, pedindo o seu apoio. Quase todos evitaram comprometer-se com o secretário usurpador e responderam que eram militares profissionais que não entendiam nada de política e não queriam envolver-se em assuntos fora da sua alçada. De qualquer forma, disseram-lhe que não se opunham à sua pretensão e o serviriam nas mesmas funções, tal como serviriam a qualquer outro governo que fosse legitimamente aceito.

A única exceção foi o general Aécio, que após alguma reticência prometeu auxiliá-lo com um exército de cavaleiros hunos, pois vivera como refém entre eles por vários anos e construíra sólidos laços de amizade com os líderes dessa tribo guerreira estabelecida onde hoje é a Hungria. Contudo há dúvidas sobre a sinceridade de Aécio porque ele nada fez de concreto para sustentar Johannes no poder, ausentando-se do palco dos acontecimentos sob o pretexto de que iria buscar pessoalmente o exército huno que prometera e ficando fora por vários meses enquanto a situação do novo imperador deteriorava-se.

Porém Johannes entendeu as dúbias declarações dos demais generais como sendo apoio tácito e exibiu as cartas aos comandantes das fracas guarnições da península italiana, deles recebendo a peso de ouro o apoio militar de que tanto necessitava. Mas o conde Bonifácio, comandante do poderoso exército do norte da África, foi radical e o informou que se não estivesse ocupado com uma grande revolta dos berberes marcharia sobre Ravena para destronar o usurpador.

O prestigioso general Bonifácio era rival do general Aécio e posicionou-se contra
Johannes a favor de Teodósio

Mas fosse pela falta de algo melhor, fosse porque estavam motivadas por substancial gratificação, as tropas metropolitanas reunidas em praça pública aclamaram Johannes imperador e ele continuou o seu curto reinado que terminaria em humilhação e tragédia. 

Não obstante a ausência de Aécio e a oposição de Bonifácio, ele formou meia dúzia de legiões pagando largas somas aos soldados, e preparou-se para lutar contra as tropas de Teodósio II, legítimo sucessor do seu tio Honório no trono do Ocidente. Para os altos chefes militares tanto fazia um como o outro, pois ambos eram corruptos e incompetentes, incapazes de fazer face aos problemas que o Império enfrentava. Na verdade, os mais importantes generais estavam esperando que Bonifácio apresentasse sua candidatura para apoiá-lo, pois se tratava de brilhante oficial muito popular entre as tropas, com enorme prestígio na aristocracia romana e no alto clero da Igreja por sua devoção e amizade com Agostinho, bispo de Hipona e eminente filósofo católico, considerado santo por muitos. Mas quando ficou claro que Bonifácio não se candidataria, pois se posicionara firmemente em favor de Teodósio, os comandantes resolveram continuar neutros e silenciosos.

Pouco depois foram surpreendidos com a notícia de que uma tempestade afundara a frota do Império do Oriente, afogando o exército mandado por Teodósio para combater Johannes, e este aprisionara o general comandante que sobrevivera ao desastre. Isto fortaleceu a posição do usurpador e ela seria segura se na mesma época não viesse a novidade ainda mais surpreendente de que a viúva Placídia conseguira do seu sobrinho Teodósio o que não conseguira do seu irmão Honório: a abdicação do trono do Ocidente em favor do menino Valentiniano, então com seis anos de idade. Para completar, Teodósio nomeara Placídia regente na menoridade do filho!

Todos acharam que se tratava de uma piada, pois não viam como poderia uma mulher assumir o trono naquela difícil situação e governar um império em guerra civil, atacado pelos bárbaros por todos os lados. A pergunta que se fazia era como seria possível Placídia retirar Johannes do poder e assumir o trono, pois ele estava firme em Ravena, possuía o controle da administração da Itália e tinha ao seu lado um exército de aderentes dado a catástrofe que se abatera sobre a frota e as tropas de Teodósio. Ademais, ela estava a centenas de milhas em Constantinopla, não tinha apoio popular e não dispunha de tropas dispostas a lutar pelo seu direito. Mesmo o fervoroso apoio de Bonifácio de nada lhe servia, pois ele estava às voltas com a rebelião dos berberes na África e não podia deslocar um único soldado para combater na Itália. Somando as coisas, tudo que Placídia tinha era um decreto de Teodósio transferindo-lhe um trono que não possuía, o que causava risos nas pessoas, certas de que ela fazia o papel do otário que comprara algo que não existia.

A imperatriz Galla Placídia e os seus filhos Honório e Eudoxia


Porém as dúvidas na época mostram que os seus contemporâneos ainda não conheciam a mulher de ferro que ela era. Sem perder a calma, Placídia levantou grande soma de dinheiro e mandou agentes secretos à Ravena para contatar os generais de Johannes e suborná-los para que mudassem de lado. Ademais, ele cometera o erro fatal de ao invés de meter no cárcere o general de Teodósio aprisionado o mantivera imprudentemente em confortável prisão domiciliar onde recebia visitas e contatava partidários, conspirando contra o seu captor quase que abertamente. Assim, o general prisioneiro avalizou o acordo de Placídia com os generais traidores e foi o fim do breve reinado de Johannes.

O poderoso burocrata imprevidente, que ousara desafiar as instituições, tivera a má sorte de tornar-se inimigo de Placídia logo depois que ela enviuvara de Constâncio e movera céus e terras na tentativa de fazer o amalucado imperador Honório reconhecer como herdeiro o seu filho órfão Valentiniano de apenas quatro anos de idade na época. Apesar de todos os agrados e carinhos com os quais procurara conquistar o favor do irmão, este não se abalara e preferira ouvir as sórdidas intrigas do seu secretário Johannes, o qual fizera espalhar por toda a capital que a ambição e indecência de Placídia não tinham limites, pois para fazer do menino Valentiniano imperador ela era capaz até mesmo de seduzir o irmão idiota e com ele manter relações sexuais incestuosas. Suas excessivas demonstrações públicas e privadas de “amor doentio” pelo irmão mentalmente enfermo não poderiam ter outro significado senão este.

Habilmente, Johannes fizera com que os boatos por ele mesmo fabricados chegassem aos ouvidos do quase demente Honório, altamente devoto e que muitos diziam ser casto, contando-se como piada que ele era o único homem na face da terra que enviuvara duas vezes de esposas que morreram virgens. Em pânico, ele procurara o seu íntimo auxiliar e conselheiro Johannes para dizer-lhe que estava horrorizado com a “enormidade do pecado” das intenções da irmã Placídia, das quais jamais suspeitara e jurava inocência, vendo com terror demoníaco a infame possibilidade de que as pessoas pudessem acreditá-lo capaz de cometer tamanha aberração, como era o caso do sórdido “crime de incesto”. Em tão terrível situação, o que lhe aconselhava o seu “fiel amigo”? Hipocritamente Johannes mostrara-se chocado e após manifestar sua solidariedade ao “sábio” imperador disse-lhe que o melhor modo de afastar as acusações seria eliminar a sua causa, expulsando Placídia e exilando-a com os filhos na Corte do seu sobrinho Teodósio II em Constantinopla. Com essa medida o mal seria cortado pela raiz e o povo veria que o virtuoso imperador nada tinha a ver com a torpeza da irmã, tanto que a expulsara e exilara. Em pouco tempo todos esqueceriam o caso e poder-se-ia respirar ar puro na Corte novamente, pois “longe dos olhos longe dos pensamentos”!


O imperador Honório era um completo imbecil, pois se ocupava muito mais com as aves do
galinheiro do palácio do que com os negócios do Império

Em nome do imbecil Honório, o pérfido burocrata agira imediatamente. Placídia foi presa em seus aposentos no palácio e posta sob forte guarda. Antes que a notícia se espalhasse, ela e os dois filhos pequenos foram embarcados na calada da noite em um navio militar com destino a Constantinopla levando somente bagagem leve e acompanhada por modesta comitiva de apenas uma dúzia de serviçais e damas de honra. Embora formalmente bem recebida na Corte do sobrinho, ela foi tratada pela nobreza com o desdém que sofrem os poderosos quando subitamente decaem de suas antigas posições de grandeza, mas não se abalou nem baixou a crista e passou a planejar cuidadosamente a sua vingança, acumulando dinheiro e cultivando relacionamentos no meio civil e militar, de sorte que estava com tudo pronto e caiu sobre a cabeça de Johannes como um raio quando a ocasião favorável surgiu.  

Johannes foi deposto e preso em um calabouço infecto (426 DC) e quando Placídia chegou triunfante a Ravena com sua brilhante comitiva, em condições completamente opostas às de quando partira em opróbrio dois anos antes, ordenou que Johannes fosse submetido as mais cruéis torturas. Depois mandou que lhe cortassem a mão com a qual assinara a ordem de sua prisão e expulsão e lhe cortassem a língua com a qual espalhara o torpe boato que tanta dor moral e injusta humilhação lhe tinham causado.

Não satisfeita, esperou que o deposto imperador se recuperasse fisicamente dos horríveis ferimentos e deu prosseguimento à sua atroz vingança.

Em um belo dia de sol, Placídia mandou vestir Johannes de palhaço e o fez montar de costas em um burro no qual foi fortemente amarrado. Depois ordenou que o infeliz prisioneiro fosse conduzido em desfile perante a multidão que gargalhava e aplaudia nas ruas apinhadas o imperial “palhaço”, seguido por uma trupe circense como se ele fosse o seu chefe. O grotesco desfile terminou no circo da cidade, onde o decapitaram publicamente e espetaram sua cabeça, assim como a mão e a língua amputadas já ressecadas, em três lanças postas lado a lado em uma praça para simbolizar a justa punição dos que pensam indecências, assinam indignidades e espalham infâmias.

De todos os imperadores romanos em cinco séculos, Johannes e Petronius Maximus foram os que tiveram morte mais ignominiosa. Curiosamente, elas ocorreram no século V, último do Império e quando o Cristianismo já reinava absoluto no mundo romano. Parece que devotos cristãos, como Galla Placídia, não tinham assimilado muito bem os ensinamentos Evangélicos sobre caridade e misericórdia.

A trajetória do secretário cuja ambição o fez viver gloriosamente como imperador e cuja torpeza o fez morrer humilhantemente como palhaço, terminou com uma brutal alegoria sobre a fatuidade da grandeza material e com uma sangrenta advertência moral.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Post nº 80

O  MISTÉRIO  DO  MILAGRE GREGO

Platão e Aristóteles  (sec. IV AC)  são as duas maiores expressões da Cultura Grega
e a sua notável e benéfica influência permeia toda a nossa civilização

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É pacífico entre os estudiosos que a Civilização Ocidental se fundamenta em três pilares: a Cultura Grega, o Direito Romano e a Teologia Judaica. Porém, considerando-se: a) que o Direito Romano inspira-se em boa parte nas Leis atenienses de Sólon e é influenciado pela Filosofia Estóica; b) que o Velho Testamento somente tornou-se conhecido após ser publicado em grego no século II AC e, c) que o Novo Testamento foi inteiramente escrito em grego, parece-nos certo dizer que a Civilização Ocidental nada mais é do que a ampliação e evolução da Civilização Grega ao longo dos séculos.

A Grécia é uma pequena nação milenar de escassa população, cujo solo pedregoso jamais lhe permitiu ter próspera agricultura e boa pecuária. Grande parte é constituída por ilhas rochosas no mar ao redor, tão áridas quanto o solo continental. É pobre de minérios e na antiguidade suas habilidades náuticas, industriais e comerciais não superavam outros povos mediterrâneos, como os fenícios. Ademais, a Grécia não era um “país” na acepção do termo, mas um ajuntamento de pequenos países formados por “cidades-estado” independentes umas das outras e sem um poder central que as unisse política e administrativamente. A rivalidade entre esses “mini-países” era intensa e guerreavam muito mais uns contra os outros do que contra “estrangeiros”, mas apesar das rivalidades todos se julgavam “gregos” e partes de uma coisa maior chamada “Grécia”, dentro da qual partilhavam a mesma língua, cultura, religião e origem étnica. A Grécia, portanto, era uma NAÇÃO mas não era um PAÍS, de sorte que quando os seus habitantes se sentiam ameaçados por um poder “de fora” ou “estrangeiro” uniam-se em uma confederação e elegiam comandante supremo alguém com grande experiência militar e prestígio político de uma das suas cidades mais importantes, tal como ocorreu na lendária Guerra de Tróia e nas guerras contra o Império Persa.

Na batalha naval de Salamina os gregos derrotaram os persas e
mantiveram sua independência

Vê-se assim que a Grécia, além de pequena e pobre, era política e administrativamente dividida, não dispunha de real poder econômico e militar, e por isso não possuía peso internacional, e ainda por cima era atormentada por constantes disputas e guerras entre suas cidades, o que a fazia ainda mais pobre e insignificante. Como, então, se explica possa ter produzido tão extraordinária cultura, fonte de todos os nossos saberes científicos, filosóficos, jurídicos, literários, artísticos e até mesmo desportivos ?

O mistério até hoje não foi solucionado apesar das muitas teorias e hipóteses a respeito, todas elas sem maior sustentação, o que levou sábios eminentes a chamarem o fenômeno ocorrido na Grécia entre os séculos VI e II AC de “MILAGRE GREGO”.

Não é que os gregos desse longo e extraordinário período de 400 anos tenham criado e descoberto tudo, pois seu grande mérito na maioria dos casos foi sistematizar conhecimentos já existentes, especialmente nas áreas da matemática e da geometria, mas lhes deram validade científica formulando postulados e teoremas expostos em Tratados ainda plenamente válidos e estudados nas Escolas. Com isso descobriram que a Terra era redonda, girava em torno do Sol e seu tamanho era quase igual ao que somente nos foi possível medir com exatidão 2.200 anos depois com a ajuda de satélites artificiais e de sofisticado aparato científico.

Fato ímpar no mundo, inclusive no Ocidente, onde até o século XIX proibia-se às mulheres o acesso às universidades, os gregos séculos antes de Cristo não só incentivavam a educação feminina como davam à mulher lugar de destaque na vida intelectual da nação, louvando-a e premiando-a, do que é exemplo a grande poetisa Corina derrotando o grande poeta Píndaro em vários concursos de poesia, a ponto de em desespero ele perder as estribeiras e queixar-se insultuosamente em alto e bom som: "os juízes só lhe dão a vitória porque ela é linda, embora não passe de uma porca".

Ainda jovem o grande poeta Píndaro perdeu várias competições poéticas para a também
ainda jovem grande poetisa Corina e a insultou rudemente

Infelizmente poucos livros de grandes escritores da antiguidade chegaram até nós, fazendo com que só tenhamos fragmentos de sábios pré-socráticos como Heráclito e Pitágoras ou mesmo de pós-socráticos como Epicuro e Zeno. O mesmo ocorre com as grandes poetisas gregas como Safo, Corina e Trasila, de cuja excelente obra lírica só temos fragmentos e notícias dadas por outros autores, mas que são suficientes para aquilatarmos do valor da sua obra e do prestígio que gozaram na Grécia da sua época. Apenas para comparar, os romanos, séculos posteriores aos gregos e com hegemonia muito maior e muito mais duradoura, e que por isso as obras dos seus grandes autores nos chegaram bem mais conservadas e em muito maior número, não nos legaram nenhuma poetisa ou mulher de reconhecido valor intelectual.


Corina forma com Safo e Trasila o trio das maiores poetisas conhecidas
da antiguidade. Infelizmente só temos fragmentos de suas obras

Porém o mais impressionante é que numa “Era” ainda pré-científica os gregos criaram ciências como a Filosofia, a Estética, a Pedagogia, a Física, a Metafísica e a História; métodos de raciocínio e de investigação como a Dialética e a Lógica Formal. Criaram a arte como expressão do sentimento e da beleza ideal mostrada em suas insuperáveis esculturas e o esporte como expressão da mais apurada técnica e da beleza física eternizada nas Olimpíadas. Também criaram sofisticada tecnologia, como os notáveis aparelhos de elevado nível tecnológico de Arquimedes e Hieron de Alexandria. Na literatura, criaram o teatro nos moldes que, com as devidas adaptações, assistimos até hoje, e criaram quase todos os gêneros de poesia e de verso que conhecemos. Finalmente, deram caráter científico à Medicina, até então território privativo do empirismo e da superstição, e no nosso tempo médicos que concluem o curso e saem da Escola para exercer a “arte de curar” fazem o Juramento de Hipócrates, médico grego considerado o pai da medicina.


Após a vitória contra os persas Atenas ficou riquíssima e o seu líder Péricles construiu em homenagem
a deusa Atena o majestoso Paternon, obra prima da arquitetura grega 

Um episódio trivial mostra em poucas palavras a enorme importância da Cultura Grega para a Civilização Ocidental. Conta-se que o sábio Albert Einstein foi a uma recepção na casa de um colega na Universidade de Princeton e alguém lhe perguntou se ele já se indagara por que “um Einstein surgira no Ocidente e não na China”. Todos riram achando que o sábio responderia com uma das suas piadas, mas ele disse sério: “já pensei sobre isso e concluí que tanto eu quanto os meus colegas surgimos no Ocidente por duas coisas que se uniram para que a Revolução Científica ocorresse na Europa e não na Ásia: a invenção da Lógica Formal pelos gregos no século IV AC e a invenção do Método Experimental pelos europeus ocidentais no século XVII DC”.

Para o genial Einstein todo o nosso atual progresso científico e tecnológico tem por base o feliz fato se que em um dia qualquer há 2.400 anos em Atenas o professor Aristóteles sentou-se em sua escrivaninha e decidiu escrever um manual escolar para ensinar os seus alunos a técnica de pensar e de raciocinar corretamente, criando um método seguro de busca da verdade a que se deu o nome de “Lógica Formal”.

Todavia, penso que em meio as extraordinárias contribuições do “Milagre Grego” à civilização a mais notável de todas foi retirar o HOMEM da periferia do universo e colocá-lo no seu centro, tirando-o da sua condição de simples ATOR e fazendo-o também AUTOR da sua própria História.

Até então, como depois na Idade Média, achava-se que o centro do universo era ocupado pelos deuses e o homem era somente um apêndice e joguete do seu poder, mas os gregos fizeram os deuses iguais aos homens em físico, virtudes e defeitos, dando-lhes como caráter distintivo apenas a imortalidade, único predicado divino de que o homem não é dotado, não obstante ser sua suprema aspiração. Assim, puseram o homem junto aos deuses como seus “quase iguais” e criaram a mais importante de todas as correntes de pensamento na história da humanidade: O HUMANISMO !

Os gregos davam grande valor à educação e Alexandre, maior dos guerreiros,
teve como professor Aristóteles, maior dos mestres

O Cristianismo assimilou boa parte da filosofia grega, mas deu ao humanismo feição diversa: ao invés de fazer de Deus preocupação do homem, inverteu os pólos da equação e fez do homem preocupação de Deus, negando a aquele os atributos deste, que passaram a ter extensão imensamente maior do que os poucos e fracos atributos dos “humanizados” deuses criados pelos gregos, pois estes recusavam à divindade atributos que consideravam absurdos porque totalmente incompreensíveis à sua mente prática e racional, como é o caso do atributo da perfeição absoluta do Deus cristão.

O “humanismo” só voltaria a ser tema de debates na Renascença e os melhores intelectuais da época, como D’Avinci, Erasmus, Morus e Michelangelo, eram notórios humanistas à moda grega, embora católicos devotos.

Na ocasião a Grécia de há muito perdera seu esplendor intelectual e era página virada da História, tendo voltado há muitos séculos a ser o país insignificante que a natureza talhara para ser, mas o período áureo da sua cultura no primeiro milênio antes de Cristo, embora totalmente inexplicável, continuava a existir nos sonhos dos poetas e dos artistas, no pensamento dos filósofos de todas as tendências e nos projetos inovadores dos letrados, inspirando-os a vôos mais ousados e às mais brilhantes realizações.

Penso que o “Milagre Grego” é o mais extraordinário e o mais feliz de todos os muitos inexplicáveis episódios e intrigantes mistérios que povoam a História.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Post nº 79


AS  GRANDES  CRISES  ECONÔMICAS  DA  HISTÓRIA

Primeira grande crise econômica de que temos notícia detalhada foi a "Crise Agrária" de Roma no século II AC. Ela causou grave crise política e o assassinato dos senadores reformistas Tibério e Caio Graco.




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Importantes eventos históricos quase sempre vieram ligados a importantes eventos econômicos, embora nos falte elementos para identificá-los com clareza, salvo em pouquíssimos casos dos quais temos registros escritos. Entre estes está o relato bíblico da História de José, o jovem escravo judeu sábio na interpretação dos sonhos que há 3.500 anos previu longo período de bonança para a economia egípcia, o qual, segundo o seu extraordinário tirocínio, seria fatalmente seguido de grave crise econômica e duradouro período de pobreza e carência. Em termos da moderna ciência econômica, poderíamos chamar a alegoria bíblica das "7 Vacas Gordas" e das "7 Vacas Magras" de Ciclo Econômico, ou seja, um período de Crescimento seguido de outro de Recessão, assim como chamar o período de grande prosperidade  de Bull Market e o período de grande pobreza de Bear Market se quisermos usar o jargão dos operadores financeiros. A História de José é o primeiro grande exemplo conhecido de como devem os estadistas previdentes lidarem com a economia dos seus países durante períodos longos de prosperidade, que os gananciosos, mesmo os mais experientes, julgam serem "eternos", apesar da história mostrar que são sempre contingentes e passageiros.

Sabemos de outras grandes crises econômicas, especialmente das ocorridas no Império Romano de cuja história temos ótimo registro, como a "Crise Agrária do Século II AC" que ocasionou o assassinato dos famosos reformistas senadores irmãos Gracos, da "Crise da Inadimplência do Século I AC" que causou a rebelião e morte do senador Lucius Catilina, tema dos famosos discursos do senador Marcus Tulius Cícero chamados Catilinárias, da "Crise Inflacionária do Século III DC" que fez o imperador Diocleciano decretar o primeiro congelamento e tabelamento de preços de que se tem notícia, e da "Crise do Regime Escravocrata", que em última análise foi a causa maior do esfacelamento e fim do Império Romano do Ocidente, porém temos poucos dados sob os seus aspectos econômicos, sendo essas tormentosas crises mais conhecidas por seus aspectos políticos, objeto de minuciosos relatos dos historiadores e dos quais temos pleno conhecimento. Isto nos traz até aos séculos mais recentes, quando a economia se tornou muito mais dinâmica e as ciências econômicas e financeiras foram criadas, permitindo-nos uma acurada análise das Crises Econômicas que afetaram o mundo ocidental e tiveram repercussão no mundo oriental, motivo pelo qual podemos chamá-las de "Crises Econômicas Globais".

Em consequência da estreita ligação entre Economia e História torna-se difícil entender uma sem ter qualquer conhecimento da outra, ainda que superficial e rudimentar, razão pela qual, não obstante ser o nosso blog um portal de introdução à "História Antiga", julgamos oportuno divulgar o excelente ensaio publicado pela revista britânica The Economist, o qual nada mais é do que uma resumida história das graves crises econômicas que abalaram a civilização nos últimos 200 anos. Parece-nos que o historiador não recuou um pouco mais no tempo para abranger a "Crise das Tulipas" e a "Crise da Companhia das Índias Orientais" na Holanda, assim como também a "Crise do Banco da Inglaterra" no Reino Unido e a "Crise do Banco John Law" na França, porque elas não ultrapassaram as fronteiras dos países onde ocorreram e não abalaram a economia global. 

Tenham todos uma boa leitura.

          






sexta-feira, 20 de junho de 2014

Post nº 78


ÁTILA  É  PARALISADO  PELA  SUPERSTIÇÃO  NAS  MURALHAS  DE  AQUILEIA

Átila vingou-se da valente resistência da grande cidade romana de Aquileia
destruindo-a até os alicerces após três meses de cerco

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Átila cruzou os Alpes orientais no final de março de 452 DC e poucos dias depois cercou Aquileia, intimando-a a render-se. A cidade recusou e a batalha começou. Aconteceu então um fato que paralisou o ataque: no alto das muralhas havia soldados negros como carvão!

A massa de guerreiros hunos jamais vira gente dessa cor e ficou aterrorizada, pensando que certamente eram demônios que tinham vindo defender a cidade. Na verdade os “demônios” eram guerreiros vindos do sul do grande deserto africano, sobreviventes de uma feroz guerra tribal. Tinham se incorporado como guardas a uma grande caravana que seguia rumo a Cartago. Quando lá chegaram, maravilharam-se com a imensa metrópole, mas ficaram desempregados, e o sheik seu ex-patrão, um homem compassivo que se afeiçoara a eles, procurou ajudá-los. Como os guerreiros não sabiam fazer outra coisa senão lutar, o sheik lhes procurou emprego de natureza militar e soube que no sul da Itália legiões romanas estavam recrutando mercenários para preencher seus quadros devastados na recente guerra contra os hunos. Conseguiu passagens para eles em navios que se dirigiam aos portos do sul da península e pediu aos capitães seus amigos que os encaminhasse aos postos de recrutamento tão logo desembarcassem.

Assim aconteceu, e uma centena deles foi incorporada a uma legião juntamente com milhares de mercenários das mais diversas nacionalidades que para lá iam em busca de emprego. A grande legião perdera metade dos seus efetivos e por isso alistara mais de três mil mercenários, todos eles experientes na arte da guerra. Os duros treinamentos durante o outono e o inverno lhes ensinaram a disciplina e as táticas de combate romanas, fazendo com que a legião readquirisse seu antigo poderio e estivesse pronta para a batalha ao ser mandada para Aquileia no começo da primavera. Quatro dias após sua chegada os hunos aproximaram-se e a luta começou.

Foi quando viram os soldados negros e recuaram em pânico.

Átila, ao contrário da nossa propaganda na época, e que continua sendo repetida até hoje, não tinha nada de ignorante: conhecia várias cidades do norte da Itália, inclusive Ravena, e sabia falar, ler e escrever latim razoavelmente. Durante suas visitas à Itália vira pessoas de pele escura e sabia que elas não tinham nada a ver com “demônios”; por isso fez um veemente discurso aos supersticiosos soldados censurando-lhes a covardia e explicando-lhes que os soldados negros de quem tanto tinham medo eram gente comum, vinda de um lugar distante do outro lado do mar, onde o calor abrasador queimava a pele do povo e lhe dava a cor negra.

Ao contrário do que diz a história oficial, Átila não tinha nada de selvagem e o filósofo bizantino Crispus, que
foi embaixador de Constantinopla na sua corte, diz que ela era bastante sofisticada 

Certo de que suas explicações tinham bastado ordenou novo ataque, mas os soldados mantiveram-se a uma distância segura atirando flechas e pesadas pedras com as suas catapultas ao invés de tentarem escalar a muralha.

Indignado, Átila ordenou várias execuções por covardia, e ele pessoalmente cortou a cabeça de meia dúzia de “covardes”, mas isso em nada melhorou o ânimo combativo das tropas. Ele estava sem entender o que se passava na mente dos soldados acovardados quando um dos seus generais o procurou e disse-lhe: “Os homens não são covardes nem tem medo de morrer em combate, pois sabem que se morrerem lutando uma bela Valkiria levará suas almas para o Valhalla, onde passarão a eternidade caçando e galopando pelos seus paradisíacos campos sem fim; mas acham que se forem mortos por um demônio imortal este se tornará dono das suas almas e as levará para o inferno onde sofrerão eternamente”!
  
“Então é isso”, disse Átila, “Os soldados acham que os negros são demônios porque são imortais; se é assim, só há uma solução: matar um deles”!

Ele notara que os legionários negros tinham se divertido com a “covardia” dos atacantes e por isso ficavam imprudentemente de pé nas ameias fazendo gestos obscenos e zombando do inimigo, que até então se conservara à distância. Mandou suas tropas se postarem em frente da cidade e calmamente as passou em revista; depois fez meia volta e se aproximou da muralha, galopando velozmente ao longo dela sob uma chuva de flechas enquanto mirava cuidadosamente um dos legionários negros de pé sobre a ameia. O disparo do seu arco foi preciso e o soldado imprudente caiu do alto com o pescoço trespassado por uma flecha certeira.

Quando voltou da sua teatral corrida sob os aplausos ensurdecedores das suas tropas o valente rei dos hunos lhes disse: “Vocês viram que os negros não são demônios, pois não são imortais; vamos agora lutar de verdade e derrotá-los”! Os ferozes guerreiros atacaram em massa e só então a batalha de Aquileia realmente começou.

Por incrível que pareça a cidade resistiu três meses!

Exército de Aécio era muito inferior ao de Átila e ele preferiu adotar guerra de guerrilhas contra os hunos na
Itália ao invés de enfrentá-los em campo aberto. Por isso não pôde socorrer Aquileia.

Aécio ficara surpreso por Átila não haver desistido depois do primeiro mês, pois os hunos gostavam de lutar em campo aberto, galopando velozmente e disparando flechas contra o inimigo, mas detestavam cercos prolongados, nos quais tinham de lutar a pé escalando muralhas. Nesse tipo de luta, enquanto alguns grupos atacavam e eram repelidos os demais ficavam ociosos aguardando sua vez de atacar; isto os irritava e desgastava, e sempre que podiam evitavam tal tipo de combate. Também o surpreendeu o fato de Átila não ter deixado uma fração das suas tropas cercando a cidade e avançado com seu imenso exército sobre o resto da Itália.

Do ponto de vista militar a atitude do rei huno não fazia sentido.

O que Aécio só veio saber depois é que a covardia dos hunos diante dos “demônios” humilhara Átila profundamente e ele decidira vingar-se da zombaria dos legionários; por isso resolvera recuperar sua honra militar destruindo a cidade com ataque após ataque a fim de não dar descanso aos defensores e esmagá-los rapidamente. Porém os legionários lhe opuseram tenaz resistência, o que o fez se apegar ainda mais ao seu infantil projeto de vingança, alheio ao bom senso militar. O orgulho ferido de Átila, portanto, teve grande influência no resultado final da campanha.

Trecho do romance histórico "O Senhor dos Dragões"


quinta-feira, 27 de março de 2014

Post nº 77

A  QUEDA  DO  IMPÉRIO ROMANO  DO  OCIDENTE

Apesar de saqueada e incendiada pelos vândalos em 455, Roma ainda sobreviveria 21 anos como Império
  
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      A traiçoeira morte de Flávio Aécio (20-10-454 DC), último grande general de Roma, pelas mãos do imperador Valentiniano III a quem fielmente servira durante décadas, foi também a morte do Império Romano do Ocidente como grande potência militar e relevante ator político no cenário mundial. Cinco meses depois do covarde assassinato, ex-oficiais de Aécio vingaram o antigo chefe matando Valentiniano durante competição esportiva no Campo de Marte em Roma, à qual o infame imperador comparecera com seus mais importantes ministros (16-03-455 DC). O assassinato de um imperador e dos seus mais íntimos auxiliares pela Guarda Imperial na frente de milhares de pessoas, mostrava o imenso grau de indisciplina e desprezo das tropas pelas instituições, não muito diferente da que existia no povo romano.

      O riquíssimo senador Petrônio Maximus gastou rios de dinheiro para obter o apoio das tropas e do Senado e tornou-se sucessor de Valentiniano. Para legitimar-se no trono, o novo imperador casou com a viúva do seu antecessor, em cujo assassinato ele próprio colaborara, e passou a governar tão incompetente e irresponsavelmente quanto ele. Alguns meses depois, soube-se que Genserico, rei dos vândalos, partira do seu reino no norte da África à frente de poderosa frota e grande exército para atacar Roma. Povo e autoridades entraram em pânico e o inútil Petrônio Maximus, ao invés de preparar a resistência, foi ao Senado informar que nada havia a fazer e por isso fugiria com todas as riquezas que pudesse levar consigo, deixando a cidade entregue à própria sorte. Em seu covarde discurso aconselhou os senadores a fazerem o mesmo e estes o vaiaram, atirando-lhe objetos e expulsando-o com toda a sua comitiva. Quando Petrônio Maximus saiu à rua, multidão em frente do edifício o vaiou ainda mais furiosamente e começou a apedrejá-lo. Os seus comparsas conseguiram escapar, mas ele foi capturado e apedrejado até a morte (06-10-455 DC). Depois arrastaram pelas ruas seu cadáver ensanguentado e o jogaram no rio Tibre sob aplausos e gargalhadas dos seus algozes. Três dias depois, os vândalos entraram em Roma sem qualquer resistência e saquearam a cidade à vontade, incendiando vários dos seus edifícios.

O saque de Roma pelos vândalos foi total , inclusive das igrejas e mosteiros

      Diferentemente dos visigodos quarenta e cinco anos antes, desta vez os vândalos não pouparam nada, e embora tenham respeitado o Papa e os membros do clero, despojaram as igrejas e mosteiros de tudo, roubando até mesmo as jóias sacras e os artefatos cerimoniais, inclusive os do Templo de Jerusalém, trazidos à Roma pelo imperador Tito quatro séculos antes. Levado para a África, o volumoso tesouro de inestimável valor histórico e artístico desapareceu para sempre.

      Os vândalos também aprisionaram milhares de pessoas e as levaram para vendê-las no rico mercado de escravos de Cartago ou libertar a troco de resgate aqueles que pudessem pagar. Como que para completar a vingança de Aécio, a viúva e as filhas do finado Valentiniano, que estavam em Roma indiferentes ao que se passava, foram também aprisionadas, destituídas das jóias valiosas e luxuosos vestidos, e levadas para a África como os demais prisioneiros. Correram histórias na época de que elas tinham sido vendidas como escravas por preço altíssimo em leilão conduzido pelo próprio Genserico, mas tudo indica que os “compradores” foram seus próprios filhos, que trataram muito bem as princesas. Mais tarde o Imperador Romano do Oriente pagou bom resgate por elas e o velho pirata Genserico, sempre sedento de ouro, as mandou para Constantinopla, onde terminaram confortavelmente suas vidas atribuladas.

      Após os vândalos invadirem e saquearem Roma, tudo o que restou do império até seu melancólico final em 476 foi a recordação da sua passada grandeza. A era de governos imperiais estáveis também findou com Aécio, pois nos dois anos seguintes três imperadores foram violentamente tirados do poder. Valentiniano foi morto em março de 455, e seu comparsa, assassino e sucessor Petrônio Maximus o seguiu rápido em outubro do mesmo ano. Porém, assim que os vândalos se retiraram da Itália uma assembléia de príncipes galos-germânicos se reuniu em Arles e elegeu novo imperador o distinto príncipe Avito sob gerais aplausos e grandes esperanças. Mas seu governo foi tão corrupto e incompetente como os dois que o antecederam e um ano depois ele também foi destronado (Nov./456 DC) e morto no mês seguinte.

      O trono ficou vago durante vários meses, até que Majoriano, um bravo e austero romano da velha guarda, foi eleito em julho de 457. Começou governando auspiciosamente fazendo grandes reformas de há muito necessárias, mas adiadas anos a fio devido à oposição velada de fortíssimos grupos interessados na manutenção de privilégios. Infelizmente ele declarou guerra a Genserico e o astuto rei vândalo, enquanto fingia negociar um tratado de paz, atacou o porto onde a esquadra romana estava ancorada e a destruiu. Os descontentes com as reformas imediatamente culparam Majoriano pelo desastre, tramando sangrenta conspiração para derrubá-lo, e em agosto de 461 o único imperador decente que Roma tivera no século V foi preso e executado.

      Quatro imperadores assassinados em seis anos era demais e todos os cidadãos dignos recusaram o perigoso cargo, pois tinham sabiamente concluído que sentar no trono imperial era o modo mais curto de cometer suicídio.

      Richomer, hábil político e poderoso mercenário bárbaro a serviço do império, principal sustentáculo de Majoriano no início e o maior responsável por sua queda depois, se tornou líder maior e governou durante anos através de testas-de-ferro sem qualquer expressão social, política ou militar. Finalmente a morte o afastou, mas os novos imperadores continuaram a ser tão ineficazes e incompetentes quanto os bonecos de Richomer, até que Rômulo Augustulus, jovem e educado cavalheiro ainda quase adolescente, muito admirado na alta sociedade pelo seu belo porte e elegância, foi posto no trono em 475 pelo poderoso general Orestes seu pai. Ele seria o último imperador romano do ocidente até Carlos Magno ser ungido pelo Papa sob o mesmo título no ano 800, mais de três séculos depois.

Entre a deposição de Rômulo Augustulus  e a coroação de
Carlos Magno como Imperador Romano do Ocidente
passar-se-iam 326 anos

      A maioria das pessoas, mesmo as instruídas, pensa que o fim do Império Romano foi uma catástrofe causada por súbita e arrasadora invasão de povos bárbaros vindos do leste da Europa, e que sua queda teve o ruído de um trovão. Na verdade o seu fim ocorreu vagarosamente, e o seu último ato foi tão suave e estranho que pouca gente na época julgou que ele representasse o que é hoje conhecido como “A queda do Império Romano”.
   
      É verdade que houve grandes ataques e invasões militares, como as de Átila (451 e 452 DC), mas as verdadeiras invasões eram pacíficos movimentos migratórios de tribos germânicas que pediam humildemente a imperial permissão para cruzarem a fronteira e estabelecerem-se em terras incultas e abandonadas da Gália e da Hispania, hoje Bélgica, França, Espanha e Portugal. Longe de serem abruptas e violentas, estas massivas migrações duraram quase dois séculos, e os imigrantes apenas fugiam de intermináveis guerras tribais, fome e miséria generalizadas, buscando uma vida melhor nas prósperas regiões ocidentais da Europa, protegidas pelas famosas legiões romanas e celebradas pelos andarilhos menestréis como “Terra de Leite e Mel”. Mesmo as grandes invasões militares da Itália pelos visigodos, hunos e vândalos não tiveram maior significação política na vagarosa queda do império, porque as tropas invasoras não se estabeleciam no território e logo iam embora após destruírem e roubarem o que podiam. Os bárbaros somente começaram a se instalar na Itália após a morte de Aécio.

      Durante séculos também foi popular a crença de que o Império acabara porque Roma sucumbira diante dos bárbaros devido à decadência dos costumes de sua sociedade e à corrupção da sua civilização altamente sofisticada. A licenciosidade teria destruído as virtudes guerreiras do povo romano, fazendo-o presa fácil de bárbaros primitivos, mas de costumes ainda puros e não corrompidos pelos males da civilização. A falsidade de tal interpretação reside no fato de que Roma jamais foi tão poderosa econômica, política e militarmente quanto nos séculos I, II e III da nossa Era, quando o paganismo era quase absoluto e a licenciosidade atingia os extremos descritos por vários historiadores, sobretudo Suetônio no seu famoso "Crônica Escandalosa dos Doze Césares". Ao contrário desta crença puritana, foi exatamente a partir do fim do governo de Constantino na primeira metade do século IV, com o banimento do paganismo pretensamente impuro e a adoção do cristianismo pretensamente puro, que o Império entrou em crise irreversível e lentamente desagregou-se no decorrer do século V até o seu final colapso em 476.

Os nababescos festins da aristocracia romana e a "corrupção dos costumes"
nada tiveram a ver com a desagregação e o fim do Império
   
      As causas da “Queda do Império Romano”, portanto, não foram a decadência dos costumes nem as invasões bárbaras, embora estas tenham tido importante papel no processo, sobretudo por trazerem hordas de povos primitivos para viverem numa desenvolvida e sofisticada sociedade, produzindo brutal rebaixamento no seu nível de cultura e civilização. A principal causa do fim do império foi a transição do sistema escravocrata para o sistema feudal. Infelizmente para Aécio, ele foi o primeiro estadista romano a perceber que a única chance de sobrevivência do império seria a adoção do novo sistema, único que os bárbaros, avessos ao regime escravocrata, poderiam aceitar.

      A escravidão nos campos seria substituída pela servidão, fazendo dos antigos escravos inquilinos perpétuos da terra possuída por um senhor que lhes cobraria obediência e parte da produção como aluguel; este senhor possuiria a terra em nome de outro senhor mais poderoso, ao qual também pagaria obediência e aluguel, e este faria o mesmo em relação a outro senhor ainda mais poderoso, e assim por diante até chegar à pessoa do imperador. Este sistema já estava em vigor em algumas remotas regiões da Gália e da Espanha ocupadas pelos bárbaros, mas os proprietários de cultura romana não queriam nem ouvir falar dele, porque além de representar uma diminuição temporária dos lucros líquidos e do domínio discricionário sobre a terra, também significava a perda total do imenso patrimônio que os escravos representavam. Ademais, não conseguiam imaginar como poderia uma família aristocrática viver sem escravos! Foi a simpatia de Aécio pelo novo sistema, e o apoio dado aos bárbaros para desenvolvê-lo nas terras por eles ocupadas, o maior motivo para que a aristocracia romana sempre o olhasse com grande suspeita, e esta foi uma das razões que contribuíram para que ele jamais se tornasse imperador.

A substituição dos pequenos proprietários rurais por grandes latifundiários exigia exércitos de escravos e foi a
crise do sistema escravocrata a principal causa da desagregação do Império Romano do Ocidente
 

      Fato concreto é que o novo sistema não foi adotado a tempo de salvar o império e o mundo ocidental mergulhou em completa anarquia e selvageria por mais de três séculos, período obscuro conhecido como “Alta Idade Média”. Somente quando certa ordem voltou no tempo de Carlos Magno o sistema feudal adquiriu formato jurídico definitivo e no final do século IX implantara-se em toda a Europa, extinguindo a escravidão no continente. Porém o colapso das instituições do império quatro séculos antes tinha causado tamanho atraso econômico e retrocesso cultural, que mais cinco séculos se passariam até que viesse a Renascença e o tempo perdido começasse a ser recuperado.

      Mas voltando a Rômulo Augustulus, deve ser dito que ele governou apenas simbolicamente, tanto quanto os atuais soberanos europeus governam os seus reinos democráticos. Um ano após a coroação do último imperador, o rei dos hérulos Odoacro, que há anos assolava o norte da Itália com seus bandos de ferozes guerreiros, derrotou em batalha o seu ex-amigo general Orestes, pai do imperador, e assumiu o controle da Itália. Como resultado, achou desnecessário alguém em Ravena usando o título de imperador e posando de governante, pois queria governar o seu recém adquirido reino diretamente do palácio imperial em Ravena, como natural ao soberano da Itália. Mas para isso teria que despejar seu ocupante, “simpático jovem filho do seu ex-amigo Orestes, tornado inimigo por força das circunstâncias”!


Rômulo Augustulus recebe Odoacro com grandes honras nos portões de Ravena e humildemente
põe aos seus pés a sua coroa imperial (476 DC)

      Sendo hábil político e amante das formalidades legais, só recorrendo à força em último caso, Odoacro ficou feliz ao ver o imperador de Roma curvar-se diante dele e lhe fez excelente oferta: Rômulo Augustulus renunciaria ao seu título em solene cerimônia pública e sairia do palácio imperial espontaneamente em troca de magnífica mansão à beira mar, grande quantia em ouro no ato e excelente pensão anual, o bastante para que vivesse principescamente o resto da vida. Selado o acordo, ele renunciou como combinado (Set./476 DC) e foi viver em seu novo palácio como simples particular, evitando meter-se em assuntos políticos daí em diante.

      A ironia do prosaico evento, mais tarde chamado A Queda do Império Romano, foi que Odoacro era filho de importante ministro de Átila, e os hérulus, seu povo, eram uma tribo germânica que lutara sob a bandeira de Átila na Gália e na Itália, misturando-se largamente com os hunos. Em conseqüência, penso ser apropriado dizer que os hunos, derrotados por Aécio duas vezes, foram indiretamente vitoriosos no final. Por outro lado, o ridículo “negócio” entre Odoacro e Rômulo Augustulus povoou o anedotário fazendo as pessoas rirem em toda parte, mostrando que ao invés de ter sido o resultado de terrível batalha entre romanos e bárbaros, a chamada “Queda do Império Romano” foi apenas o resultado de um lucrativo acordo de cavalheiros.

Em solene cerimônia Rômulo Augustulus renuncia ao título de
imperador e passa a Odoacro as insígnias do poder imperial

      Indignado com a negociata, o Imperador Romano do Oriente reclamou o trono vazio sob o “argumento legal” de que era o legítimo herdeiro do Império Ocidental no caso do seu titular morrer ou renunciar sem deixar herdeiros e o senado romano não lhe eleger um sucessor. Mas Odoacro respondeu aos seus “clamores jurídicos” fazendo o senado escrever-lhe dizendo que “Um novo imperador é desnecessário ao povo romano, pois todos estão felizes e seguros sob o profícuo governo de Odoacro; de sorte que o melhor para sua Majestade do Oriente será cuidar dos seus próprios graves assuntos, um pesado fardo mesmo para alguém tão sábio e competente, e parar de se intrometer nos negócios do Ocidente de uma vez por todas”! Para completar, o senado romano mandou para Constantinopla a coroa e as insígnias do último Imperador do Ocidente, dizendo que ao Império bastava um só imperador e sua Majestade Oriental poderia usar as jóias também como Majestade Ocidental desde que não se metesse nos negócios do Ocidente.

      O povo romano considerou tudo uma piada e o caso virou apenas mais uma anedota entre as muitas que circulavam na ocasião. Assim, ao contrário do que muitos pensam, o Império Romano do Ocidente não caiu em meio a gritos de tragédia, mas em meio a gargalhadas de comédia.

      Na época ninguém achou que o Império houvesse acabado: “Mais cedo ou mais tarde um imperador como Teodósio o Grande irá surgir e colocará tudo novamente nos seus devidos lugares, fazendo as coisas voltarem à normalidade!” era o sentimento generalizado. Mas quando um ano passou e virou uma década e a década virou um século sem que nenhum novo grande imperador aparecesse, as pessoas finalmente perceberam que o Império tinha terminado e os historiadores tomaram o ano de 476 como data de sua queda. Na verdade o Império morrera vinte e dois antes junto com Flávio Aécio, seu último grande general.

Sic Transit Gloria Mundi


  

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Post nº 76

PERFIL  DE  UTHER  -  “O  SENHOR  DOS  DRAGÕES”

Uther era astuto, leal com amigos, impiedoso com inimigos e generoso com o povo. Mais
que qualquer outro cultivou a própria lenda e virou "O Senhor dos Dragões"



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Eis como o frade romano Gildasius Pisannensis descreve o seu amigo príncipe Uther Pendragon, cognominado por seus súditos de “O Senhor dos Dragões”.


            Ainda quando estudava com os padres em Bath, assimilara a fundo o preceito evangélico: “Sede simples como a pomba e astuto como a serpente”! Mas à medida que aprendia com a vida fez ao santo mandamento um pequeno acréscimo: “Sede simples como a pomba, astuto como a serpente e mortífero como o leão”!

            Era homem simples e cordial, jamais mostrando pompa ou orgulho e tratando a todos como seus iguais. Também era polido e atencioso, e na medida do possível ajudava os que recorriam aos seus préstimos. Arrogância era uma palavra que não existia no seu dicionário. Porém essa postura pessoal era apenas a base sólida para o exercício da sua principal qualidade: a astúcia!
 
            Conquistava as pessoas com seus modos simples e amigáveis apenas para usá-las na consecução dos seus objetivos; mas como muitas vezes não precisava delas no presente, nunca excluía a hipótese de precisar delas no futuro, e mantinha a mesma postura simples e cordial em todas as ocasiões. Até porque isto lhe evitava possíveis acusações de falsidade ou hipocrisia. Sabia distinguir amigos e inimigos não apenas pelo que diziam ou faziam, mas também por um simples gesto ou palavra, e às vezes até mesmo por um olhar. Era exímio conhecedor de pessoas e excelente jogador, prevendo sempre com antecedência duas ou três jogadas à frente; isto fazia com que ninguém o superasse em qualquer tipo de negociação, e embora nada fizesse que não fosse do seu próprio interesse, premiava os que lhe serviam com lealdade, reforçando sua reputação de homem correto e desarmando espíritos menos sutis que o seu. Muitos anos depois, quando já éramos amigos íntimos, questionei seu excessivo pragmatismo e ele me respondeu com toda a sinceridade do seu espírito simples: “Olhe aqui, Gildásio: você só é frade porque sua mulher morreu e você quis ganhar do céu o conforto que a terra lhe negou, por isso pare com essa tolice de dizer que existem pessoas que não agem por interesse. Até mesmo o santo só é santo porque deseja ganhar de Deus a recompensa do paraíso”!

            Assim era Uther: duro, pragmático e objetivo. Porque era simples e cordial jamais usava palavras ásperas, e porque era astuto jamais fazia ameaças, pois raciocinava corretamente: “Ameaças só servem para prevenir os inimigos e despertá-los da sua falsa sensação de segurança; melhor deixá-los adormecidos para mais facilmente liquidá-los no momento oportuno”! E aí entrava a terceira virtude que ele acrescentara ao mandamento evangélico: a mortífera agilidade do leão!

Uther impressionava por seu porte, bravura e frieza, sua voz forte, segura e impositiva,
mas sobretudo pelo medo causado pela fama que o acompanhava

            Ele fazia de tudo para não entrar numa briga, mas se nela entrasse o fazia de modo tão rápido e letal que destruía completamente o inimigo e os seus aliados, não sobrando ninguém para revidar. Por isso é que ao eliminar os filhos e genros de Gorlósio eliminara também seus descendentes varões. Apesar disso ele se considerava generoso e humanitário, pois nunca matava por matar. Na verdade o seu objetivo não era torturar ou matar ninguém: era apenas livrar-se de um incômodo. Uma vez ele me disse com a mais fria honestidade: “Saiba você, meu bom Gildásio, que jamais fiz o mal quando podia fazer o bem ou matei alguém que não merecesse morrer para beneficio de todos. Jamais maltratei pessoa alguma, nem mesmo meus piores inimigos, e quando fui obrigado a eliminá-los o fiz de forma rápida e quase indolor, poupando-os de sofrimentos desnecessários”!

            Também se julgava um homem da lei, pois há tempos descobrira que a forma melhor de manter o poder era através de leis que o legitimassem e dessem ao governante a reputação de ser justo e imparcial. Para tal fim nada melhor do que leis escritas ministradas por juízes instruídos. A palavra escrita sempre tivera entre os povos cultos grande prestígio e entre os incultos respeito quase religioso; por isso comprou em Bath um exemplar do Código Teodosiano, promulgado pelo Imperador Romano do Oriente, e sabendo ler bem o latim o examinou com auxílio de um advogado e dele excluiu todas as regras em desacordo com os costumes de Cornwall, acrescentando-lhe algumas que aumentavam o poder do Marchensis romano; ou seja, dele próprio. Depois contratou escribas para fazerem uma pequena edição privada do código por ele modificado e pôs ricas capas de couro nos exemplares produzidos. Os escribas estavam ansiosos por um emprego seguro, e quando lhes ofereceu o cargo de juízes em Cornwall aceitaram sem hesitar. Deu-lhes roupas vistosas e os instalou dignamente nos vilarejos mais importantes, decretando que dali em diante todos os litígios deviam ser a eles submetidos e decididos de acordo com as leis da “Santa Igreja”, pois, sendo um governante romano e cristão, outras leis não poderia ele admitir em seu distrito senão aquelas decretadas pelo imperador e aprovadas pela Igreja!

Melhor que ninguém Uther soube cultivar mitos que incendiavam a imaginação
popular e tornou-se legendário

            Porém a nomeação dos juízes não lhe custou praticamente nada, pois uma taxa era cobrada aos vencidos em proporção ao valor do litígio por eles causado. Nos casos criminais uma pesada multa era aplicada ao infrator, e quando havia condenação à morte todos os bens do condenado iam para os “cofres públicos”. Mas ele sabia que a tentação de suborno e extorsão era grande e poderia desviar os juízes da função para a qual os nomeara, desmoralizando o sistema que tentava implantar. Em conseqüência os advertiu previamente de que qualquer ato de corrupção resultaria na imediata execução do juiz corrupto, e para mostrar que não estava brincando enforcou pessoalmente diante deles dois ladrões presos alguns dias antes, enquanto dizia aos futuros julgadores: “Um juiz corrupto é três vezes mais ladrão do que qualquer ladrão comum; por isso ao invés de enforcá-lo eu o manterei vivo e cortarei seus pés e pernas, depois cortarei suas mãos e braços, e finalmente cortarei sua cabeça, mandando espetar seus restos em estacas para que sejam comidos pelos urubus. A falta de um enterro cristão também condenará sua alma ao inferno”!

            Claro que se podia apelar ao Marchensis da sentença, mas quando não era do seu interesse modificá-la dizia ao apelante que o juiz fizera o que a lei mandava, e como “suprema autoridade imperial” ele era obrigado a cumpri-la; infelizmente não podia fazer nada pelo “prezado amigo”, pois a lei era a lei. Nas poucas apelações que atendia dizia que o juiz se enganara e aplicara a lei de forma errônea, devendo ser por isso severamente repreendido. Ele nunca o repreendia, limitando-se a modificar a decisão através de uma boa justificativa legal feita pelo próprio juiz que a prolatara e chamado para ouvir a “repreensão”, mas na verdade para redigir a decisão modificando sua sentença. Isto os ensinou que nos casos importantes deviam antes ouvir a opinião do chefe. Porém apelações eram raras, pois ordenara aos juízes decidirem com o vistoso código aberto e lendo para os litigantes a regra na qual se baseavam. Eles não entendiam nada da leitura porque quase ninguém sabia latim, mas isto só fazia aumentar o prestígio da decisão, pois nas suas mentes simples as misteriosas palavras soavam como algo mágico e a lei adquiria significado místico, fazendo-a temida e obedecida. Aos poucos a justiça romana, ou melhor, a justiça de Uther, se tornou respeitada em todo Cornwall pela sua “correção e imparcialidade”!

Ninguém ousava desafiar Uther, homem cuja lenda dizia que vencia e domava dragões

            Todavia os mais poderosos senhores continuavam fora do seu alcance porque todos eles tinham exércitos particulares, e embora fossem leais ao “chefe dos chefes” sempre poderiam se revoltar. Aliás, essa coisa de “chefes” o incomodava bastante, pois no seu entendimento o poder era indivisível, mas enquanto não pudesse acabar com seus bandos armados teria de dançar de acordo com a música. Assim, tal como o imperador Augusto, que governava como ditador enquanto fingia que tudo era decidido pelo senado, Uther costumava convocar os chefes regularmente para reuniões onde os assuntos importantes eram discutidos. Geralmente expunha a matéria sem dar opinião, dizendo que ouviria todos os demais e a decisão seria tomada em conjunto. Embora ele já houvesse decidido previamente, deixava que a discussão se aprofundasse, ouvindo atentamente e não apresentado objeções às opiniões contrárias que iam aparecendo, mas fazia muitas perguntas sob o pretexto de querer entendê-las melhor até que elas se mostravam inviáveis aos olhos dos demais e alguém aparecia com a opinião que lhe interessava. Porém continuava perguntando e aos poucos ia concordando, até que todos também concordavam e ele proclamava que a opinião do amigo fulano prevalecera por unanimidade. Às vezes não se chegava a um consenso e ele dizia impaciente: “Todos sabem que sou homem razoável, que sempre concorda com as sábias opiniões dos amigos e que jamais aprovaria algo que não fosse do nosso mútuo interesse, mas sou obrigado a dizer que a opinião do amigo cicrano é a que melhor atende às circunstâncias atuais e peço aos que confiam no meu julgamento que apóiem a opinião dele. Vamos votar”.

            Ele nunca perdia, e os senhores cuja opinião tinha prevalecido, e até mesmo os que tinham sido vencidos, aplaudiam o seu espírito conciliador.

            Este era o verdadeiro Uther Pendragon, “Senhor dos Dragões”, príncipe bravo e correto que todos viam, respeitavam e temiam, mas que pouquíssimos conheciam.