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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Post nº 85

LORD  COCHRANE - O ALMIRANTE  CORSÁRIO
QUE  FOI  HERÓI  DE  TRÊS  MUNDOS

Cochrane tornou-se famoso nas guerras napoleônicas, obtendo notáveis vitórias navais
contra navios de guerra franceses e espanhóis






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Ler os clássicos é sempre fonte de ilustração, mas é também fonte de preciosas lições sobre como agir face a difíceis circunstâncias do presente com base em situações ainda mais difíceis do passado. Parece ser uma fatalidade histórica que todos os séculos da Era Moderna comecem bem e logo entrem em crises de grandes proporções. O nosso começou eufórico, mas em 2008 mergulhou na pior crise econômica dos últimos 70 anos. O século XX começou tão bem que foi chamado de belle époque, porém 14 anos depois veio a catástrofe da 1ª Guerra Mundial. O século XIX não foi diferente: começou com o que se chamou de jeunesse doré usufruindo da riqueza e da paz trazida à Europa por Napoleão após a tempestade da Revolução Francesa e logo teve que enfrentar o tufão das Guerras Napoleônicas e das Guerras Latino-Americanas de Libertação.

É no sangrento cenário do início do século XIX que aparece o britânico lord Cochrane, notável capitão de navio de batalha nas guerras napoleônicas e comandante naval de fundamental importância nas lutas de independência do Brasil e do Chile, cujas esquadras ele comandou no posto de almirante outorgado pelos governos dos referido países. Tão extraordinária foi a sua vida que ele virou personagem de romances de aventuras, dos quais o mais famoso é Peter Simple de Frederick Marryat, seu antigo subordinado na marinha. Por óbvias razões literárias, em todos eles o lendário comandante aparece sob nomes fictícios e em Peter Simple ele é o capitão Savage, notável lobo do mar cujos feitos constituem a trama central da obra.

Mas esqueçamos o capitão Savage “herói do romance de aventuras” e vejamos o almirante Cochrane “herói da vida real”. Thomas Cochrane nasceu em 1875 em nobre família escocesa cujas raízes remontavam à Idade Média e tornou-se lord Cochrane e décimo conde de Dundonald já homem maduro. Na época, consoante a ordem natural das coisas, o jovem aristocrata estava destinado à vida pacata de grande senhor rural como seu pai, porém “ordem natural das coisas” e “vida pacata” eram coisas fora do horizonte do caráter aventureiro de Cochrane. Ademais, há anos sua nobre família enfrentava sérias dificuldades econômicas e muitos dos seus membros haviam escolhido a carreira militar como meio seguro de vida e de conservar o elevado status social através da conquista de altos postos nos forças armadas. Um dos seus tios era almirante e graças à sua influência entrou na marinha como suboficial, passando a oficial mais tarde após rápido treinamento. Como todas as marinhas da época, a Royal Navy era depósito de rebotalho social da pior espécie, somente superado por prisões e colônias de criminosos, mas Cochrane sentiu-se à vontade nesse meio bizarro e perigoso, logo se destacando por sua notável eficiência profissional e grande liderança, o que fez com que o promovessem a capitão de modesto navio de guerra.

Cochrane ainda jovem nas guerras napoleônicas

Tivesse Cochrane entrado na marinha em tempos pacíficos teria sido apenas mais um burocrático capitão de navio sonolento criando lodo nos portos, mas creio que se na época este fosse o caso ele não teria sido marinheiro. Para os bravos e aventureiros os tempos ideais são aqueles onde o tumulto e os perigos substituem a pasmaceira da vida pacífica e bem ordenada, pois são os que permitem seus talentos e qualidades destacarem-se e serem apreciados. Os tempos de Cochrane foram desse tipo, pois havia permanente guerra com a França desde antes da rebelião das colônias americanas ocorrida há décadas. A Revolução Francesa a agravou e o advento de Napoleão a levou aos quatro cantos do globo. Para um voraz lobo do mar como Cochrane isso era “sopa no mel” porque nas marinhas da época reinava o sistema do “butim”, pelo qual em operações navais singulares o vencedor ganhava os despojos do inimigo e os dividia com seus homens, cabendo-lhe a melhor parte. Isto levava capitães ousados como Cochrane a operar como “piratas”, atacando e roubando tudo que pertencesse ao adversário. O nome elegante para esse tipo de pirataria legalizado era “guerra de corso” e ao capitão não se dava o nome de pirata, mas de “corsário”.  

Cochrane era rematado “corsário” e seu alvo principal eram cidades médias do litoral mediterrâneo da França e da Espanha. Ele ancorava próximo à noite e mandava botes espiões verificar se havia navios inimigos mercantes ou de guerra no porto. Conforme a informação, traçava seu plano e ao amanhecer atacava de surpresa para apreender o maior número possível de barcos e levá-los como “presa de guerra” à Inglaterra, onde os vendia e embolsava sua parte após a divisão com seus homens. Quando a apreensão não era possível, saqueava e incendiava o navio assaltado. Às vezes atacava mesmo quando não havia navios que valessem à pena e saqueava armazéns e lojas da área portuária, de sorte que de um modo ou de outro suas operações traziam grandes lucros e faziam marujos com vocação para o perigo, o roubo e a pirataria adorá-lo.

Embora os moralistas e alguns membros do almirantado fizessem sérias restrições aos atos de Cochrane e dos seus iguais, “violadores de elementares princípios de ética e cavalheirismo”, o povo o tinha como “herói”, pouco ligando para a sua ladroeira e as vítimas civis. Diziam que “guerra é guerra” e “na guerra vale tudo”, nela não havendo lugar para tolices como “cavalheirismo” e “considerações éticas”. Suas façanhas deram-lhe o título de “cavaleiro”, indo a sua bandeira adornar uma das naves da abadia de Westminster, e sua popularidade o elegeu ao Parlamento onde se integrou à ala reformista do Partido Liberal, chamada de “liberal radical”. Muito atuante, logo se destacou, mas era homem de caráter difícil, duro e com enorme facilidade para fazer inimigos. Assim, aos muitos que tinha na marinha somou os inimigos que fez no Parlamento, sobretudo no Partido Conservador, cujo reacionarismo e oposição às reformas ele não cessava de vergastar em discursos cáusticos e até mesmo insultuosos.

A esquadra inglesa colheu grandes vitórias contra as esquadras coligadas da França e da Espanha,
dando importante contribuição para a derrota final de Napoleão

As sessões parlamentares duravam poucos meses e o resto do ano ele passava no mar combatendo ou saqueando navios mercantes e portos inimigos. Seus hábitos não mudaram nem mesmo quando casou por amor com uma bela, porém modesta jovem plebéia contra a vontade da sua aristocrática família, coisa que o obrigou a casar apenas no civil. Somente anos mais tarde ambos casaram também na Igreja Anglicana, único tipo de casamento aceitável pela nobreza da época. A noiva, além de bonita, era muito mais moça e Cochrane estava tão apaixonado que dela não se separava um só instante, levando-a consigo em suas perigosas viagens, coisa naqueles tempos comum entre os oficiais de alta patente. Os riscos eram enormes para as esposas e isso hoje nos parece absurdo, mas os testemunhos da época nos informam que elas aceitavam o perigo de bom grado, sobretudo quando se tratava de uniões por amor. Como diz o ditado, “mudam as épocas, mudam os costumes”!

Com a derrota de Napoleão e seu exílio na ilha de Elba, as guerras napoleônicas pareciam ter acabado e parte da Royal Navy foi desmobilizada, sobretudo os “corsários”, mas Cochrane já estava riquíssimo e mostrando que era corsário tanto no mar quanto em terra pôs-se a especular na Bolsa de Valores e ganhou muito dinheiro. Foi quando circulou o boato de que Napoleão tinha morrido e o perigo que ele representava estava afastado de uma vez por todas. A bolsa subiu às alturas e alguns especuladores ganharam fortunas porque compraram barato grande volume de títulos pouco antes do boato e os venderam caro quando a Bolsa chegou ao pico. No dia seguinte o boato foi desmentido, os preços caíram, perderam-se fortunas e suspeitas de manipulação surgiram, instaurando-se processo para apurar possível fraude. Entre os que lucraram muito estava Cochrane e as provas contra ele eram fracas, mas o juiz que presidia a Corte era seu desafeto e ele foi condenado à prisão e a pagar pesada indenização e multa. Perdeu o título de cavaleiro, o mandato de deputado, a patente de oficial e além da pena de prisão recebeu também a pena infamante de exposição no pelourinho, mas o povo protestou e grandes manifestações tomaram conta das ruas de Londres, fazendo com que esta última fosse anulada por temerem revoltas populares mais graves do que as já ocorridas.

Mas a solidariedade do povo não evitou que Cochrane fosse para a cadeia. Quando dela saiu 2 anos depois estava arruinado e alguém de espírito mais fraco teria ido para a casa ancestral no interior da Escócia e lá vivido recluso até que a morte misericordiosa viesse buscá-lo, mas abandonar a vida do mar era coisa que não passava por sua cabeça e ele foi perambular pelos portos em busca de emprego. Foi quando a sorte lhe sorriu de novo. As guerras napoleônicas e a ocupação francesa tinham desagregado o império da Espanha e revoltas eclodiram assim que seus enviados chegaram às colônias para repor a antiga ordem de coisas. Várias proclamaram sua independência e agora travavam dura guerra de libertação. Entre estas estava o Chile, cuja forma geográfica fazia crucial a guerra naval, por isso tentava construir frota que lhe permitisse enfrentar à poderosa esquadra espanhola que lhe devastava o extenso litoral, onde ficava o que havia de relevante no país. Cochrane estava ansioso para voltar à ação e assim que foi lavrado o contrato ele alistou muitos marujos da sua antiga tripulação, navegou célere com a esposa para o Pacífico e lá chegando caiu sobre os espanhóis como águia faminta.

A frota chilena comandada por Cochrane em operações de guerra contra os espanhóis no
litoral sul-americano do oceano Pacífico

 No início sua frota tinha poucos navios apropriados ao combate, pois a maioria era de pequenos barcos cargueiros adaptados, mas à medida que com suas táticas corsárias apreendia vasos de guerra espanhóis sua frota crescia e em breve estava apta a travar grandes combates. Porém era ainda muito inferior e preferiu evitá-los, pois não queria arriscar tudo em uma única cartada, continuando a fustigar o inimigo com sua ousada “guerra de corso”. Até porque era esta que lhe dava os maiores lucros.

Descrever as incríveis façanhas de Cochrane nos anos em que lutou no Chile daria um livro e lembraremos apenas uma: a captura do poderoso navio de batalha Esmeralda, nave capitania da frota espanhola! Informado de que o inimigo concentrara-se em porto peruano de onde partiria para operações no litoral chileno, ele usou o método que usava no litoral francês e ancorou secretamente a uma distância segura da frota inimiga. À noite, mandou dezenas de escaleres repletos de “piratas” até os barcos espanhóis, dos quais se aproximaram silenciosamente, lançaram ganchos de abordagem em suas amuradas e as escalaram rapidamente, capturando vários navios que estavam com quase toda tripulação adormecida ou em terra. Aqueles onde houve luta e não puderam ser capturados foram incendiados e os assaltantes nadaram de volta aos botes, indo para os barcos já em poder dos seus companheiros. Ao amanhecer, diversos vasos de guerra, inclusive o Esmeralda, estavam nas mãos dos atacantes e outros estavam em chamas. Quando se retirou, a esquadra espanhola praticamente deixara de existir e a sua frota dominava o Pacífico Sul, com seu poder duplicado graças aos navios capturados.

Enquanto Cochrane derrotava os espanhóis no mar o general O'Higgins, chefe do governo
chileno, derrotava os espanhóis em terra

Seu trabalho no Chile terminara e poderia tê-lo adotado como nova pátria, lá ficando como chefe da esquadra e eminente cidadão, vivendo rico e feliz o resto da vida, mas ele era aventureiro por instinto e inclinação da cabeça aos pés, não sendo do seu feitio ter vida sedentária, próspera e pacata, sonho da grande maioria das pessoas. Sem o mar profundo embaixo dos pés e as ondas furiosas ao redor, ele era como peixe fora d’água, e sem árduos combates pela frente ele era como ave migratória que perde o rumo e voa sem destino até morrer de desespero e cansaço. Ademais, a despeito de ser um mercenário, era um patriota que nunca deixara de sonhar com o seu país que o tratara tão mal e buscara sempre estar ao seu serviço mesmo quando lutava por outros países, como no caso do Chile. Antes de aceitar o contrato, se informara da posição da Inglaterra e ficara aliviado ao saber que era do seu interesse o fim do império colonial espanhol, seu rival. Sua ligação com representantes diplomáticos ingleses na região, que agiam discretamente para não ofender a Espanha e oficiosamente por não ter sido ainda reconhecida a independência dos novos países, era estreita e lhe dava a curiosa condição de ser ao mesmo tempo agente pago de país estrangeiro e agente gratuito de seu país, sem contradição entre as duas coisas.

Em uma de suas muitas audazes operações corsárias na costa do Pacífico durante a guerra de libertação
do Chile, os marinheiros de Cochrane capturam o porto de Valdívia

Com o fim da guerra no Chile, ele tentou se juntar a Bolívar no norte, mas a guerra que este travava era basicamente terrestre e dispensava operações navais. Foi quando recebeu convite para comandar a esquadra do recém criado Império do Brasil. O príncipe herdeiro do Reino de Portugal era príncipe regente do Reino do Brasil e, instigado pelo ministro José Bonifácio e por sua esposa a arquiduquesa Maria Leopoldina, filha do imperador da Áustria e mulher muito culta que secretamente articulava o apoio europeu à causa brasileira, rompera com Portugal, proclamando a separação dos dois reinos e promovendo-se de príncipe regente a imperador do Brasil sob o nome de Dom Pedro I. O rei de Portugal seu pai, Dom João VI, não aceitara a separação e a guerra eclodira. Os dois países ficavam frente a frente, tendo o Oceano Atlântico no meio, e o litoral brasileiro era duas vezes mais extenso e mais rico que o chileno, o que fazia da guerra naval um imperativo estratégico.

A frota ficara ao lado de Portugal e o imperador teria de criar nova frota se não quisesse ficar sem o trono de Portugal e sem o trono do Brasil. Assim, pegou velhos navios de guerra portugueses ancorados no porto do Rio quando da separação e os juntou com cargueiros adaptados às pressas, dando-lhes o pomposo título de “frota imperial”. Cochrane quase desesperou ao ver o seu péssimo estado, mas não se intimidou e velejou para a Bahia, então a mais importante província brasileira e que estava em poder dos portugueses. Intensos combates se travavam em terra, com clara vantagem para Portugal, pois a esquadra portuguesa bloqueava o porto da capital baiana impedindo a chegada por mar de qualquer socorro aos separatistas enquanto os ocupantes recebiam boa quantidade de soldados, armas e munições.

Após proclamar a dissolução do Reino Unido do Brasil e Portugal, o príncipe herdeiro do trono dos
dois países se fez coroar imperador do Brasil com o título de Dom Pedro I

Na sua rota Cochrane capturou um cargueiro português, mas quando tentou entrar na Baía de Todos os Santos o inimigo lhe infligiu pesada derrota. Só a sua habilidade permitiu-lhe escapar com metade dos seus barcos e voltar ao Rio, onde fez amargo relato ao governo acerca do miserável estado da “frota imperial”: barcos desconjuntados que ameaçavam se desmanchar apenas com a vibração dos próprios disparos, velas apodrecidas rasgando-se com ventos fortes, canhões mal conservados explodindo e matando os artilheiros, pólvora velha ou falsificada produzindo tiro chocho ou nenhum, e por aí vai. Porém sua maior queixa era das tripulações compostas por negros libertados da escravidão para servirem na armada, marinheiros portugueses ancorados no Rio quando da separação e malandros recrutados nas ruas. Os únicos que tinham treino eram os marinheiros portugueses, mas não mereciam confiança porque estiveram a ponto de se amotinar e de apoderar-se de vários navios para aderir ao inimigo durante a batalha. Os outros eram quase inúteis e todos eram indisciplinados e sujos, recusando-se a fazer qualquer trabalho de limpeza dos próprios alojamentos e latrinas. Mostrando seu liberalismo radical, que tinha como um dos seus pontos programáticos a abolição da escravatura, dizia que um dos piores efeitos do regime escravocrata, amplamente vigorante no Brasil, era a criação de uma cultura avessa ao trabalho e à disciplina que lhe é inerente, fazendo as pessoas tê-los por desprezíveis e degradantes mesmo quando em seu benefício. Daí a preguiça, o relaxamento e a imundície reinantes na frota, mero reflexo do que ocorria nas ruas das cidades brasileiras. 

Nos encontros oficiais e conversas pessoais ele deve ter sido muito mais incisivo do que em polidos ofícios burocráticos porque navios novos foram adquiridos, velhos foram reequipados, antigas tripulações dispensadas e muitos marujos ingleses e americanos contratados. Daí em diante Cochrane só teve vitórias e quando os portugueses finalmente retiraram-se da Bahia ele os perseguiu até o meio do oceano Atlântico, capturando vários dos seus navios. Do ponto onde cessou a perseguição, seguiu para o Maranhão, outra grande província insubmissa, e com um ardil obteve a rendição e retirada dos ocupantes tanto do Maranhão quanto do Pará, província até então também fiel a Portugal. Orgulhosamente, oficiou ao governo comunicando que os últimos inimigos tinham sido varridos do litoral brasileiro e o país agora estava em paz.

A imperatriz Maria Leopoldina era filha do imperador da Áustria e mulher muito culta. Junto com
o ministro José Bonifácio ela articulou o apoio europeu ao novo Império do Brasil

Ao voltar recebeu grandes homenagens e o imperador lhe outorgou o título de marquês do Maranhão. Pedro I era muito irônico e gostava de fazer piadas, por isso a cota d’armas correspondente ao título era decorada com cabeças de ferozes lobos diabólicos, certamente em alusão aos apelidos Loup de Mer e El Diablo que franceses e espanhóis lhe deram. Nos meses de paz que se seguiram Cochrane se dedicou a fazer da imperial marinha brasileira uma marinha de verdade, agregando novos barcos, modernizando os antigos e treinando os marinheiros na tradição, disciplina e eficiência britânicas. Foi com certeza o seu trabalho que possibilitou ao Brasil meio século depois ter a terceira maior esquadra do mundo, superior às esquadras russa, alemã e americana.

Em 1824 a importante província de Pernambuco proclamou sua separação do Império e com outras províncias menores circunvizinhas formou uma república com o nome de “Confederação do Equador”. Porém tratava-se mais de um protesto de liberais radicais contra a dissolução da Assembléia Nacional Constituinte e outorga autoritária de uma Constituição pelo imperador do que de movimento realmente separatista, para o qual não havia apoio popular nem reais condições políticas, sociais e econômicas. Mas o governo não hesitou e Cochrane bloqueou o porto do Recife, QG da revolução, sem, todavia bombardeá-lo ou ocupá-lo, podendo-se dizer que o seu papel foi apenas tático. É possível que a moderação de Cochrane no caso deva-se à secreta simpatia sua pelos rebeldes, “liberais radicais” como ele, mas não há evidência disso. De qualquer forma, mesmo sem ações mais violentas, o bloqueio os impediu de receberem suprimentos e teve grande impacto psicológico, enfraquecendo-os bastante. Mas esta situação não durou muito, pois enquanto a esquadra permanecia ameaçadora defronte ao Recife, exército vindo por terra invadiu Alagoas e Pernambuco, derrotou os rebeldes em vários combates e eles renderam-se. A repressão foi mais sangrenta do que a guerra, mas Cochrane nela não se envolveu porque tão logo tudo terminou ele voltou à sua base de operações.

Cochrane em seu apogeu no comando da esquadra imperial do Brasil durante
a vitoriosa guerra de independência contra Portugal

Depois de pacificado o país nada mais havia a fazer, porém fosse porque o casal gostasse do Rio, onde a colônia inglesa era grande, fosse porque não queria partir antes de arranjar novo emprego, fosse porque o governo relutava em pagar o que lhe devia, ele deixou-se ficar cuidando dos afazeres rotineiros na marinha e entretendo-se com os amigos. Mas seu caráter irrequieto o levou a sérias desavenças com o imperador, que lhe era muito semelhante, e houve insultos de lado a lado. Chamando o imperador de caloteiro e este o chamando de ladrão, ambos romperam relações e Cochrane não recebeu o que julgava ter direito. Todavia parece que ele tinha razão, sendo apenas mais uma vítima do hábito latino-americano de desrespeitar contratos e não pagar dívidas, pois apesar do caso se arrastar durante décadas e não se saber até onde a diplomacia inglesa influiu na decisão, cerca de meio século depois suas pretensões foram atendidas e seus herdeiros receberam polpuda quantia do governo brasileiro.

Mas muito antes, cansado do “devo, não nego, pago quando puder” das autoridades imperiais, Cochrane rompeu o contrato com o Brasil sem dar quitação e partiu para outras aventuras, agora no leste do mar Mediterrâneo onde a Grécia lutava contra os turcos após separar-se do Império Otomano. Por indicação do governo inglês, mostrando o quanto suas mútuas relações tinham melhorado desde a sua infame condenação, a Grécia contratou Cochrane para comandar a sua frota e ele não decepcionou, derrotando os turcos em várias batalhas e assolando os seus portos do mar Mediterrâneo na Europa e na Ásia Menor com suas táticas corsárias. Finalmente a Grécia obteve a sua independência e Cochrane encerrou a sua missão mais rico e glorioso do que nunca.  

Tendo recebido dos gregos tudo que fora acertado e duplicado sua fortuna saqueando os portos turcos no litoral da Ásia Menor, ele voltou ao seu país após muitos anos de ausência e foi surpreendido ao ver que se tornara uma “celebridade”. A única mídia existente na época era a imprensa e esta padecia da falta de notícias que despertassem o público da sua madorra, pois os anos que se seguiram à queda de Napoleão foram incrivelmente aborrecidos para o ávido leitor de jornais que está sempre atrás de notícias capazes de lhe despertar a imaginação e a emoção. Nesse ambiente abúlico, depois de serem coloridas por penas talentosas, “as aventuras de lord Cochrane em mares distantes”, lutando pela liberdade de países remotos dos quais poucos tinham ouvido falar, era um tônico para as mentes românticas, enervadas pela falta de novidades excitantes.

O seu pai falecera há alguns anos e ele tornara-se o 10º conde de Dundonald e lord Cochrane. Assim, logo que voltou à Inglaterra tomou posse da sua cadeira na Câmara dos Lords e foi à luta para obter o que se tornara o principal objetivo da sua vida: limpar o seu nome da infame condenação! Devido à sua popularidade e ao prestígio de que agora gozava nas altas esferas por seu papel no enfraquecimento dos impérios da Espanha, Portugal e Turquia, rivais do Império Britânico, a tarefa não lhe exigiu muito e em 1833 o rei anulou sua condenação, devolveu-lhe o título de cavaleiro e o reintegrou à marinha no posto de almirante. Só não lhe devolveu o mandato de deputado porque este há muito se extinguira e agora, como membro da Câmara dos Lords, ele não mais poderia exercer mandatos na Câmara dos Comuns. Mas foi plenamente reabilitado e o perdão real teve enorme repercussão militar, política e social. 

A marinha do Brasil homenageia Cochrane em seu túmulo na abadia de Westminster

Ele estava com quase 60 anos de idade, muito cansado após 40 anos de aventurosa e intensa atividade no mar, sem igual entre líderes navais de sua época ou de qualquer outra época, e decidiu parar. Daí por diante levou a vida de um grão-senhor, mantendo atividade social compatível e desempenhando apenas funções rotineiras na Royal Navy. Devido à sua avançada idade, esta o usava apenas como blefe quando precisava incutir respeito em algum país rival que estava pensando em adotar medidas que não eram do interesse da Inglaterra, e divulgava uma nota mais ou menos assim: “dados os recentes acontecimentos, o almirantado em sessão desta data considerou seriamente a possibilidade de mandar uma esquadra sob o comando do almirante lord Cochrane a fim de garantir os interesses do governo de sua majestade”. Quase sempre isso era considerado ameaça de duríssima guerra e o agora avisado atrevido retirava-se calmamente antes que o pior acontecesse e ele tivesse que enfrentar os métodos letais do feroz “lobo do mar”. Mas Cochrane, elevado a “bicho papão”, não voltou a comandar frotas nem navios, pois o almirantado decidira que ele era idoso para isso e muito mais útil seria aproveitar a sua imensa experiência e talento no próprio alto comando, onde sigilosamente ele formularia novas políticas e estratégias navais, que seriam repassadas aos oficiais mais novos e promissores.

Rico, famoso e respeitado, Cochrane tornou-se personagem de livros de aventuras avidamente consumidos pelo público e morreu aos 85 anos de idade durante uma cirurgia. Foi sepultado entre os heróis nacionais britânicos na abadia de Westminster, mas permanece na história como o único caso de herói que transcende as fronteiras de sua pátria para também ser herói não só de outros países, mas de outros países situados em continentes, mares e oceanos diferentes. Enfim: herói de vários mundos!        


                        

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Post nº 84

HELIOGÁBALO – O  ADOLESCENTE  SODOMITA
QUE  FOI  IMPERADOR  DE  ROMA  E  “ESPOSA”
DE  UM  ATLETA  DE  CIRCO

O imperador Heliogábalo vestia-se, depilava-se e pintava-se como mulher. Também adotava voz e trejeitos
femininos, exigindo que tratassem seu amante como seu "marido" e a si próprio como "imperatriz"
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Ao contrário do que muitos pensam a antiga Roma não era um antro de maldade e corrupção e nem todos os imperadores eram monstros perversos e devassos como Nero e Calígula. Na verdade estes foram exceção, pois a grande maioria foi de homens sérios e dedicados à causa pública, que trabalharam com zelo, competência e bravura pelo progresso e bem-estar do Império. Infelizmente as imagens que melhor se fixaram na memória popular foram as de uns poucos imperadores criminosos e depravados que anarquizaram a administração, quebraram o Estado e tornaram-se a vergonha do gênero humano. Entre estes um dos piores foi Heliogábalo, não tanto por seus crimes, mas por sua devassidão que chega a ser cômica.

Seu verdadeiro nome era Sextus Avitus Bassianus e pertencia a mais alta aristocracia romana, pois nasceu sobrinho do imperador Septimius Severus e primo do futuro imperador Caracala, mas sua riquíssima família tinha origem na Síria e ele próprio nascera na grande cidade síria de Emesa, hoje Homs, no final do ano de 203 DC. Ainda menino, o ouro dos seus pais o fez grande sacerdote do deus sol, venerado na cidade sob o nome de “El Agaballus”, mais tarde latinizado como Heliogabalus. Esta latinização rendeu ao seu jovem sacerdote o apelido que os romanos lhe deram ao tornar-se imperador.

A família de Heliogábalo era bilionária e a peso de ouro o fez ainda menino grande sacerdote
do deus sol da cidade de Emesa, na Síria, onde tinha seus domínios.

Em 217 DC o seu primo imperador Caracala foi assassinado e o general Macrinus tomou posse do trono. Uma das suas primeiras medidas foi mandar de volta à Síria a velha bilionária Julia Maesa, tia de Caracala e avó de Heliogábalo. Fria, astuta, decidida e cruel, fez Macrinus arrepender-se amargamente de não tê-la executado assim que chegara ao poder, pois com sacos de ouro fez a legião local aclamar novo imperador o seu neto adolescente Heliogábalo de apenas 14 anos de idade. Sempre usando o ouro como principal arma, ela comprou o apoio das demais legiões vindas para sufocar a rebelião e sem demora avançou sobre Roma. Isto fez Macrinus se por à frente de poderoso exército para esmagar os rebeldes, mas na batalha que se seguiu foi derrotado porque a astuta Júlia Maesa subornara suas tropas e estas o abandonaram no momento decisivo. Ele conseguiu escapar, mas foi preso e executado quando tentava chegar a Roma.

Ainda um adolescente, Heliogábalo viu-se senhor do mundo, podendo-se dizer sem ironia que foi a única vez na História que uma avó comprou um império para dá-lo de presente ao neto. Claro que o principal objetivo de Júlia Maesa não era presentear o neto, por mais querido que ele fosse, mas recuperar o poder que tivera nos reinados do seu cunhado Severus e do seu sobrinho Caracala. Julgou que isso ocorreria quando Heliogábalo trocasse a toga sacerdotal pela toga imperial, mas decepcionou-se ao ver que ele era ingovernável e pouco influiria no seu reinado, exatamente o que mais trabalho, perigo e ouro lhe custara.

Logo no início, desprezando os conselhos da avó e da mãe, ele trouxe de Emesa para Roma o deus estrangeiro de que era sacerdote e o entronizou no Panteon no lugar de Júpiter, dando-lhe proeminência sobre os deuses nacionais romanos. Isto chocou os conservadores, sobretudo porque o novo “rei dos deuses” não tinha forma humana, pois era um enorme meteoro negro caído na terra há milhões de anos. O povo também se mostrou descontente, mas ele o conquistou com farta comida e boa bebida distribuídas de graça nos freqüentes festivais que logo tratou de promover ao seu deus. Nestes festivais punha a enorme pedra coberta de jóias em cima de um carro puxado por cavalos brancos e desfilava em trajes riquíssimos sentado de costas em um trono elevado com o olhar fixo no deus. Para completar a maluquice, o suntuoso cortejo ia pelas ruas de Roma precedido por dezenas de escravos que polvilhavam o caminho com ouro em pó.

Na procissão do deus sol Heliogábalo fazia todo o percurso sentado de costas e com o olhar fixo em seu
deus enquanto escravos iam à frente dos cavalos polvilhando o caminho com ouro em pó

A absurda extravagância escandalizou os que ainda tinham alguma consciência porque só um louco jogaria ouro fora. Com razão, diziam que um imperador dotado de mínima sensatez o aplicaria em obras públicas, dando emprego à multidão de desocupados que vivia à custa da caridade do Tesouro e infestava Roma de miséria, crime e sujeira. Mas o povo e o exército, satisfeitos com a prodigalidade do adolescente enlouquecido pelo poder absoluto, não deram ouvidos às vozes sensatas e Heliogábalo desembestou em extravagâncias cada vez maiores, sobretudo de natureza sexual.

Assim que chegara a Roma, sua família lhe arranjara um casamento de interesse, mas em poucos meses se cansou da esposa e trocou-a por uma vestal por quem se apaixonara ao vê-la durante cerimônia religiosa. As vestais eram jovens das altas classes sociais munidas de deveres sacerdotais e obrigadas a conservarem-se virgens por 30 anos sob pena de morte. Elas só saiam de sua reclusão para renderem cultos aos deuses e foi num desses que Heliogábalo a viu e mandou trazê-la à força para o palácio, onde a desposou. O escândalo foi imenso e houve protestos em toda parte, inclusive no senado, onde acusações foram oficialmente feitas contra o sacrílego imperador, mas calaram após vários dos mais notórios acusadores serem presos e executados.

O sacrílego e devasso imperador de apenas 15 anos de idade repudia
publicamente a esposa para casar-se com a vestal que raptara

Em rápida sucessão, casou e descasou cinco vezes antes de completar 18 anos, mas tudo seria suportado pelo exército e pelo povo se ele tivesse dedicado um mínimo do seu tempo às suas obrigações militares e administrativas, limitando sua desenfreada devassidão apenas às mulheres. Mas não foi assim. Como se estivesse possuído por frenesi erótico, transferiu as obrigações do seu cargo a cortesões despreparados e corruptos, que cuidaram de enriquecer rapidamente enquanto o caos reinava, e dedicou-se de corpo e alma a todos os vícios e prazeres possíveis e imagináveis com escravos, soldados, gladiadores e toda espécie de homens da mais alta a mais baixa posição social. Para ter o máximo de parceiros em uma única noite, recrutou prostitutos nas ruas e instituiu campeonato onde o vencedor seria aquele que atraísse mais fregueses. Para o “jogo”, criou réplica de ruela da zona do meretrício em ala do palácio que dava para a via pública e cada um dos contendores ficava na entrada do seu quarto em vestes femininas provocantes, fazendo gestos obscenos, abanando a cortina e tocando o sininho das meretrizes para chamar a atenção dos passantes, como elas faziam. No fim da noite se apurava quantos fregueses cada um tivera e quanto ganhara, aclamando-se o vencedor e dando-lhe o prêmio combinado. Heliogábalo quase sempre ganhava, donde a suspeita de que seus agentes lhe traziam fregueses já previamente acertados.   

Como se apenas a prática desenfreada da sodomia não lhe bastasse, passou a vestir-se, depilar-se e pintar-se como mulher. Também passou a adotar voz e trejeitos femininos da forma mais escandalosa possível e a referir-se ao seu amante Hiérocles, o belo cocheiro louro de sua carruagem, como seu “imperador e marido”, exigindo aos demais que tratassem a si próprio como sua “imperatriz e esposa”. Por fim, fez público oferecimento de enorme soma ao médico hábil e talentoso que conseguisse lhe implantar órgãos sexuais femininos a fim de que melhor pudesse cumprir suas obrigações de “esposa” para com o seu adorado "marido" Hiérocles. Alguns historiadores dizem que a cirurgia foi tentada, mas dela resultou apenas a amputação dos seus órgãos masculinos, falhando na criação de um simulacro de vagina, porém é duvidoso que isso tenha realmente ocorrido. É possível que nos dias atuais Heliogábalo fosse visto apenas como “travesti” ou “transexual”, todavia os romanos eram menos sutis e passaram a vê-lo como aberração que precisava urgentemente ser amputada do corpo do império antes que o gangrenasse.

Ao mesmo tempo em que se entregava a luxuria mais louca, Heliogábalo exercia tirania brutal, ordenando não só a prisão e o exílio dos desafetos dos seus capangas, mas também a tortura e a execução dos que criticassem o seu desvairado comportamento, mesmo que fossem membros da mais alta aristocracia romana. Vários escaparam por serem amigos e protegidos de sua mãe ou da sua avó, mas a maioria tombou sob o seu cutelo e sinistro silêncio pairou sobre a cidade apavorada pela onda de terror, que não se detinha diante de nada e nada poupava. Nem mesmo as festas populares, que ele constantemente promovia em honra do deus sol, com distribuição de comidas e bebidas grátis, disfarçava o opressivo ambiente, mas ele não se importava e passava  os dias e as noites em frenéticos festins e bacanais, como se a vida se resumisse a uma permanente e alucinada orgia.

Heliogábalo passava quase todo tempo em frenéticos festins onde fazia cair do
teto chuvas de rosas sobre os convidados

As conspirações pululavam e somente o exército, a quem dava ótimas gratificações, o mantinha no poder, sobretudo porque a sodomia era comum entre as tropas e estas a aceitavam sem restrições se o sodomita fosse “macho”, cumprindo bem o seu dever na hora do combate. Todos os imperadores sob cujas ordens os militares tinham servido nos últimos 80 anos eram homens másculos e corajosos, mesmo quando outras virtudes lhes faltavam, mas agora viam com acerto que este não era o caso de Heliogábalo, efeminado ao extremo. Ademais, a tolerância dos militares com a sodomia cessava quando o sodomita deixava de ser “macho” e agia como “mulherzinha”, semeando o ridículo ao seu redor e fazendo os seus camaradas duvidarem da sua coragem e do seu valor combativo.

Comportamentos efeminados não eram tolerados pelo exército em nenhum soldado e muito menos em um imperador, por isso sua situação política se tornou dificílima após o seu público oferecimento de alta soma ao médico que lhe implantasse uma vagina. Com a irritação a flor da pele, os soldados se indagavam mutuamente sobre o que aconteceria caso tivessem que marchar para a guerra sob o comando de tal líder e começaram a conspirar. Porém, mesmo com a conspiração em andamento, o ouro que o ridículo monarca lhes dava em abundância os manteve quietos e nada aconteceria se não fosse por um dos mais inusitados fatos da história: Heliogábalo brigou com Hiérocles e para lhe fazer ciúme “casou” vestido de noiva em cerimônia pública com o seu camareiro e também amante, o atleta de circo Aurélio Zótico!

Através do seu bom serviço de informações, a velha bilionária Julia Maesa soube da conspiração e viu que após mais este escândalo o reinado do seu neto sodomita estava por um fio. Ela fora a única mulher na história do Império a ser eleita para o Senado logo que entrara triunfante em Roma com o neto recém proclamado imperador, mas ao contrário das suas expectativas ela pouco ou nada influíra no governo porque não havia sobre o que influir. Após passar as rédeas da administração para a sua desqualificada corja de infames bajuladores, Heliogábalo dedicou-se exclusivamente às maluquices religiosas e perversões eróticas, fazendo com que o governo imperial virasse ridícula ficção. A política desapareceu e os corruptos novos donos do poder, cientes de que o imperador queria distância da mãe e da avó, com as quais ficara furioso quando elas tentaram incutir-lhe alguma disciplina e responsabilidade, não deram às duas mulheres nenhuma atenção nem lhes permitiram intromissões nas suas atividades, dirigidas tão somente ao próprio enriquecimento. Assim, não sobrou nenhuma área onde a politiqueira Júlia Maesa pudesse influir. Ela ficou profundamente ofendida e indignada, passando a odiar o neto ingrato e a querer dele vingar-se, mas como não queria que o trono imperial saísse da posse da família no caso de queda do imperador reinante, fez sua filha Júlia Soêmia, mãe de Heliogábalo, conseguir dele, em nome dos interesses da família, nomear seu primo mais novo Alexandre Severo co-imperador e sucessor. Ele tinha apenas 13 anos e Heliogábalo mal o conhecia, por isso, ocupado com suas degradantes bacanais e fantásticos festins, não deu maior atenção ao caso e nomeou o primo por não ver nisso qualquer perigo, mas logo espiões o informaram de que ele agora tinha ao lado do trono não um menino tolo, incapaz de lhe fazer sombra, mas um jovem sério e decente, muito estimado e respeitado pelo povo e pelo exército.

Mergulhado em suntuosos festins e luxuosas bacanais, Heliogábalo custou a
perceber a armadilha que a sua implacável avó lhe preparava

Heliogábalo despertou do seu torpor orgiático e suspeitando que a implacável Júlia Maesa planejava vingar-se das ofensas sofridas, tirando-o do trono onde o pusera e substituindo-o pelo outro neto, mandou os seus vis capangas matarem o adolescente Alexandre, mas agindo com cuidado para não comprometê-lo. Porém a avó, já prevendo que isso poderia acontecer, o protegera com verdadeiro exército de guarda-costas e o atentado falhou. Desesperado com o fracasso, tirou a máscara e demitiu o primo, anulando todos os títulos e privilégios que lhe concedera. Isto tornou evidente ao povo e aos militares que ele invejava e odiava o querido príncipe, podendo matá-lo a qualquer momento. A astuta velha viu que o geral sentimento era favorável ao seu segundo neto e contra-atacou fazendo circular o boato de que o desprezível monarca o assassinara traiçoeiramente. O boato foi desmentido, mas o exército rebelou-se exigindo que o torpe imperador apresentasse às tropas Alexandre são e salvo para verem com seus próprios olhos que Heliogábalo ainda tinha um mínimo de dignidade e não estava mentindo.

Tudo indica que isso foi um estratagema de Julia Maesa para neutralizar a poderosa guarda imperial que a peso de ouro protegia o repulsivo tirano dia e noite, pois sua entrada no quartel não seria permitida e se entrasse seria cercada e desarmada pelos legionários, já devidamente subornados e instruídos. Assim, como previamente acertado, na manhã de 11 de março de 222 DC as comitivas de Heliogábalo e de Alexandre encontraram-se na entrada do quartel da legião e eles foram autorizados a entrar seguidos apenas de familiares e assessores, ficando de fora os guardas de ambos. Heliogábalo viera com a sua mãe e Alexandre estava não só com a sua mas também com a avó que planejara o Golpe.

No pátio fora montada uma tribuna em frente ao gabinete do general e os dois jovens nela subiram sozinhos para discursarem. Heliogábalo falou primeiro e o seu discurso foi ouvido do início ao fim em profundo silêncio, mas quando Alexandre começou a falar a soldadesca o aclamou delirantemente novo imperador, erguendo as lanças e com elas batendo nos seus escudos. Heliogábalo desceu da tribuna às pressas e trancou-se com sua mãe na anexa sala do comando onde solicitou proteção ao general, seu principal sustentáculo até pouco tempo atrás. Este estava tão envolvido no golpe quanto os outros oficiais, mas teve pena do jovem pervertido e disse-lhe que devido à fúria dos soldados o único modo dele sair vivo dali era dentro de um baú que seria levado para local de sua escolha. Depois fugiria para onde quisesse. Em meio aos festejos da aclamação de Alexandre, todos esqueceram o refugiado Heliogábalo e horas depois, quando o novo imperador já fora levado em triunfo para o palácio imperial, carroça transportando pesado baú e uma rica senhora envolta em véus saiu do quartel por uma porta lateral e rodou pelas ruas desertas, pois quase todos tinham ido ao centro da cidade festejar o início do novo reinado.

Heliogábalo tinha apenas 18 anos quando foi deposto e morto pelos soldados revoltados. Após
cortarem-lhe a cabeça, seu cadáver foi jogado no rio Tibre para ser comido pelos peixes
   
Heliogábalo teria escapado de fim tão sórdido quanto foi a sua vida se não fosse o acaso, pois a carroça topou com soldados bêbados que voltavam das festas e eles resolveram saquear o grande baú da “rica senhora”. Quando o abriram, viram com surpresa que lá estava todo encolhido e implorando piedade o outrora “senhor do mundo”. Os brutais soldados o espancaram cruelmente e quando Júlia Soêmia interveio, abraçando-se com o filho para defendê-lo, também a espancaram e mataram os dois a punhaladas, cortando-lhes as cabeças e espetando-as em lanças perante a multidão que se juntara para assistir o tétrico espetáculo. A turba depois arrastou o cadáver mutilado do decaído imperador pelas ruas até o rio Tibre onde foi jogado para ser comido pelos peixes, mas respeitou o cadáver da sua mãe. Heliogábalo viveu apenas 18 anos e reinou somente 4, mas foram os 4 anos de mais completa anarquia, surrealista loucura e frenética luxúria que o mundo já vira.

Parece que a morte cruel da filha e do neto não estava nos planos da dura Júlia Maesa e que o ardil para tirá-lo vivo do quartel fora previamente combinado entre ela e o general comandante, mas o acaso interveio e deu-se a tragédia. De qualquer modo, tenha ou não sido de sua autoria o fracassado plano de fuga, ela pôs de lado lágrimas e lamentações e tratou de concluir a sua obra, executando todos os amantes e capangas do neto ingrato que a tinham tratado com desdém, entre os quais os notórios sodomitas Hiérocles e Zótico, “marido” do caricato governante. Embora tendo de fazer algumas concessões à "nova ordem", entre as quais renunciar ao Senado onde sempre fora vedada a presença de mulheres, ela manobrou habilmente e voltou a ter mais poder do que jamais tivera antes. Com maestria, superou todos os obstáculos em seu caminho e, terminada a faxina, resolutamente dirigiu os primeiros passos de Alexandre na chefia do império, tornando-se o centro do poder, objetivo que não lograra atingir com Heliogábalo. Para sorte de Roma, seus interesses resumiam-se à micro-política, tipo troca de favores, distribuição de cargos, nomeações, demissões, promoções, remoções, obras públicas pedidas por compadres, e por aí vai. Após dar bons assessores a Alexandre, ela deixou nas mãos deles matérias complexas, como legislação, reforma do Estado, organização militar, estrutura provincial, finanças públicas e relações exteriores, para dedicar-se apenas à politiquice miúda de que tanto gostava e que exerceu até a sua morte alguns anos depois. Isto permitiu ao jovem imperador familiarizar-se com a alta política e cercar-se de ministros corretos e capazes que o ajudaram a reconstruir os abalados alicerces da sociedade e do império.

O virtuoso imperador Alexandre Severo orando e queimando incenso
diante do altar dos deuses


Simples, sério, culto e operoso, Alexandre Severo prezava a generosidade, a virtude e a justiça, mandando colocar no pórtico do palácio imperial o seguinte mandamento em letras bem visíveis: "Fazei aos outros aquilo que quiserdes que vos façam". Apesar de lhe faltarem qualidades de liderança e de não ter talento militar, ele era justo, leal e corajoso, por isso manteve a afeição do povo e o respeito do exército. Com exemplar honestidade e correta moderação, ele conseguiu dar aos romanos decente reinado de paz e prosperidade, em notável contraponto ao tirânico e infame reinado do seu primo Heliogábalo, o pior, o mais escandaloso e o mais imoral que Roma teve em toda a sua história.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Post 83

UTHER  -  "O  SENHOR  DOS  DRAGÕES"  TORNA-SE  DITADOR  DA  BRITANNIA


Dizia a lenda que em seu castelo nas montanhas de Cornwall o príncipe Uther criava e domava dragões


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Eis como o frade Gildasius Pisanensis relata em seu manuscrito medieval recentemente descoberto a ascensão de Uther a ditador da Britannia no século V DC.

Os britons foram apanhados de surpresa quando a muralha de Adriano foi atravessada e todo o norte do reino ocupado em menos de duas semanas pelos caledônios. Arthur contra-atacou em grave desvantagem, pois o adversário o superava em quase o dobro. O resultado é que embora não tivesse derrotas também não tinha vitórias e suas tropas sangraram durante todo o verão no que parecia ser um cruel empate. Porém os invasores vendo que não teriam nenhuma vitória resolveram se retirar, mas Arthur os perseguiu e foi gravemente ferido, sendo removido às pressas para a capital onde ficou entre a vida e a morte sob os cuidados médicos de Merlin durante todo o outono.

Uther veio com o irmão assim que soube do estado do filho e me indagou como fora possível o desastre, já que Arthur era um general brilhante e nunca sofrera derrotas. Eu lhe expliquei que a causa era simples: grave inferioridade numérica do exército para enfrentar um inimigo que agora agia com disciplina e inteligência.

Procurou saber as causas da inferioridade e eu lhe expliquei que além dos orientais há muito tempo terem deixado de se alistar, agora os ocidentais também não o faziam, seja por julgarem a profissão militar demasiado arriscada devido às matanças anteriores, seja porque os salários eram baixos e não atraiam ninguém. Uther, que estava acompanhado de Corciari, respondeu que o remédio seria dobrar os salários, mas eu lhe disse que não havia recursos para isso. Ele então me pediu para olhar as contas do tesouro e viu abismado que apesar do leste ser dez vezes mais rico que o oeste, contribuía apenas três vezes mais. Quis ver então os registros das contribuições dos cem senhores mais ricos do leste e constatou assombrado que enquanto eles eram em média cinco vezes mais ricos do que os senhores do oeste, estes pagavam o dobro. Expliquei-lhe que isto se devia ao fato do imposto ser cobrado em função da extensão das propriedades e não em função do seu valor ou da riqueza por elas geradas. Como as propriedades do oeste eram muito mais extensas, embora muito menos valiosas e produtivas devido à escassez de população e atraso econômico, gerava-se o descompasso. Uther ficou indignado porque julgava corretamente dever o imposto ser cobrado em função da riqueza, vez que os ricos eram os que mais gozavam da proteção dada pelo estado aos cidadãos. Sem ela suas riquezas nada valiam.

Enquanto examinava atentamente os registros com Corciari, ele me mandou chamar Kay para uma urgente reunião e o general veio ansioso para saber do que se tratava. Sendo homem do oeste ele também ficou indignado ao saber que seu pai, um médio proprietário, pagava tanto imposto quanto um riquíssimo senhor do leste e aí estava a razão da pobreza do reino e do exército.

No Oeste o poder de Uther era absoluto e todos lhe pagavam tributo, mas no Leste ele era desconhecido
e teve de agir com dureza para impor sua autoridade 

Uther expôs seu plano sob o olhar frio de Corciari, a expressão prazerosa de Kay e o terror do meu rosto. Dos cem contribuintes mais ricos do leste, cinqüenta e oito moravam na capital e todos foram presos ao amanhecer pelos soldados de Kay, levados a um vasto salão no palácio e obrigados a sentar em cadeiras enfileiradas em frente a uma mesa atrás da qual eu me sentava como se fosse presidir à assembléia. Enquanto eu ouvia calado o insulto dos orgulhosos proprietários furiosos com “a afronta”, duas dezenas de guardas de Uther entraram no salão e o chefe mandou se calarem; como não foi obedecido, bateu violentamente com o cabo da lança no rosto de um dos arrogantes falastrões jogando-o ao chão ensangüentado; depois lhe encostou a ponta da lança no peito e ordenou: “Agora se levante, sente-se e cale-se antes que eu o mate”! Foi o bastante para que a arrogância sumisse e o silêncio reinasse.

Às oito horas não faltava mais ninguém e Uther entrou solenemente no salão acompanhado de Kay e Corciari. Falou firme e polidamente, expondo a grave situação da ilha e a injustiça do sistema tributário vigorante: “Apesar dos senhores do leste serem em média cinco vezes mais ricos que os do oeste, pagam apenas a metade do que eles pagam; isto é intolerável e vai ser corrigido agora mesmo, não só para o presente e o futuro como para o passado, pois vocês terão que pagar o que por justiça deveriam ter pago antes. Como sou homem justo e bondoso, vou lhes cobrar só o devido nos últimos cinco anos sem juros e multas, lhes perdoando generosamente os débitos anteriores”!

Depois leu pausadamente a lista com os cem nomes e as importâncias que deveriam pagar. Quando acabou a leitura houve um momento de estupor e um dos presentes levantou-se e protestou indignado, dizendo que aquilo era um ultraje e não ficaria sem resposta. Quase imperceptivelmente Uther sacou do punhal e o atirou bem no coração do rebelde. O homem fez uma careta segurando o cabo da arma cravada no seu peito e caiu pesadamente no chão sob os olhares horrorizados dos demais. Friamente Uther ordenou que os guardas arrastassem o morto até ele, levantou sua cabeça pelos cabelos e a decepou com um só golpe de espada. Depois exibiu o sangrento troféu à platéia, e pondo-o num dos lados da mesa disse-me bem alto para que todos ouvissem: “Prepare um decreto confiscando os bens desse mau pagador de impostos”!

Eu sabia que na conformidade do plano que ele nos expusera no dia anterior um dos presentes morreria para dar o exemplo caso houvesse protestos, mas não disse que além de matá-lo também lhe cortaria a cabeça e a poria ao meu lado na mesa. Tentei disfarçar o meu pavor e tremedeira pegando um papel e fingindo escrever, pois não conseguia formar palavras coerentes, mas mantive a cabeça baixa com se estivesse cumprindo suas ordens enquanto ele dizia aos apatetados ouvintes: “Vocês têm até amanhã ao meio dia para pagarem os impostos exigidos; depois disso os que não pagarem serão executados e terão seus bens confiscados. O secretário Gildásio lhes fornecerá papel e tinta para escreverem aos seus familiares e administradores ordenando-lhes trazerem o dinheiro devido. Logo que pagarem ficarão livres para voltarem em paz às suas casas. Tenham um bom dia”!

Em seguida ordenou aos guardas que entregassem o corpo do falecido aos familiares, mas determinou que a cabeça dele ficaria ao meu lado na mesa até que todos pagassem ou fossem também executados. Em seguida retirou-se com Kay e Corciari, deixando-me sozinho na companhia dos guardas, dos “contribuintes” e da cabeça do arrogante proprietário. Quando a noite caiu quatro quintos dos presentes já tinham pago o que deviam e voltado às suas casas, mas os onze restantes tiveram dificuldades para levantar a soma em moeda sonante e dormiram no assoalho do tétrico salão em companhia da horrenda cabeça que os contemplava.

Passei uma noite horrível, mas voltei ao amanhecer e por volta das onze horas o último dos aflitos “contribuintes” pagou seu débito e foi liberado. Uther conferiu comigo e Corciari a vasta soma obtida e depois mandou fincar a cabeça do morto em estaca na praça central com uma tabuleta onde se lia: “Este é um homem rico que não quis pagar impostos”!

Com Arthur impossibilitado de governar pelos graves ferimentos sofridos em batalha, Uther assumiu
o poder como ditador e restaurou a ordem na Britannia

Logo após a reunião do dia anterior ele tomara uma série de medidas. A primeira fora chamar o bispo e lhe ordenar que tocasse os sinos convocando o povo para missas em ação de graças pela morte no nascedouro de uma “conspiração” de ricos aristocratas que não queriam pagar os impostos que deviam à coroa. Na mesma ocasião determinou que fosse lida do púlpito uma declaração sua dizendo que após sufocar a “rebelião” assumira o governo e nele permaneceria até que tudo se normalizasse e o rei reassumisse. Dizia também que a antiga política de jogar a quase totalidade dos tributos nas costas do povo através do expediente de embuti-los nos preços das mercadorias seria radicalmente mudada: a partir de agora tais impostos seriam cortados pela metade e os ricos teriam que pagar dez vezes mais do que pagavam antes, já que eles eram os principais beneficiários da proteção que o estado e o exército davam às suas propriedades. Concluía dizendo que o tempo dos absurdos privilégios tinha acabado e doravante o rei governaria diretamente com o povo sem a intermediação de aristocratas estúpidos e gananciosos.

O bispo quis recusar por ser ligadíssimo aos nobres locais, mas Uther lhe indagou se ele preferia ver igrejas incendiadas e cristãos martirizados pelos bárbaros pagãos que ameaçavam o reino por todos os lados e o bom sacerdote viu que ele tinha razão, pois as perspectivas não eram nada animadoras. Por isso fez tudo que lhe foi ordenado e os sinos repicaram enquanto eloqüentes sermões eram feitos em apoio do governo e das justas medidas adotadas para sufocar a “rebelião”. Pode parecer estranho a um homem culto dotado de sensibilidade, mas o fato é que o povo ao invés de ficar apavorado com as façanhas do Senhor dos Dragões as comemorou cantando e dançando nas ruas, sobretudo na praça central onde estava a cabeça do nobre recalcitrante fincada em uma estaca.

O povo sempre se regozija com a desgraça dos ricos e poderosos.

Uther governou dois meses e meio como ditador e além de recuperar as finanças e dobrar os salários do exército fez também importantes modificações administrativas. Embora tenha me conservado como segundo homem do governo tirou da minha órbita o fisco e o serviço secreto, pondo-os aos cuidados de Corciari, que passou a trabalhar ao meu lado com o título de censor do reino.

Quando Arthur reassumiu, o governo estava em ordem, o exército aumentava seus efetivos, a ilha prosperava, o povo estava satisfeito e O Senhor dos Dragões era o homem mais popular da Britannia.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Post nº 82

AS  GRANDES  POETISAS  GREGAS  DA  ANTIGUIDADE

Safo ouve embevecida o poeta Alceu dando recital na Academia Poética só para mulheres que ela
fundou em Lesbos. Homens só entravam quando especialmente convidados


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Uma das características mais extraordinárias do “Milagre Grego” foi o relevante papel dado às mulheres nas atividades culturais da sociedade. Isto é tanto mais surpreendente quando sabemos que as sociedades orientais nunca lhes permitiram participar de sua vida cultural e ainda hoje algumas delas sequer lhes permitem acesso à educação. Desse absurdo não escapou a nossa moderna sociedade até tempos bastante recentes e embora sempre lhes tenhamos permitido acesso à educação primária e média, os portões das universidades para elas ficaram fechados até o século XIX, quando só então algumas escolas superiores na Suíça e nos Estados Unidos timidamente começaram a admiti-las. Mas foi só no século XX que a admissão se tornou geral e as mulheres voltaram a ter na sociedade a mesma atuação intelectual que tiveram há 2.500 anos na Grécia antiga.

Esta se dava em todos os campos do intelecto, mas foi na literatura que ela atingiu o seu ponto mais alto, dando-nos poetisas que até hoje nos maravilham com a alta qualidade dos seus poemas. Infelizmente nenhum deles nos chegou completo e tudo que temos são fragmentos, mas, reforçados por citações de autores da época, eles nos dão boa ideia do alto valor literário da obra das poetisas gregas. Não temos versos de todas elas e nem mesmo sabemos quantas foram, mas entre os poemas da época feitos por homens para homenageá-las está o elegante epigrama de Antípater da Tessália:

“A estas donzelas de falar divino nutriam de cantos Helicon e Pieria, rocha macedônia: Praxila, Miro e Anita iguais a Homero; Safo, honra da Lésbia, de cabelos longos; Erina e a nobre Telesila, e tu, Corina, que ousaste cantar a égide de Palas; e Nossis, de voz feminina, e Mírtis de suave voz, todas criadoras de carmes imortais. As nove musas são filhas de vasto céu; filhas da terra são estas nove, para eterno júbilo dos homens.”

O autor enumera só nove poetisas, chamando-as de musas terrenas, para igualar seu número ao das nove musas celestes, mas sabemos que houve outras, entre as quais Damófila, Megalóstrata, Clitágoras e Femaon. Desta última sabemos apenas que viveu na época de Safo, foi sacerdotisa de Apolo e inventou o verso hexâmetro, adotado pelos poetas gregos Eumolpo, Orfeu e Lino e usado até hoje por poetas de vários matizes, sobretudo os populares, por ser talhado para a poesia oral através da qual era feita a profecia. Os oráculos, portanto, eram apresentados aos consulentes em versos e a sacerdotisa Femaon ficou famosa ao fazê-lo no verso hexâmetro por ela inventado que encantava a vasta audiência presente às cerimônias divinatórias. Das outras poetisas não sabemos quase nada e do pouco que sabemos é impossível distinguir o verdadeiro do lendário.

Para o esquecimento da obra das poetisas gregas foi decisivo o advento do Cristianismo porque todos os textos religiosos e filosóficos importantes eram escritos no dialeto ático de Atenas. Esta não fornecia poetisas e todas elas eram de outras regiões da Grécia onde predominavam os dialetos eólico e dórico nos quais escreviam. Ambos são difíceis e aos poucos tornaram-se pouco lidos, fazendo com que os copistas fossem parando de reproduzi-los a partir do século IV DC. A falta de reprodução fez com que as obras em eólico e dórico desparecessem lentamente das bibliotecas por desastres ocasionais e ação do tempo. Para completar, no século XI DC a Igreja promoveu uma "caça às bruxas" e as obras de Safo foram banidas das bibliotecas e queimadas em público por serem "imorais". O resultado de tantas adversidades foi que poucas das suas obras, assim como das demais poetisas gregas, chegaram até nós. Porém o atual aprofundamento das pesquisas tem descoberto muitas raridades e recentemente surgiram seis poemas de Safo quase completos. Graças a isso hoje podemos dizer que ela era de fato genial, assim como também devem ter sido as suas colegas famosas cujas obras ainda permanecem desaparecidas. Passemos uma rápida vista d'olhos sobre algumas grandes poetisas gregas a começar por Safo, a mais famosa de todas. 

Safo


Safo e uma amiga no jardim da sua Academia Poética em Lesbos. O fato da academia ser exclusiva
para mulheres originou no puritano século XIX o mito da sua homossexualidade

Safo viveu no final do século VII AC e dela temos o maior número de fragmentos apesar de ser a mais antiga. São cerca de 200 e sabemos que era uma rica aristocrata da cidade de Mitilene na ilha de Lesbos, foi casada com o nobre Cercila e teve uma filha chamada Cleide. Alguns a descrevem como de boa estatura, belas feições e cabelos violeta e outros como baixinha, feições comuns e cabelos negros. As esculturas e pinturas de vasos do século V que chegaram até nós, feitas não muito depois da sua morte e que devem ter se baseado em imagens suas mais antigas, ainda existentes na época, adotam a primeira descrição, donde concluirmos que deve ser a mais fiel, pois uma mulher não poderia despertar as paixões que despertou se não possuísse beleza física e uma voz bonita e sedutora, condições básicas para a celebridade numa sociedade fortemente auditiva e visual como a grega, onde predominavam altíssimos padrões estéticos. Sabe-se que ela criou uma Academia em seu palácio para reunir as poetisas de Lesbos e de regiões próximas, onde homens só entravam raramente, como era o caso do seu amigo o poeta Alceu, de quem se diz ter sido amante e que era às vezes convidado para fazer palestras, recitar poemas e porfiar ao som da lira com Safo e outras poetisas da seleta audiência. Isto criou a infundada crença na Europa do século XIX de que ela fora uma educadora que possuía ou dirigia um colégio para moças, atividade feminina altamente aceitável e muito bem adequada aos puritanos padrões da Inglaterra vitoriana.

Safo antes de se suicidar abraçando a sua lira no alto de um rochedo
sobre o mar em sua ilha natal de Lesbos

Parece que foi o fato da sua Academia admitir somente mulheres e nela ser rara a presença de homens, o que deu origem ao mito da sua bissexualidade. O inusitado para os padrões gregos de uma academia literária exclusivamente feminina, acrescida de dubiedades em seus versos achadas pelos lexicógrafos e exegetas do século XIX, despertou suspeita e originou o mito da sua perversão sexual. Na puritana Europa Vitoriana o mito logo se tornou verdade e adotou-se Lesbos, terra natal de Safo, como base semântica para a criação dos termos lésbica e lesbianismo, com os quais se passou a designar a homossexualidade feminina. Dizemos mito porque nenhum autor antigo conhecido refere-se ao assunto, porém isso talvez se deva ao fato do homossexualismo entre os gregos ser comum e não haver maiores razões para mencioná-lo no caso de Safo ou de qualquer outra pessoa, célebre ou não. De qualquer modo, diz a lenda que a grande poetisa amou apaixonadamente vários homens, tendo o último, o barqueiro Faon, causado-lhe a morte ao abandoná-la quando já era mulher madura. Deprimida com o desprezo do amante, ela teria se suicidado jogando-se ao mar do alto de um rochedo em sua ilha natal.

Safo, reprodução romana de escultura grega do século 5º AC. Esta é talvez
a imagem mais fiel e autêntica que temos da grande poetisa

Há também a versão de que ela morreu idosa de morte natural e para isso alguns baseiam-se em fragmento de poema onde a poetisa lamenta a velhice que traz rugas, branqueia os cabelos e torna difícil amar, porém há sérias indicações de que se trata apenas de uma antecipação do que lhe acontecerá no futuro ao ver o surgimento dos primeiros cabelos brancos, coisa que em muitos ocorre na casa dos trinta anos, e não de um lamento pelo estado em que já se encontra. Entre as duas versões, preferimos a primeira, pois está muito mais de acordo com o caráter apaixonado de Safo, capaz de todas as loucuras por amor.   

Cercada por suas discípulas em pé, Safo sentada lê seus poemas para elas - Vaso grego do século 5º AC 

Seja pelo seu fim trágico, bem ao gosto dos gregos da época, seja por sua beleza física ou pelo notável valor da sua obra, Safo virou tema de peças teatrais dramáticas e cômicas de vários autores, dentre eles destacando-se os poetas cômicos Difilo de Sínope, Antífenes de Rodes e Tímocles de Atenas. Em seguida vieram os epicuristas promovendo-a a membro do seu grupo através de narrativas sobre o prazer onde ela é o personagem central 300 anos após a sua morte. Os epicuristas, portanto, foram os principais responsáveis pela ligação do nome de Safo a temas escandalosos, como é o caso da sua exacerbada bissexualidade.

Mas eles talvez não tenham exagerado e sido fiéis à verdade, pois nos séculos III e II AC, época do fastígio da Escola Epicurista, a grande fama de Safo continuava viva e a sua popularíssima obra certamente ainda estava completa, nada mais fazendo os epicuristas do que constatar o seu alto grau de paixão e erotismo, bem de acordo com uma filosofia que punha o prazer material e espiritual acima de tudo. Caso tenha sido assim, divulgar a obra de Safo por todos os meios ao seu alcance teria sido apenas a atitude correta a adotar do seu ponto de vista literário e filosófico.      

Corina

Detalhe de estátua de Corina destacando seu belo rosto

Depois de Safo, a poetisa grega mais conhecida pelo valor literário dos seus versos é Corina, filha do aristocrático casal Apolodoro e Procrácia. Ela nasceu e viveu no final do século VI AC em Tanagra, que lhe ergueu bela estátua para homenageá-la pelos “invejados ramos sobre as negras tranças”, referindo-se às coroas de louros por ela ganhas em cinco Olimpíadas poéticas nas quais derrotou o grande poeta Píndaro, seu rival e colega na Academia da poetisa Mírtis, da qual só sabemos que nasceu em Antédon na Beócia.

Píndaro foi um dos maiores poetas da antiguidade e por isso alguns dizem que ele só foi
derrotado por Corina porque a grande beleza dela influenciava os juízes

Píndaro era brigão e mau perdedor, tendo insultado Corina chamando-a de “porca” após uma de suas derrotas, mas esta não lhe deu resposta e até censurou Mirtes por fazê-lo nesta ou em outra ocasião, como diz em um dos seus fragmentos: “Eu censuro a harmoniosa Mirtes, e censuro por, mulher que era, ter entrado em disputa com Píndaro”. Para a gentil Corina não era apropriado a uma dama brigar com homens nem baixar o nível de competições poéticas ao nível de disputas pessoais. Todavia, dado a alta qualidade da poesia de Píndaro, é possível que os poetas Eliano e Pausânias estejam certos ao afirmar que, pelo menos nessa ocasião específica, os juízes deram a vitória a Corina porque foram influenciados pela sua grande beleza, acrescentando Pausânias que para a sua vitória também foi importante Corina compor no dialeto eólio, o mesmo dos juízes, enquanto Píndaro o fazia no dialeto dórico.

Estátua de Corina. Ela foi a mais vitoriosa das poetisas gregas, pois derrotou
em cinco Olimpíadas Poéticas seguidas o grande poeta Píndaro

Particularidade única de Corina foi não ter se limitado à poesia lírica como as demais poetisas gregas e feito também poesia épica, gênero próprio dos homens, onde celebra deuses e heróis conforme nos informa a lista das suas obras elaborada pelo gramático Fabrício no volume II da Biblioteca Graeca. Infelizmente, nem mesmo um fragmento dos seus poemas épicos chegou até nós, sendo-nos impossível aquilatar o seu valor.

Anita

Anita era de Tegéia, onde nasceu no final do século IV AC, mas passou parte da sua vida adulta em Epidauro como Chresmopoios do templo de Esculápio, espécie de secretária encarregada de por em versos as respostas do deus aos consulentes. Pelo visto, a sacerdotisa do oráculo não tinha o mesmo talento de Femaon, que como sacerdotisa de Apolo já dava as respostas em versos hexâmetros diretamente do seu altar. Anita não podia fazer o mesmo, pois trabalhava nos bastidores e não aparecia para o público, por isso teve que buscar reconhecimento para sua obra poética através dos livros que publicou e dos concursos de que participou.

Estátua de Esculápio deus da medicina em seu templo de Epidauro
onde Anita era encarregada de por em versos suas respostas

Fica a pergunta, “por que não foi Anita promovida a oráculo?”, pois segundo Pausânias ela possuía faculdades especiais e íntimas comunicações com o deus. Talvez tenha tido sérios desentendimento com seus superiores e em represália estes lhe negaram o cargo a que seu talento a credenciava. Porém ela mantinha contacto pessoal com os consulentes quando lhes entregava e explicava em privado as respostas versificadas. Graças às suas "faculdades especiais" é possível que ao dar aos consulentes as respostas do deus em versos o contato pessoal com eles tenha lhe possibilitado exercer essas "faculdades" e identificar as doenças, prescrevendo o apropriado tratamento e obtendo curas "milagrosas". Os doentes devem ter percebido que sua cura se devia tanto à minuciosa e dedicada atenção por eles recebida do "chresmopoios"  quanto aos poderes do deus, ficando muito gratos a Anita. Em consequência, ela fez amizades que lhe propiciaram régios presentes, permitindo-lhe obter independência econômica e demitir-se do templo para dedicar-se exclusivamente às musas. Infelizmente sua obra sumiu na poeira do tempo, deixando para trás apenas alguns fragmentos pelos quais nos é possível dizer que ela pertencia à Escola Árcade, conforme estes dois belos epigramas:

      “Forasteiro, senta-te nesta pedra para dar descanso aos teus doridos membros. Em cima de ti através das folhas sopra um suave vento. Bebe a água desta fonte límpida que jorra do rochedo, pois aqui no calor do dia é doce o repouso do viajante.”
      “Rústico Pã, é para mim, sentado na densa floresta por onde vagueiam as ovelhas, que tocas docemente a flauta a fim de que, ao pé destes declives úmidos de orvalho, as minhas jovens reses se apascentem da relva deliciosa?”

Erina

Nada sabemos da vida pessoal ou pública de Erina e nem ao menos onde nasceu e viveu, embora a mistura dos dialetos eólio e dórico por ela usado indique que era oriunda das mesmas regiões poéticas da antiga Grécia de onde vieram as demais grandes poetisas. Dela recebemos bom número de versos, inclusive uma epopeia feminina completa em mais de trezentas linhas intitulada A Roca. O poema é alegórico e tem como tema homenagear a memória do seu íntimo amigo de infância Baucis falecido antes dela. No belo poema aborda a vida da família no recesso do lar doméstico e a vemos sentada, virgem ainda, tendo nas mãos a roca e o fuso, tecendo os fios da vida que sempre se emaranham para tornar infelizes os seres humanos, os quais, tal como ela na roca, tentam em vão recolocá-los em ordem. O drama para desfazer os nós dos fios emaranhados se passa sob os olhos vigilantes e a severa autoridade de sua mãe temida, o que nos faz concluir que ela era de família austera e muito rica, pois não exercendo atividade externa e não tendo vida pública, pois a isso não permitiu a brevidade de sua vida, logrou publicar vasta obra no curtíssimo período de sua existência. Isto diz muito da fortuna do autor porque publicar 20 ou 30 exemplares de um livro na antiguidade era caríssimo, limitando tal façanha apenas às pessoas ricas ou com protetores ricos. Quanto à brevidade da sua vida, o sabemos através de poema da época composto em sua homenagem, talvez por poeta contratado e pago pela família, onde se diz que ela morreu virgem aos 19 anos vítima de mal súbito que a fulminou quando colhia flores no jardim.

Erina viveu na época helenista (séculos 4º a 1º  AC), quando o centro cultural da Grécia mudou de Atenas
para Alexandria, onde a sua grande biblioteca atraía intelectuais de todo o mundo conhecido

Apesar de muito jovem, Erina foi uma das mais populares poetisas do seu tempo e pelo estilo dos seus versos pode-se afirmar que viveu na época de hegemonia cultural de Alexandria, ocorrido depois da morte de Alexandre Magno em 322 AC. Assim, Erina deve ter vivido no século III ou no século II AC, não se podendo excluir a hipótese de ter sido no final deste último ou no início do seguinte, quando a expansão de Roma era avassaladora e estava prestes a devorar a Grécia. Para reforçar a tese de período mais recente existe uma Ode sua intitulada Eis Romen, podendo a última palavra significar “Força” ou “Roma”, dependendo do contexto, e no contexto do poema o significado é “Roma”. Há, portanto, um período de aproximadamente 150 anos dentro do qual poderá ter transcorrido a sua breve e profícua existência.

Telesila

Telesila nasceu e viveu em Argos no século VI AC e pertencia à alta nobreza, mas só tornou-se poetisa quando procurou um oráculo para tratar-se de males que a atormentavam e este respondeu, "dedica-te às Musas". Ela seguiu o conselho e seus versos logo a fizeram famosa a ponto de tornar-se a poetisa mais popular e conhecida da Grécia depois de Safo. Porém forçoso é dizer que isto não ocorreu somente por causa da sua poesia, que embora excelente não era superior a de suas colegas, mas por causa de notável feito militar, tão extraordinário que apenas alguns séculos depois apareceram autores dizendo tratar-se apenas de uma lenda, já que Heródoto, nascido pouco tempo depois e considerado o fundador da ciência da História, não o menciona em suas obras.

O fato teria se passado assim: Argos, cidade natal de Telesila, estava em guerra com Esparta cujo exército avançou disposto a obter uma vitória rápida. Os argivos o enfrentaram e foram postos em fuga pela superioridade do inimigo, que vitorioso intimou a cidade indefesa a render-se. Face à fuga do seu exército e não tendo como resistir, os idosos senadores aceitaram os termos da rendição e mandaram abrir os portões para que os espartanos entrassem, mas do meio da multidão Telesila ergueu-se e subiu à tribuna para discursar eloqüentemente protestando contra a covardia dos homens fujões e incitando suas irmãs de sexo a assumirem o lugar deles para lutarem até o fim. Não se sabe o que fez a multidão apoiá-la naquela situação desesperada, mas cheias de entusiasmo as mulheres tomaram o arsenal, vestiram as armaduras masculinas e armaram-se até os dentes, indo depois para o alto das muralhas esperarem o inimigo. Os espartanos quando souberam do ocorrido riram incrédulos, mas decidiram atacar e resolver o assunto definitivamente, pois estavam certos de que elas fugiriam tão logo ouvissem o seu apavorante grito de guerra. Isto não aconteceu e alguns dizem que o primeiro ataque foi rechaçado com grandes perdas, obrigando-os a refletirem melhor, mas outros dizem que não chegaram a atacar por achar desonroso a um guerreiro lutar contra mulheres, e mais desonroso ainda matá-las em combate. Fato é que ao verem as comandadas de Telesila não desertarem dos seus postos e aguardarem calmamente o ataque, prontas para o combate, os espartanos contentaram-se com sua honrosa vitória no campo de batalha e desistiram de tomar a cidade. Em conseqüência, fizeram meia-volta e regressaram a Esparta.

Marte, o deus da guerra. Somente homens podiam participar
do seu culto, mas em Argos abriu-se uma exceção

A narrativa do extraordinário feito heróico percorreu a Grécia e Telesila subiu aos píncaros da glória. Cerca de 500 anos depois quando visitou Argos, o historiador Pausânias ainda viu em uma coluna fronteira ao Templo de Vênus a estátua erguida em sua honra, que ele assim descreve: “aos seus pés alguns livros, na mão um capacete que ela olha como se estivesse prestes a pô-lo na cabeça”.

Em memória da valente poetisa ainda celebrava-se na época uma festa chamada ybristica, à qual as mulheres iam vestidas de homem e os homens vestidos de mulher. Fato inusitado, Argos era a única cidade da Grécia onde as mulheres podiam participar do culto a Marte, deus da guerra. Sobre sua obra poética tudo que pode ser dito é que os antigos a consideravam no mesmo nível de Safo e Corina, mas nada podemos afirmar porque tudo que dela nos chegou foram apenas dois versos, insuficientes para qualquer juízo de valor. O tempo destrói não só as pessoas, mas as suas obras por mais belas e valiosas que sejam.

Sic Transit Gloria Mundi