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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Post 83

UTHER  -  "O  SENHOR  DOS  DRAGÕES"  TORNA-SE  DITADOR  DA  BRITANNIA


Dizia a lenda que em seu castelo nas montanhas de Cornwall o príncipe Uther criava e domava dragões


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Eis como o frade Gildasius Pisanensis relata em seu manuscrito medieval recentemente descoberto a ascensão de Uther a ditador da Britannia no século V DC.

Os britons foram apanhados de surpresa quando a muralha de Adriano foi atravessada e todo o norte do reino ocupado em menos de duas semanas pelos caledônios. Arthur contra-atacou em grave desvantagem, pois o adversário o superava em quase o dobro. O resultado é que embora não tivesse derrotas também não tinha vitórias e suas tropas sangraram durante todo o verão no que parecia ser um cruel empate. Porém os invasores vendo que não teriam nenhuma vitória resolveram se retirar, mas Arthur os perseguiu e foi gravemente ferido, sendo removido às pressas para a capital onde ficou entre a vida e a morte sob os cuidados médicos de Merlin durante todo o outono.

Uther veio com o irmão assim que soube do estado do filho e me indagou como fora possível o desastre, já que Arthur era um general brilhante e nunca sofrera derrotas. Eu lhe expliquei que a causa era simples: grave inferioridade numérica do exército para enfrentar um inimigo que agora agia com disciplina e inteligência.

Procurou saber as causas da inferioridade e eu lhe expliquei que além dos orientais há muito tempo terem deixado de se alistar, agora os ocidentais também não o faziam, seja por julgarem a profissão militar demasiado arriscada devido às matanças anteriores, seja porque os salários eram baixos e não atraiam ninguém. Uther, que estava acompanhado de Corciari, respondeu que o remédio seria dobrar os salários, mas eu lhe disse que não havia recursos para isso. Ele então me pediu para olhar as contas do tesouro e viu abismado que apesar do leste ser dez vezes mais rico que o oeste, contribuía apenas três vezes mais. Quis ver então os registros das contribuições dos cem senhores mais ricos do leste e constatou assombrado que enquanto eles eram em média cinco vezes mais ricos do que os senhores do oeste, estes pagavam o dobro. Expliquei-lhe que isto se devia ao fato do imposto ser cobrado em função da extensão das propriedades e não em função do seu valor ou da riqueza por elas geradas. Como as propriedades do oeste eram muito mais extensas, embora muito menos valiosas e produtivas devido à escassez de população e atraso econômico, gerava-se o descompasso. Uther ficou indignado porque julgava corretamente dever o imposto ser cobrado em função da riqueza, vez que os ricos eram os que mais gozavam da proteção dada pelo estado aos cidadãos. Sem ela suas riquezas nada valiam.

Enquanto examinava atentamente os registros com Corciari, ele me mandou chamar Kay para uma urgente reunião e o general veio ansioso para saber do que se tratava. Sendo homem do oeste ele também ficou indignado ao saber que seu pai, um médio proprietário, pagava tanto imposto quanto um riquíssimo senhor do leste e aí estava a razão da pobreza do reino e do exército.

No Oeste o poder de Uther era absoluto e todos lhe pagavam tributo, mas no Leste ele era desconhecido
e teve de agir com dureza para impor sua autoridade 

Uther expôs seu plano sob o olhar frio de Corciari, a expressão prazerosa de Kay e o terror do meu rosto. Dos cem contribuintes mais ricos do leste, cinqüenta e oito moravam na capital e todos foram presos ao amanhecer pelos soldados de Kay, levados a um vasto salão no palácio e obrigados a sentar em cadeiras enfileiradas em frente a uma mesa atrás da qual eu me sentava como se fosse presidir à assembléia. Enquanto eu ouvia calado o insulto dos orgulhosos proprietários furiosos com “a afronta”, duas dezenas de guardas de Uther entraram no salão e o chefe mandou se calarem; como não foi obedecido, bateu violentamente com o cabo da lança no rosto de um dos arrogantes falastrões jogando-o ao chão ensangüentado; depois lhe encostou a ponta da lança no peito e ordenou: “Agora se levante, sente-se e cale-se antes que eu o mate”! Foi o bastante para que a arrogância sumisse e o silêncio reinasse.

Às oito horas não faltava mais ninguém e Uther entrou solenemente no salão acompanhado de Kay e Corciari. Falou firme e polidamente, expondo a grave situação da ilha e a injustiça do sistema tributário vigorante: “Apesar dos senhores do leste serem em média cinco vezes mais ricos que os do oeste, pagam apenas a metade do que eles pagam; isto é intolerável e vai ser corrigido agora mesmo, não só para o presente e o futuro como para o passado, pois vocês terão que pagar o que por justiça deveriam ter pago antes. Como sou homem justo e bondoso, vou lhes cobrar só o devido nos últimos cinco anos sem juros e multas, lhes perdoando generosamente os débitos anteriores”!

Depois leu pausadamente a lista com os cem nomes e as importâncias que deveriam pagar. Quando acabou a leitura houve um momento de estupor e um dos presentes levantou-se e protestou indignado, dizendo que aquilo era um ultraje e não ficaria sem resposta. Quase imperceptivelmente Uther sacou do punhal e o atirou bem no coração do rebelde. O homem fez uma careta segurando o cabo da arma cravada no seu peito e caiu pesadamente no chão sob os olhares horrorizados dos demais. Friamente Uther ordenou que os guardas arrastassem o morto até ele, levantou sua cabeça pelos cabelos e a decepou com um só golpe de espada. Depois exibiu o sangrento troféu à platéia, e pondo-o num dos lados da mesa disse-me bem alto para que todos ouvissem: “Prepare um decreto confiscando os bens desse mau pagador de impostos”!

Eu sabia que na conformidade do plano que ele nos expusera no dia anterior um dos presentes morreria para dar o exemplo caso houvesse protestos, mas não disse que além de matá-lo também lhe cortaria a cabeça e a poria ao meu lado na mesa. Tentei disfarçar o meu pavor e tremedeira pegando um papel e fingindo escrever, pois não conseguia formar palavras coerentes, mas mantive a cabeça baixa com se estivesse cumprindo suas ordens enquanto ele dizia aos apatetados ouvintes: “Vocês têm até amanhã ao meio dia para pagarem os impostos exigidos; depois disso os que não pagarem serão executados e terão seus bens confiscados. O secretário Gildásio lhes fornecerá papel e tinta para escreverem aos seus familiares e administradores ordenando-lhes trazerem o dinheiro devido. Logo que pagarem ficarão livres para voltarem em paz às suas casas. Tenham um bom dia”!

Em seguida ordenou aos guardas que entregassem o corpo do falecido aos familiares, mas determinou que a cabeça dele ficaria ao meu lado na mesa até que todos pagassem ou fossem também executados. Em seguida retirou-se com Kay e Corciari, deixando-me sozinho na companhia dos guardas, dos “contribuintes” e da cabeça do arrogante proprietário. Quando a noite caiu quatro quintos dos presentes já tinham pago o que deviam e voltado às suas casas, mas os onze restantes tiveram dificuldades para levantar a soma em moeda sonante e dormiram no assoalho do tétrico salão em companhia da horrenda cabeça que os contemplava.

Passei uma noite horrível, mas voltei ao amanhecer e por volta das onze horas o último dos aflitos “contribuintes” pagou seu débito e foi liberado. Uther conferiu comigo e Corciari o vasto montante arrecadado e depois mandou fincar a cabeça do morto em uma estaca na praça central com uma tabuleta onde se lia: “Este é um homem rico que não quis pagar impostos”!

Com Arthur impossibilitado de governar pelos graves ferimentos sofridos em batalha, Uther assumiu
o poder como ditador e restaurou a ordem na Britannia

Logo após a reunião do dia anterior ele tomara uma série de medidas. A primeira fora chamar o bispo e lhe ordenar que tocasse os sinos convocando o povo para missas em ação de graças pela morte no nascedouro de uma “conspiração” de ricos aristocratas que não queriam pagar os impostos que deviam à coroa. Na mesma ocasião determinou que fosse lida do púlpito uma declaração sua dizendo que após sufocar a “rebelião” assumira o governo e nele permaneceria até que tudo se normalizasse e o rei reassumisse. Dizia também que a antiga política de jogar a quase totalidade dos tributos nas costas do povo através do expediente de embuti-los nos preços das mercadorias seria radicalmente mudada: a partir de agora tais impostos seriam cortados pela metade e os ricos teriam que pagar dez vezes mais do que pagavam antes, já que eles eram os principais beneficiários da proteção que o estado e o exército davam às suas propriedades. Concluía dizendo que o tempo dos absurdos privilégios tinha acabado e doravante o rei governaria diretamente com o povo sem a intermediação de aristocratas estúpidos e gananciosos.

O bispo quis recusar por ser ligadíssimo aos nobres locais, mas Uther lhe perguntou se ele preferia ver as igrejas incendiadas e os cristãos martirizados pelos bárbaros pagãos que ameaçavam o reino por todos os lados, e o bom sacerdote viu que ele tinha razão, pois as perspectivas não eram nada animadoras. Por isso fez tudo que lhe foi ordenado e os sinos repicaram enquanto eloqüentes sermões eram proferidos em apoio do governo e das justas medidas adotadas para sufocar a “rebelião”. Pode parecer estranho a um homem culto dotado de sensibilidade, mas o fato é que o povo ao invés de ficar apavorado com as façanhas do Senhor dos Dragões as comemorou cantando e dançando nas ruas, especialmente na praça central onde estava a cabeça do nobre recalcitrante fincada em uma estaca.

O povo sempre se regozija com a desgraça dos ricos e poderosos.

Uther governou dois meses e meio como ditador e além de recuperar as finanças e dobrar os salários do exército fez também importantes modificações administrativas. Embora tenha me conservado como segundo homem do governo tirou da minha órbita o fisco e o serviço secreto, pondo-os aos cuidados de Corciari, que passou a trabalhar ao meu lado com o título de censor do reino.

Quando Arthur reassumiu, o governo estava em ordem, o exército aumentava seus efetivos, a ilha prosperava, o povo estava satisfeito e O Senhor dos Dragões era o homem mais popular da Britannia.


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Post nº 82

AS  GRANDES  POETISAS  GREGAS  DA  ANTIGUIDADE

Safo ouve embevecida o poeta Alceu dando recital na Academia Poética só para mulheres que ela
fundou em Lesbos. Homens só entravam quando especialmente convidados


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Uma das características mais extraordinárias do “Milagre Grego” foi o relevante papel dado às mulheres nas atividades culturais da sociedade. Isto é tanto mais surpreendente quando sabemos que as sociedades orientais nunca lhes permitiram participar de sua vida cultural e ainda hoje algumas delas sequer lhes permitem acesso à educação. Desse absurdo não escapou a nossa moderna sociedade até tempos bastante recentes e embora sempre lhes tenhamos permitido acesso à educação primária e média, os portões das universidades para elas ficaram fechados até o século XIX, quando só então algumas escolas superiores na Suíça e nos Estados Unidos timidamente começaram a admiti-las. Mas foi só no século XX que a admissão se tornou geral e as mulheres voltaram a ter na sociedade a mesma atuação intelectual que tiveram há 2.500 anos na Grécia antiga.

Esta se dava em todos os campos do intelecto, mas foi na literatura que ela atingiu o seu ponto mais alto, dando-nos poetisas que até hoje nos maravilham com a alta qualidade dos seus poemas. Infelizmente nenhum deles nos chegou completo e tudo que temos são fragmentos, mas, reforçados por citações de autores da época, eles nos dão boa ideia do alto valor literário da obra das poetisas gregas. Não temos versos de todas elas e nem mesmo sabemos quantas foram, mas entre os poemas da época feitos por homens para homenageá-las está o elegante epigrama de Antípater da Tessália:

“A estas donzelas de falar divino nutriam de cantos Helicon e Pieria, rocha macedônia: Praxila, Miro e Anita iguais a Homero; Safo, honra da Lésbia, de cabelos longos; Erina e a nobre Telesila, e tu, Corina, que ousaste cantar a égide de Palas; e Nossis, de voz feminina, e Mírtis de suave voz, todas criadoras de carmes imortais. As nove musas são filhas de vasto céu; filhas da terra são estas nove, para eterno júbilo dos homens.”

O autor enumera só nove poetisas, chamando-as de musas terrenas, para igualar seu número ao das nove musas celestes, mas sabemos que houve outras, entre as quais Damófila, Megalóstrata, Clitágoras e Femaon. Desta última sabemos apenas que viveu na época de Safo, foi sacerdotisa de Apolo e inventou o verso hexâmetro, adotado pelos poetas gregos Eumolpo, Orfeu e Lino e usado até hoje por poetas de vários matizes, sobretudo os populares, por ser talhado para a poesia oral através da qual era feita a profecia. Os oráculos, portanto, eram apresentados aos consulentes em versos e a sacerdotisa Femaon ficou famosa ao fazê-lo no verso hexâmetro por ela inventado que encantava a vasta audiência presente às cerimônias divinatórias. Das outras poetisas não sabemos quase nada e do pouco que sabemos é impossível distinguir o verdadeiro do lendário.

Para o esquecimento da obra das poetisas gregas foi decisivo o advento do Cristianismo porque todos os textos religiosos e filosóficos importantes eram escritos no dialeto ático de Atenas. Esta não fornecia poetisas e todas elas eram de outras regiões da Grécia onde predominavam os dialetos eólico e dórico nos quais escreviam. Ambos são difíceis e aos poucos tornaram-se pouco lidos, fazendo com que os copistas fossem parando de reproduzi-los a partir do século IV DC. A falta de reprodução fez com que as obras em eólico e dórico desparecessem lentamente das bibliotecas por desastres ocasionais e ação do tempo. Para completar, no século XI DC a Igreja promoveu uma "caça às bruxas" e as obras de Safo foram banidas das bibliotecas e queimadas em público por serem "imorais". O resultado de tantas adversidades foi que poucas das suas obras, assim como das demais poetisas gregas, chegaram até nós. Porém o atual aprofundamento das pesquisas tem descoberto muitas raridades e recentemente surgiram seis poemas de Safo quase completos. Graças a isso hoje podemos dizer que ela era de fato genial, assim como também devem ter sido as suas colegas famosas cujas obras ainda permanecem desaparecidas. Passemos uma rápida vista d'olhos sobre algumas grandes poetisas gregas a começar por Safo, a mais famosa de todas. 

Safo


Safo e uma amiga no jardim da sua Academia Poética em Lesbos. O fato da academia ser exclusiva
para mulheres originou no puritano século XIX o mito da sua homossexualidade

Safo viveu no final do século VII AC e dela temos o maior número de fragmentos apesar de ser a mais antiga. São cerca de 200 e sabemos que era uma rica aristocrata da cidade de Mitilene na ilha de Lesbos, foi casada com o nobre Cercila e teve uma filha chamada Cleide. Alguns a descrevem como de boa estatura, belas feições e cabelos violeta e outros como baixinha, feições comuns e cabelos negros. Os vasos do século V adotam a primeira descrição, donde concluirmos que deve ser a mais fiel, até porque uma mulher não poderia despertar as paixões que despertou se não possuísse beleza física e uma voz bonita e sedutora, condições básicas para a celebridade numa sociedade fortemente auditiva e visual como a grega. Sabe-se que ela criou uma Academia em seu palácio para reunir as poetisas de Lesbos e de regiões próximas, onde homens só entravam raramente, como era o caso do seu amigo o poeta Alceu, de quem se diz ter sido amante e que era às vezes convidado para fazer palestras, recitar poemas e porfiar ao som da lira com Safo e outras poetisas da seleta audiência.

Safo antes de se suicidar abraçando a sua lira no alto de um rochedo
sobre o mar em sua ilha natal de Lesbos

Parece que foi o fato da sua Academia admitir somente mulheres e nela ser rara a presença de homens, o que deu origem ao mito da sua bissexualidade. O inusitado para os padrões gregos de uma academia literária exclusivamente feminina, acrescida de dubiedades em seus versos achadas pelos lexicógrafos e exegetas do século XIX, despertou suspeita e originou o mito da sua perversão sexual. Na puritana Europa Vitoriana o mito logo se tornou verdade e adotou-se Lesbos, terra natal de Safo, como base semântica para a criação dos termos lésbica e lesbianismo, com os quais se passou a designar a homossexualidade feminina. Dizemos mito porque nenhum autor antigo conhecido refere-se ao assunto, mas isso talvez se deva ao fato do homossexualismo entre os gregos ser comum e não haver maiores razões para mencioná-lo no caso de Safo ou de qualquer outra pessoa. Mas a lenda diz que ela amou vários homens e o último, o barqueiro Faon, causou-lhe a morte ao abandoná-la quando já era mulher madura. Deprimida com o desprezo do amante, se suicidou jogando-se ao mar do alto de um rochedo em sua ilha natal.

Há também a versão de que ela morreu idosa de morte natural e para isso alguns baseiam-se em poema onde lamenta a velhice que traz rugas, branqueia os cabelos e torna difícil amar, porém há sérias indicações de que trata-se apenas de uma antecipação do que lhe acontecerá no futuro ao ver o surgimento dos primeiros cabelos brancos, coisa que em muitos ocorre na casa dos trinta anos, e não de um lamento pelo estado em que já se encontra. Entre as duas versões, acho preferível a primeira, pois está muito mais de acordo com o caráter vibrante e apaixonado de Safo, capaz de todas as loucuras por amor.   

Cercada por suas discípulas em pé, Safo sentada lê seus poemas para elas - Vaso grego do século 5º AC 

Seja pelo seu fim trágico, bem ao gosto dos gregos da época, seja por sua beleza física ou pelo notável valor da sua obra, Safo virou tema de peças teatrais dramáticas e cômicas de vários autores, dentre eles destacando-se os poetas cômicos Difilo de Sínope, Antífenes de Rodes e Tímocles de Atenas. Em seguida vieram os epicuristas promovendo-a a membro do seu grupo através de narrativas sobre o prazer onde ela é o personagem central 300 anos após a sua morte. Os epicuristas, portanto, foram os principais responsáveis pela ligação do nome de Safo a temas escandalosos, como é o caso da sua exacerbada bissexualidade.

Mas eles talvez não tenham exagerado e sido fiéis à verdade, pois nos séculos III e II AC, época do fastígio da Escola Epicurista, a obra de Safo certamente ainda estava completa e eles nada mais fizeram do que constatar o seu alto grau de paixão e erotismo, bem de acordo com a sua filosofia. Caso tenha sido assim, divulgá-la ao máximo por todos os meios ao seu alcance teria sido apenas a atitude correta a adotar do ponto de vista literário e coerente do ponto de vista filosófico.      

Corina

Detalhe de estátua de Corina destacando seu belo rosto

Depois de Safo, a poetisa grega mais conhecida pelo valor literário dos seus versos é Corina, filha do aristocrático casal Apolodoro e Procrácia. Ela nasceu e viveu no final do século VI AC em Tanagra, que lhe ergueu bela estátua para homenageá-la pelos “invejados ramos sobre as negras tranças”, referindo-se às coroas de louros por ela ganhas em cinco Olimpíadas poéticas nas quais derrotou o grande poeta Píndaro, seu rival e colega na Academia da poetisa Mírtis, da qual só sabemos que nasceu em Antédon na Beócia. Píndaro era brigão e mau perdedor, tendo insultado Corina chamando-a de “porca” após uma de suas derrotas, mas esta não lhe deu resposta e até censurou Mirtes por fazê-lo nesta ou em outra ocasião, como diz em um dos seus fragmentos: “Eu censuro a harmoniosa Mirtes, e censuro por, mulher que era, ter entrado em disputa com Píndaro”. Para a gentil Corina não era apropriado a uma dama brigar com homens nem baixar o nível de competições poéticas ao nível de disputas pessoais. Todavia, dado a alta qualidade da poesia de Píndaro, é possível que os poetas Eliano e Pausânias estejam certos ao afirmar que, pelo menos nessa ocasião específica, os juízes deram a vitória a Corina porque foram influenciados pela sua grande beleza, acrescentando Pausânias que para a sua vitória também foi importante Corina compor no dialeto eólio, o mesmo dos juízes, enquanto Píndaro o fazia no dialeto dórico.

Estátua de Corina. Ela foi a mais vitoriosa das poetisas gregas, pois derrotou
em cinco Olimpíadas Poéticas seguidas o grande poeta Píndaro

Particularidade única de Corina foi não ter se limitado à poesia lírica como as demais poetisas gregas e feito também poesia épica, gênero próprio dos homens, onde celebra deuses e heróis conforme nos informa a lista das suas obras elaborada pelo gramático Fabrício no volume II da Biblioteca Graeca. Infelizmente, nem mesmo um fragmento dos seus poemas épicos chegou até nós, sendo-nos impossível aquilatar o seu valor.

Anita

Anita era de Tegéia, onde nasceu no final do século IV AC, mas passou parte da sua vida adulta em Epidauro como Chresmopoios do templo de Esculápio, espécie de secretária encarregada de por em versos as respostas do deus aos consulentes. Pelo visto, a sacerdotisa do oráculo não tinha o mesmo talento de Femaon, que como sacerdotisa de Apolo já dava as respostas em versos hexâmetros diretamente do seu altar. Anita não podia fazer o mesmo, pois trabalhava nos bastidores e não aparecia para o público, por isso teve que buscar reconhecimento para sua obra poética através dos livros que publicou e dos concursos de que participou.

Estátua de Esculápio deus da medicina em seu templo de Epidauro
onde Anita era encarregada de por em versos suas respostas

Fica a pergunta, “por que não foi Anita promovida a oráculo?”, pois segundo Pausânias ela possuía faculdades especiais e íntimas comunicações com o deus. Talvez tenha tido sérios desentendimento com seus superiores e em represália estes lhe negaram o cargo a que seu talento a credenciava. Porém ela mantinha contacto pessoal com os consulentes quando lhes entregava e explicava em privado as respostas versificadas. Graças às suas "faculdades especiais" é possível que ao dar aos consulentes as respostas do deus em versos o contato pessoal com eles tenha lhe possibilitado exercer essas "faculdades" e identificar as doenças, prescrevendo o apropriado tratamento e obtendo curas "milagrosas". Os doentes devem ter percebido que sua cura se devia tanto à minuciosa e dedicada atenção por eles recebida do "chresmopoios"  quanto aos poderes do deus, ficando muito gratos a Anita. Em consequência, ela fez amizades que lhe propiciaram régios presentes, permitindo-lhe obter independência econômica e demitir-se do templo para dedicar-se exclusivamente às musas. Infelizmente sua obra sumiu na poeira do tempo, deixando para trás apenas alguns fragmentos pelos quais nos é possível dizer que ela pertencia à Escola Árcade, conforme estes dois belos epigramas:

      “Forasteiro, senta-te nesta pedra para dar descanso aos teus doridos membros. Em cima de ti através das folhas sopra um suave vento. Bebe a água desta fonte límpida que jorra do rochedo, pois aqui no calor do dia é doce o repouso do viajante.”
      “Rústico Pã, é para mim, sentado na densa floresta por onde vagueiam as ovelhas, que tocas docemente a flauta a fim de que, ao pé destes declives úmidos de orvalho, as minhas jovens reses se apascentem da relva deliciosa?”

Erina

Nada sabemos da vida pessoal ou pública de Erina e nem ao menos onde nasceu e viveu, embora a mistura dos dialetos eólio e dórico por ela usado indique que era oriunda das mesmas regiões poéticas da antiga Grécia de onde vieram as demais grandes poetisas. Dela recebemos bom número de versos, inclusive uma epopeia feminina completa em mais de trezentas linhas intitulada A Roca. O poema é alegórico e tem como tema homenagear a memória do seu íntimo amigo de infância Baucis falecido antes dela. No belo poema aborda a vida da família no recesso do lar doméstico e a vemos sentada, virgem ainda, tendo nas mãos a roca e o fuso, tecendo os fios da vida que sempre se emaranham para tornar infelizes os seres humanos, os quais, tal como ela na roca, tentam em vão recolocá-los em ordem. O drama para desfazer os nós dos fios emaranhados se passa sob os olhos vigilantes e a severa autoridade de sua mãe temida, o que nos faz concluir que ela era de família austera e muito rica, pois não exercendo atividade externa e não tendo vida pública, pois a isso não permitiu a brevidade de sua vida, logrou publicar vasta obra no curtíssimo período de sua existência. Isto diz muito da fortuna do autor porque publicar 20 ou 30 exemplares de um livro na antiguidade era caríssimo, limitando tal façanha apenas às pessoas ricas ou com protetores ricos. Quanto à brevidade da sua vida, o sabemos através de poema da época composto em sua homenagem, talvez por poeta contratado e pago pela família, onde se diz que ela morreu virgem aos 19 anos vítima de mal súbito que a fulminou quando colhia flores no jardim.

Erina viveu na época helenista (séculos 4º a 1º  AC), quando o centro cultural da Grécia mudou de Atenas
para Alexandria, onde a sua grande biblioteca atraía intelectuais de todo o mundo conhecido

Apesar de muito jovem, Erina foi uma das mais populares poetisas do seu tempo e pelo estilo dos seus versos pode-se afirmar que viveu na época de hegemonia cultural de Alexandria, ocorrido depois da morte de Alexandre Magno em 322 AC. Assim, Erina deve ter vivido no século III ou no século II AC, não se podendo excluir a hipótese de ter sido no final deste último ou no início do seguinte, quando a expansão de Roma era avassaladora e estava prestes a devorar a Grécia. Para reforçar a tese de período mais recente existe uma Ode sua intitulada Eis Romen, podendo a última palavra significar “Força” ou “Roma”, dependendo do contexto, e no contexto do poema o significado é “Roma”. Há, portanto, um período de aproximadamente 150 anos dentro do qual poderá ter transcorrido a sua breve e profícua existência.

Telesila

Telesila nasceu e viveu em Argos no século VI AC e pertencia à alta nobreza, mas só tornou-se poetisa quando procurou um oráculo para tratar-se de males que a atormentavam e este respondeu, "dedica-te às Musas". Ela seguiu o conselho e seus versos logo a fizeram famosa a ponto de tornar-se a poetisa mais popular e conhecida da Grécia depois de Safo. Porém forçoso é dizer que isto não ocorreu somente por causa da sua poesia, que embora excelente não era superior a de suas colegas, mas por causa de notável feito militar, tão extraordinário que apenas alguns séculos depois apareceram autores dizendo tratar-se apenas de uma lenda, já que Heródoto, nascido pouco tempo depois e considerado o fundador da ciência da História, não o menciona em suas obras.

O fato teria se passado assim: Argos, cidade natal de Telesila, estava em guerra com Esparta cujo exército avançou disposto a obter uma vitória rápida. Os argivos o enfrentaram e foram postos em fuga pela superioridade do inimigo, que vitorioso intimou a cidade indefesa a render-se. Face à fuga do seu exército e não tendo como resistir, os idosos senadores aceitaram os termos da rendição e mandaram abrir os portões para que os espartanos entrassem, mas do meio da multidão Telesila ergueu-se e subiu à tribuna para discursar eloqüentemente protestando contra a covardia dos homens fujões e incitando suas irmãs de sexo a assumirem o lugar deles para lutarem até o fim. Não se sabe o que fez a multidão apoiá-la naquela situação desesperada, mas cheias de entusiasmo as mulheres tomaram o arsenal, vestiram as armaduras masculinas e armaram-se até os dentes, indo depois para o alto das muralhas esperarem o inimigo. Os espartanos quando souberam do ocorrido riram incrédulos, mas decidiram atacar e resolver o assunto definitivamente, pois estavam certos de que elas fugiriam tão logo ouvissem o seu apavorante grito de guerra. Isto não aconteceu e alguns dizem que o primeiro ataque foi rechaçado com grandes perdas, obrigando-os a refletirem melhor, mas outros dizem que não chegaram a atacar por achar desonroso a um guerreiro lutar contra mulheres, e mais desonroso ainda matá-las em combate. Fato é que ao verem as comandadas de Telesila não desertarem dos seus postos e aguardarem calmamente o ataque, prontas para o combate, os espartanos contentaram-se com sua honrosa vitória no campo de batalha e desistiram de tomar a cidade. Em conseqüência, fizeram meia-volta e regressaram a Esparta.

Marte, o deus da guerra. Somente homens podiam participar
do seu culto, mas em Argos abriu-se uma exceção

A narrativa do extraordinário feito heróico percorreu a Grécia e Telesila subiu aos píncaros da glória. Cerca de 500 anos depois quando visitou Argos, o historiador Pausânias ainda viu em uma coluna fronteira ao Templo de Vênus a estátua erguida em sua honra, que ele assim descreve: “aos seus pés alguns livros, na mão um capacete que ela olha como se estivesse prestes a pô-lo na cabeça”.

Em memória da valente poetisa ainda celebrava-se na época uma festa chamada ybristica, à qual as mulheres iam vestidas de homem e os homens vestidos de mulher. Fato inusitado, Argos era a única cidade da Grécia onde as mulheres podiam participar do culto a Marte, deus da guerra. Sobre sua obra poética tudo que pode ser dito é que os antigos a consideravam no mesmo nível de Safo e Corina, mas nada podemos afirmar porque tudo que dela nos chegou foram apenas dois versos, insuficientes para qualquer juízo de valor. O tempo destrói não só as pessoas, mas as suas obras por mais belas e valiosas que sejam.

Sic Transit Gloria Mundi



terça-feira, 26 de agosto de 2014

Post nº 81

JOHANNES  -  O  IMPERADOR  QUE  DESFILOU
COMO  PALHAÇO  MONTADO  DE  COSTAS
EM  UM  BURRO  ANTES  DA  EXECUÇÃO

Moedas com a efígie de Johannes cunhadas no seu curto reinado (425-26 DC). De todos os imperadores
romanos, ele e Maximus foram os que tiveram morte mais ignominiosa


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Em 423 a imperatriz Galla Placídia, viúva do ex-imperador adjunto Constâncio, foi expulsa da Corte imperial em Ravena por seu irmão o imperador Honório. Comentava-se que após a morte de Constâncio ela tentara forçar o irmão a adotar como herdeiro e sucessor o seu filho Valentiniano de apenas quatro anos de idade e isto irritara Johannes, secretário de Honório e verdadeiro governante civil do Império. Em consequência, Placídia foi expulsa e exilada em Constantinopla.

O imperador Honório reinou por 30 anos mas nunca governou coisa nenhuma, pois era um idiota enfermiço que deixava tudo na mão dos seus incompetentes e corruptos assessores. Na verdade Honório não tinha capacidade para distinguir ou julgar da competência ou honestidade de quem quer que fosse.

Durante o seu incompetente reinado, de 395 a 425, Roma foi tomada e saqueada pelos Godos em 410 e o Império só não se esfacelou antes ou depois porque teve a sorte de ter no comando do exército competentes generais como Stilicon, Constâncio, Bonifácio e Aécio, sendo que Constâncio chegou a ser seu cunhado e imperador adjunto. Porém passou pouco tempo no cargo, pois morreu subitamente dois anos antes de Honório.

Durante o reinado do incompetente Honório os godos invadiram e saquearam Roma (410 DC)

Em 425 os romanos receberam a notícia de que o imbecilizado Honório finalmente morrera e souberam com estupefação que o burocrata Johannes proclamara-se imperador com o apoio do ilustre patrício Castinus, usurpando o trono do herdeiro legítimo Teodósio II, imperador Romano do Oriente e sobrinho do falecido imperador do Ocidente.

Johannes era um burocrata astuto e sabia muito bem que o distante Teodósio nada poderia fazer contra a sua usurpação desde que tivesse a seu favor um poderoso exército, por isso escreveu a todos os altos comandantes militares das províncias fronteiriças, onde se concentrava o grosso das legiões, pedindo o seu apoio. Quase todos evitaram comprometer-se com o secretário usurpador e responderam que eram militares profissionais que não entendiam nada de política e não queriam envolver-se em assuntos fora da sua alçada. De qualquer forma, disseram-lhe que não se opunham à sua pretensão e o serviriam nas mesmas funções, tal como serviriam a qualquer outro governo que fosse legitimamente aceito.

A única exceção foi o general Aécio, que após alguma reticência prometeu auxiliá-lo com um exército de cavaleiros hunos, pois vivera como refém entre eles por vários anos e construíra sólidos laços de amizade com os líderes dessa tribo guerreira estabelecida onde hoje é a Hungria. Contudo há dúvidas sobre a sinceridade de Aécio porque ele nada fez de concreto para sustentar Johannes no poder, ausentando-se do palco dos acontecimentos sob o pretexto de que iria buscar pessoalmente o exército huno que prometera e ficando fora por vários meses enquanto a situação do novo imperador deteriorava-se.

Porém Johannes entendeu as dúbias declarações dos demais generais como sendo apoio tácito e exibiu as cartas aos comandantes das fracas guarnições da península italiana, deles recebendo a peso de ouro o apoio militar de que tanto necessitava. Mas o conde Bonifácio, comandante do poderoso exército do norte da África, foi radical e o informou que se não estivesse ocupado com uma grande revolta dos berberes marcharia sobre Ravena para destronar o usurpador.

O prestigioso general Bonifácio era rival do general Aécio e posicionou-se contra
Johannes a favor de Teodósio

Mas fosse pela falta de algo melhor, fosse porque estavam motivadas por substancial gratificação, as tropas metropolitanas reunidas em praça pública aclamaram Johannes imperador e ele continuou o seu curto reinado que terminaria em humilhação e tragédia. 

Não obstante a ausência de Aécio e a oposição de Bonifácio, ele formou meia dúzia de legiões pagando largas somas aos soldados, e preparou-se para lutar contra as tropas de Teodósio II, legítimo sucessor do seu tio Honório no trono do Ocidente. Para os altos chefes militares tanto fazia um como o outro, pois ambos eram corruptos e incompetentes, incapazes de fazer face aos problemas que o Império enfrentava. Na verdade, os mais importantes generais estavam esperando que Bonifácio apresentasse sua candidatura para apoiá-lo, pois se tratava de brilhante oficial muito popular entre as tropas, com enorme prestígio na aristocracia romana e no alto clero da Igreja por sua devoção e amizade com Agostinho, bispo de Hipona e eminente filósofo católico, considerado santo por muitos. Mas quando ficou claro que Bonifácio não se candidataria, pois se posicionara firmemente em favor de Teodósio, os comandantes resolveram continuar neutros e silenciosos.

Pouco depois foram surpreendidos com a notícia de que uma tempestade afundara a frota do Império do Oriente, afogando o exército mandado por Teodósio para combater Johannes, e este aprisionara o general comandante que sobrevivera ao desastre. Isto fortaleceu a posição do usurpador e ela seria segura se na mesma época não viesse a novidade ainda mais surpreendente de que a viúva Placídia conseguira do seu sobrinho Teodósio o que não conseguira do seu irmão Honório: a abdicação do trono do Ocidente em favor do menino Valentiniano, então com seis anos de idade. Para completar, Teodósio nomeara Placídia regente na menoridade do filho!

Todos acharam que se tratava de uma piada, pois não viam como poderia uma mulher assumir o trono naquela difícil situação e governar um império em guerra civil, atacado pelos bárbaros por todos os lados. A pergunta que se fazia era como seria possível Placídia retirar Johannes do poder e assumir o trono, pois ele estava firme em Ravena, possuía o controle da administração da Itália e tinha ao seu lado um exército de aderentes dado a catástrofe que se abatera sobre a frota e as tropas de Teodósio. Ademais, ela estava a centenas de milhas em Constantinopla, não tinha apoio popular e não dispunha de tropas dispostas a lutar pelo seu direito. Mesmo o fervoroso apoio de Bonifácio de nada lhe servia, pois ele estava às voltas com a rebelião dos berberes na África e não podia deslocar um único soldado para combater na Itália. Somando as coisas, tudo que Placídia tinha era um decreto de Teodósio transferindo-lhe um trono que não possuía, o que causava risos nas pessoas, certas de que ela fazia o papel do otário que comprara algo que não existia.

A imperatriz Galla Placídia e os seus filhos Honório e Eudoxia


Porém as dúvidas na época mostram que os seus contemporâneos ainda não conheciam a mulher de ferro que ela era. Sem perder a calma, Placídia levantou grande soma de dinheiro e mandou agentes secretos à Ravena para contatar os generais de Johannes e suborná-los para que mudassem de lado. Ademais, ele cometera o erro fatal de ao invés de meter no cárcere o general de Teodósio aprisionado o mantivera imprudentemente em confortável prisão domiciliar onde recebia visitas e contatava partidários, conspirando contra o seu captor quase que abertamente. Assim, o general prisioneiro avalizou o acordo de Placídia com os generais traidores e foi o fim do breve reinado de Johannes.

O poderoso burocrata imprevidente, que ousara desafiar as instituições, tivera a má sorte de tornar-se inimigo de Placídia logo depois que ela enviuvara de Constâncio e movera céus e terras na tentativa de fazer o amalucado imperador Honório reconhecer como herdeiro o seu filho órfão Valentiniano de apenas quatro anos de idade na época. Apesar de todos os agrados e carinhos com os quais procurara conquistar o favor do irmão, este não se abalara e preferira ouvir as sórdidas intrigas do seu secretário Johannes, o qual fizera espalhar por toda a capital que a ambição e indecência de Placídia não tinham limites, pois para fazer do menino Valentiniano imperador ela era capaz até mesmo de seduzir o irmão idiota e com ele manter relações sexuais incestuosas. Suas excessivas demonstrações públicas e privadas de “amor doentio” pelo irmão mentalmente enfermo não poderiam ter outro significado senão este.

Habilmente, Johannes fizera com que os boatos por ele mesmo fabricados chegassem aos ouvidos do quase demente Honório, altamente devoto e que muitos diziam ser casto, contando-se como piada que ele era o único homem na face da terra que enviuvara duas vezes de esposas que morreram virgens. Em pânico, ele procurara o seu íntimo auxiliar e conselheiro Johannes para dizer-lhe que estava horrorizado com a “enormidade do pecado” das intenções da irmã Placídia, das quais jamais suspeitara e jurava inocência, vendo com terror demoníaco a infame possibilidade de que as pessoas pudessem acreditá-lo capaz de cometer tamanha aberração, como era o caso do sórdido “crime de incesto”. Em tão terrível situação, o que lhe aconselhava o seu “fiel amigo”? Hipocritamente Johannes mostrara-se chocado e após manifestar sua solidariedade ao “sábio” imperador disse-lhe que o melhor modo de afastar as acusações seria eliminar a sua causa, expulsando Placídia e exilando-a com os filhos na Corte do seu sobrinho Teodósio II em Constantinopla. Com essa medida o mal seria cortado pela raiz e o povo veria que o virtuoso imperador nada tinha a ver com a torpeza da irmã, tanto que a expulsara e exilara. Em pouco tempo todos esqueceriam o caso e poder-se-ia respirar ar puro na Corte novamente, pois “longe dos olhos longe dos pensamentos”!


O imperador Honório era um completo imbecil, pois se ocupava muito mais com as aves do
galinheiro do palácio do que com os negócios do Império

Em nome do imbecil Honório, o pérfido burocrata agira imediatamente. Placídia foi presa em seus aposentos no palácio e posta sob forte guarda. Antes que a notícia se espalhasse, ela e os dois filhos pequenos foram embarcados na calada da noite em um navio militar com destino a Constantinopla levando somente bagagem leve e acompanhada por modesta comitiva de apenas uma dúzia de serviçais e damas de honra. Embora formalmente bem recebida na Corte do sobrinho, ela foi tratada pela nobreza com o desdém que sofrem os poderosos quando subitamente decaem de suas antigas posições de grandeza, mas não se abalou nem baixou a crista e passou a planejar cuidadosamente a sua vingança, acumulando dinheiro e cultivando relacionamentos no meio civil e militar, de sorte que estava com tudo pronto e caiu sobre a cabeça de Johannes como um raio quando a ocasião favorável surgiu.  

Johannes foi deposto e preso em um calabouço infecto (426 DC) e quando Placídia chegou triunfante a Ravena com sua brilhante comitiva, em condições completamente opostas às de quando partira em opróbrio dois anos antes, ordenou que Johannes fosse submetido as mais cruéis torturas. Depois mandou que lhe cortassem a mão com a qual assinara a ordem de sua prisão e expulsão e lhe cortassem a língua com a qual espalhara o torpe boato que tanta dor moral e injusta humilhação lhe tinham causado.

Não satisfeita, esperou que o deposto imperador se recuperasse fisicamente dos horríveis ferimentos e deu prosseguimento à sua atroz vingança.

Em um belo dia de sol, Placídia mandou vestir Johannes de palhaço e o fez montar de costas em um burro no qual foi fortemente amarrado. Depois ordenou que o infeliz prisioneiro fosse conduzido em desfile perante a multidão que gargalhava e aplaudia nas ruas apinhadas o imperial “palhaço”, seguido por uma trupe circense como se ele fosse o seu chefe. O grotesco desfile terminou no circo da cidade, onde o decapitaram publicamente e espetaram sua cabeça, assim como a mão e a língua amputadas já ressecadas, em três lanças postas lado a lado em uma praça para simbolizar a justa punição dos que pensam indecências, assinam indignidades e espalham infâmias.

De todos os imperadores romanos em cinco séculos, Johannes e Petronius Maximus foram os que tiveram morte mais ignominiosa. Curiosamente, elas ocorreram no século V, último do Império e quando o Cristianismo já reinava absoluto no mundo romano. Parece que devotos cristãos, como Galla Placídia, não tinham assimilado muito bem os ensinamentos Evangélicos sobre caridade e misericórdia.

A trajetória do secretário cuja ambição o fez viver gloriosamente como imperador e cuja torpeza o fez morrer humilhantemente como palhaço, terminou com uma brutal alegoria sobre a fatuidade da grandeza material e com uma sangrenta advertência ética.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Post nº 80

O  MILAGRE GREGO  E  O  NASCIMENTO  DA  CIVILIZAÇÃO  OCIDENTAL

Platão e Aristóteles  (sec. IV AC)  são as duas maiores expressões da Cultura Grega
e a sua notável e benéfica influência permeia toda a nossa civilização

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É pacífico entre os estudiosos que a Civilização Ocidental se fundamenta em três pilares: a Cultura Grega, o Direito Romano e a Teologia Judaica. Porém, considerando-se: a) que o Direito Romano inspira-se em boa parte nas Leis atenienses de Sólon e é influenciado pela Filosofia Estóica; b) que o Velho Testamento somente tornou-se conhecido após ser publicado em grego no século II AC e, c) que o Novo Testamento foi inteiramente escrito em grego, parece-nos certo dizer que a Civilização Ocidental nada mais é do que a ampliação e evolução da Civilização Grega ao longo dos séculos.

A Grécia é uma pequena nação milenar de escassa população, cujo solo pedregoso jamais lhe permitiu ter próspera agricultura e boa pecuária. Grande parte é constituída por ilhas rochosas no mar ao redor, tão áridas quanto o solo continental. É pobre de minérios e na antiguidade suas habilidades náuticas, industriais e comerciais não superavam outros povos mediterrâneos, como os fenícios. Ademais, a Grécia não era um “país” na acepção do termo, mas um ajuntamento de pequenos países formados por “cidades-estado” independentes umas das outras e sem um poder central que as unisse política e administrativamente. A rivalidade entre esses “mini-países” era intensa e guerreavam muito mais uns contra os outros do que contra “estrangeiros”, mas apesar das rivalidades todos se julgavam “gregos” e partes de uma coisa maior chamada “Grécia”, dentro da qual partilhavam a mesma língua, cultura, religião e origem étnica. A Grécia, portanto, era uma NAÇÃO mas não era um PAÍS, de sorte que quando os seus habitantes se sentiam ameaçados por um poder “de fora” ou “estrangeiro” uniam-se em uma confederação e elegiam comandante supremo alguém com grande experiência militar e prestígio político de uma das suas cidades mais importantes, tal como ocorreu na lendária Guerra de Tróia e nas guerras contra o Império Persa.

Na batalha naval de Salamina os gregos derrotaram os persas e
mantiveram sua independência

Vê-se assim que a Grécia, além de pequena e pobre, era política e administrativamente dividida, não dispunha de real poder econômico e militar, e por isso não possuía peso internacional, e ainda por cima era atormentada por constantes disputas e guerras entre suas cidades, o que a fazia ainda mais pobre e insignificante. Como, então, se explica possa ter produzido tão extraordinária cultura, fonte de todos os nossos saberes científicos, filosóficos, jurídicos, literários, artísticos e até mesmo desportivos ?

O mistério até hoje não foi solucionado apesar das muitas teorias e hipóteses a respeito, todas elas sem maior sustentação, o que levou sábios eminentes a chamarem o fenômeno ocorrido na Grécia entre os séculos VI e II AC de “MILAGRE GREGO”.

Não é que os gregos desse longo e extraordinário período de 400 anos tenham criado e descoberto tudo, pois seu grande mérito na maioria dos casos foi sistematizar conhecimentos já existentes, especialmente nas áreas da matemática e da geometria, mas lhes deram validade científica formulando postulados e teoremas expostos em Tratados ainda plenamente válidos e estudados nas Escolas. Com isso descobriram que a Terra era redonda, girava em torno do Sol e seu tamanho era quase igual ao que somente nos foi possível medir com exatidão 2.200 anos depois com a ajuda de satélites artificiais e de sofisticado aparato científico.

Fato ímpar no mundo, inclusive no Ocidente, onde até o século XIX proibia-se às mulheres o acesso às universidades, os gregos séculos antes de Cristo não só incentivavam a educação feminina como davam à mulher lugar de destaque na vida intelectual da nação, louvando-a e premiando-a, do que é exemplo a grande poetisa Corina derrotando o grande poeta Píndaro em vários concursos de poesia, a ponto de em desespero ele perder as estribeiras e queixar-se insultuosamente em alto e bom som: "os juízes só lhe dão a vitória porque ela é linda, embora não passe de uma porca".

Ainda jovem o grande poeta Píndaro perdeu várias competições poéticas para a também
ainda jovem grande poetisa Corina e a insultou rudemente

Infelizmente poucos livros de grandes escritores da antiguidade chegaram até nós, fazendo com que só tenhamos fragmentos de sábios pré-socráticos como Heráclito e Pitágoras ou mesmo de pós-socráticos como Epicuro e Zeno. O mesmo ocorre com as grandes poetisas gregas como Safo, Corina e Trasila, de cuja excelente obra lírica só temos fragmentos e notícias dadas por outros autores, mas que são suficientes para aquilatarmos do valor da sua obra e do prestígio que gozaram na Grécia da sua época. Apenas para comparar, os romanos, séculos posteriores aos gregos e com hegemonia muito maior e muito mais duradoura, e que por isso as obras dos seus grandes autores nos chegaram bem mais conservadas e em muito maior número, não nos legaram nenhuma poetisa ou mulher de reconhecido valor intelectual.


Corina forma com Safo e Trasila o trio das maiores poetisas conhecidas
da antiguidade. Infelizmente só temos fragmentos de suas obras

Porém o mais impressionante é que numa “Era” ainda pré-científica os gregos criaram ciências como a Filosofia, a Estética, a Pedagogia, a Física, a Metafísica e a História; métodos de raciocínio e de investigação como a Dialética e a Lógica Formal. Criaram a arte como expressão do sentimento e da beleza ideal mostrada em suas insuperáveis esculturas e o esporte como expressão da mais apurada técnica e da beleza física eternizada nas Olimpíadas. Também criaram sofisticada tecnologia, como os notáveis aparelhos de elevado nível tecnológico de Arquimedes e Hieron de Alexandria. Na literatura, criaram o teatro nos moldes que, com as devidas adaptações, assistimos até hoje, e criaram quase todos os gêneros de poesia e de verso que conhecemos. Finalmente, deram caráter científico à Medicina, até então território privativo do empirismo e da superstição, e no nosso tempo médicos que concluem o curso e saem da Escola para exercer a “arte de curar” fazem o Juramento de Hipócrates, médico grego considerado o pai da medicina.


Após a vitória contra os persas Atenas ficou riquíssima e o seu líder Péricles construiu em homenagem
a deusa Atena o majestoso Paternon, obra prima da arquitetura grega 

Um episódio trivial mostra em poucas palavras a enorme importância da Cultura Grega para a Civilização Ocidental. Conta-se que o sábio Albert Einstein foi a uma recepção na casa de um colega na Universidade de Princeton e alguém lhe perguntou se ele já se indagara por que “um Einstein surgira no Ocidente e não na China”. Todos riram achando que o sábio responderia com uma das suas piadas, mas ele disse sério: “já pensei sobre isso e concluí que tanto eu quanto os meus colegas surgimos no Ocidente por duas coisas que se uniram para que a Revolução Científica ocorresse na Europa e não na Ásia: a invenção da Lógica Formal pelos gregos no século IV AC e a invenção do Método Experimental pelos europeus ocidentais no século XVII DC”.

Para o genial Einstein todo o nosso atual progresso científico e tecnológico tem por base o feliz fato de que em um dia qualquer há 2.400 anos em Atenas o professor Aristóteles sentou-se em sua escrivaninha e decidiu escrever um manual escolar para ensinar os seus alunos a técnica de pensar e de raciocinar corretamente, criando um método seguro de busca da verdade a que se deu o nome de “Lógica Formal”.

Todavia, penso que em meio as extraordinárias contribuições do “Milagre Grego” à civilização a mais notável de todas foi retirar o HOMEM da periferia do universo e colocá-lo no seu centro, tirando-o da sua condição de simples ATOR e fazendo-o também AUTOR da sua própria História.

Até então, como depois na Idade Média, achava-se que o centro do universo era ocupado pelos deuses e o homem era somente um apêndice e joguete do seu poder, mas os gregos fizeram os deuses iguais aos homens em físico, virtudes e defeitos, dando-lhes como caráter distintivo apenas a imortalidade, único predicado divino de que o homem não é dotado, não obstante ser sua suprema aspiração. Assim, puseram o homem junto aos deuses como seus “quase iguais” e criaram a mais importante de todas as correntes de pensamento na história da humanidade: O HUMANISMO !

Os gregos davam grande valor à educação e Alexandre, maior dos guerreiros,
teve como professor Aristóteles, maior dos mestres

O Cristianismo assimilou boa parte da filosofia grega, mas deu ao humanismo feição diversa: ao invés de fazer de Deus preocupação do homem, inverteu os pólos da equação e fez do homem preocupação de Deus, negando a aquele os atributos deste, que passaram a ter extensão imensamente maior do que os poucos e fracos atributos dos “humanizados” deuses criados pelos gregos, pois estes recusavam à divindade atributos que consideravam absurdos porque totalmente incompreensíveis à sua mente prática e racional, como é o caso do atributo da perfeição absoluta do Deus cristão.

O “humanismo” só voltaria a ser tema de debates na Renascença e os melhores intelectuais da época, como D’Avinci, Erasmus, Morus e Michelangelo, eram notórios humanistas à moda grega, embora católicos devotos.

Na ocasião a Grécia de há muito perdera seu esplendor intelectual e era página virada da História, tendo voltado há muitos séculos a ser o país insignificante que a natureza talhara para ser, mas o período áureo da sua cultura no primeiro milênio antes de Cristo, embora totalmente inexplicável, continuava a existir nos sonhos dos poetas e dos artistas, no pensamento dos filósofos de todas as tendências e nos projetos inovadores dos letrados, inspirando-os a vôos mais ousados e às mais brilhantes realizações.

Penso que o “Milagre Grego” é o mais extraordinário e o mais feliz de todos os muitos inexplicáveis episódios e intrigantes mistérios que povoam a História.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Post nº 79


AS  GRANDES  CRISES  ECONÔMICAS  DA  HISTÓRIA

Primeira grande crise econômica de que temos notícia detalhada foi a "Crise Agrária" de Roma no século II AC. Ela causou grave crise política e o assassinato dos senadores reformistas Tibério e Caio Graco.




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Importantes eventos históricos quase sempre vieram ligados a importantes eventos econômicos, embora nos falte elementos para identificá-los com clareza, salvo em pouquíssimos casos dos quais temos registros escritos. Entre estes está o relato bíblico da História de José, o jovem escravo judeu sábio na interpretação dos sonhos que há 3.500 anos previu longo período de bonança para a economia egípcia, o qual, segundo o seu extraordinário tirocínio, seria fatalmente seguido de grave crise econômica e duradouro período de pobreza e carência. Em termos da moderna ciência econômica, poderíamos chamar a alegoria bíblica das "7 Vacas Gordas" e das "7 Vacas Magras" de Ciclo Econômico, ou seja, um período de Crescimento seguido de outro de Recessão, assim como chamar o período de grande prosperidade  de Bull Market e o período de grande pobreza de Bear Market se quisermos usar o jargão dos operadores financeiros. A História de José é o primeiro grande exemplo conhecido de como devem os estadistas previdentes lidarem com a economia dos seus países durante períodos longos de prosperidade, que os gananciosos, mesmo os mais experientes, julgam serem "eternos", apesar da história mostrar que são sempre contingentes e passageiros.

Sabemos de outras grandes crises econômicas, especialmente das ocorridas no Império Romano de cuja história temos ótimo registro, como a "Crise Agrária do Século II AC" que ocasionou o assassinato dos famosos reformistas senadores irmãos Gracos, da "Crise da Inadimplência do Século I AC" que causou a rebelião e morte do senador Lucius Catilina, tema dos famosos discursos do senador Marcus Tulius Cícero chamados Catilinárias, da "Crise Inflacionária do Século III DC" que fez o imperador Diocleciano decretar o primeiro congelamento e tabelamento de preços de que se tem notícia, e da "Crise do Regime Escravocrata", que em última análise foi a causa maior do esfacelamento e fim do Império Romano do Ocidente, porém temos poucos dados sob os seus aspectos econômicos, sendo essas tormentosas crises mais conhecidas por seus aspectos políticos, objeto de minuciosos relatos dos historiadores e dos quais temos pleno conhecimento. Isto nos traz até aos séculos mais recentes, quando a economia se tornou muito mais dinâmica e as ciências econômicas e financeiras foram criadas, permitindo-nos uma acurada análise das Crises Econômicas que afetaram o mundo ocidental e tiveram repercussão no mundo oriental, motivo pelo qual podemos chamá-las de "Crises Econômicas Globais".

Em consequência da estreita ligação entre Economia e História torna-se difícil entender uma sem ter qualquer conhecimento da outra, ainda que superficial e rudimentar, razão pela qual, não obstante ser o nosso blog um portal de introdução à "História Antiga", julgamos oportuno divulgar o excelente ensaio publicado pela revista britânica The Economist, o qual nada mais é do que uma resumida história das graves crises econômicas que abalaram a civilização nos últimos 200 anos. Parece-nos que o historiador não recuou um pouco mais no tempo para abranger a "Crise das Tulipas" e a "Crise da Companhia das Índias Orientais" na Holanda, assim como também a "Crise do Banco da Inglaterra" no Reino Unido e a "Crise do Banco John Law" na França, porque elas não ultrapassaram as fronteiras dos países onde ocorreram e não abalaram a economia global. 

Tenham todos uma boa leitura.

          






sexta-feira, 20 de junho de 2014

Post nº 78


ÁTILA  É  PARALISADO  PELA  SUPERSTIÇÃO  NAS  MURALHAS  DE  AQUILEIA

Átila vingou-se da valente resistência da grande cidade romana de Aquileia
destruindo-a até os alicerces após três meses de cerco

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Átila cruzou os Alpes orientais no final de março de 452 DC e poucos dias depois cercou Aquileia, intimando-a a render-se. A cidade recusou e a batalha começou. Aconteceu então um fato que paralisou o ataque: no alto das muralhas havia soldados negros como carvão!

A massa de guerreiros hunos jamais vira gente dessa cor e ficou aterrorizada, pensando que certamente eram demônios que tinham vindo defender a cidade. Na verdade os “demônios” eram guerreiros vindos do sul do grande deserto africano, sobreviventes de uma feroz guerra tribal. Tinham se incorporado como guardas a uma grande caravana que seguia rumo a Cartago. Quando lá chegaram, maravilharam-se com a imensa metrópole, mas ficaram desempregados, e o sheik seu ex-patrão, um homem compassivo que se afeiçoara a eles, procurou ajudá-los. Como os guerreiros não sabiam fazer outra coisa senão lutar, o sheik lhes procurou emprego de natureza militar e soube que no sul da Itália legiões romanas estavam recrutando mercenários para preencher seus quadros devastados na recente guerra contra os hunos. Conseguiu passagens para eles em navios que se dirigiam aos portos do sul da península e pediu aos capitães seus amigos que os encaminhasse aos postos de recrutamento tão logo desembarcassem.

Assim aconteceu, e uma centena deles foi incorporada a uma legião juntamente com milhares de mercenários das mais diversas nacionalidades que para lá iam em busca de emprego. A grande legião perdera metade dos seus efetivos e por isso alistara mais de três mil mercenários, todos eles experientes na arte da guerra. Os duros treinamentos durante o outono e o inverno lhes ensinaram a disciplina e as táticas de combate romanas, fazendo com que a legião readquirisse seu antigo poderio e estivesse pronta para a batalha ao ser mandada para Aquileia no começo da primavera. Quatro dias após sua chegada os hunos aproximaram-se e a luta começou.

Foi quando viram os soldados negros e recuaram em pânico.

Átila, ao contrário da nossa propaganda na época, e que continua sendo repetida até hoje, não tinha nada de ignorante: conhecia várias cidades do norte da Itália, inclusive Ravena, e sabia falar, ler e escrever latim razoavelmente. Durante suas visitas à Itália vira pessoas de pele escura e sabia que elas não tinham nada a ver com “demônios”; por isso fez um veemente discurso aos supersticiosos soldados censurando-lhes a covardia e explicando-lhes que os soldados negros de quem tanto tinham medo eram gente comum, vinda de um lugar distante do outro lado do mar, onde o calor abrasador queimava a pele do povo e lhe dava a cor negra.

Ao contrário do que diz a história oficial, Átila não tinha nada de selvagem e o filósofo bizantino Crispus, que
foi embaixador de Constantinopla na sua corte, diz que ela era bastante sofisticada 

Certo de que suas explicações tinham bastado ordenou novo ataque, mas os soldados mantiveram-se a uma distância segura atirando flechas e pesadas pedras com as suas catapultas ao invés de tentarem escalar a muralha.

Indignado, Átila ordenou várias execuções por covardia, e ele pessoalmente cortou a cabeça de meia dúzia de “covardes”, mas isso em nada melhorou o ânimo combativo das tropas. Ele estava sem entender o que se passava na mente dos soldados acovardados quando um dos seus generais o procurou e disse-lhe: “Os homens não são covardes nem tem medo de morrer em combate, pois sabem que se morrerem lutando uma bela Valkiria levará suas almas para o Valhalla, onde passarão a eternidade caçando e galopando pelos seus paradisíacos campos sem fim; mas acham que se forem mortos por um demônio imortal este se tornará dono das suas almas e as levará para o inferno onde sofrerão eternamente”!
  
“Então é isso”, disse Átila, “Os soldados acham que os negros são demônios porque são imortais; se é assim, só há uma solução: matar um deles”!

Ele notara que os legionários negros tinham se divertido com a “covardia” dos atacantes e por isso ficavam imprudentemente de pé nas ameias fazendo gestos obscenos e zombando do inimigo, que até então se conservara à distância. Mandou suas tropas se postarem em frente da cidade e calmamente as passou em revista; depois fez meia volta e se aproximou da muralha, galopando velozmente ao longo dela sob uma chuva de flechas enquanto mirava cuidadosamente um dos legionários negros de pé sobre a ameia. O disparo do seu arco foi preciso e o soldado imprudente caiu do alto com o pescoço trespassado por uma flecha certeira.

Quando voltou da sua teatral corrida sob os aplausos ensurdecedores das suas tropas o valente rei dos hunos lhes disse: “Vocês viram que os negros não são demônios, pois não são imortais; vamos agora lutar de verdade e derrotá-los”! Os ferozes guerreiros atacaram em massa e só então a batalha de Aquileia realmente começou.

Por incrível que pareça a cidade resistiu três meses!

Exército de Aécio era muito inferior ao de Átila e ele preferiu adotar guerra de guerrilhas contra os hunos na
Itália ao invés de enfrentá-los em campo aberto. Por isso não pôde socorrer Aquileia.

Aécio ficara surpreso por Átila não haver desistido depois do primeiro mês, pois os hunos gostavam de lutar em campo aberto, galopando velozmente e disparando flechas contra o inimigo, mas detestavam cercos prolongados, nos quais tinham de lutar a pé escalando muralhas. Nesse tipo de luta, enquanto alguns grupos atacavam e eram repelidos os demais ficavam ociosos aguardando sua vez de atacar; isto os irritava e desgastava, e sempre que podiam evitavam tal tipo de combate. Também o surpreendeu o fato de Átila não ter deixado uma fração das suas tropas cercando a cidade e avançado com seu imenso exército sobre o resto da Itália.

Do ponto de vista militar a atitude do rei huno não fazia sentido.

O que Aécio só veio saber depois é que a covardia dos hunos diante dos “demônios” humilhara Átila profundamente e ele decidira vingar-se da zombaria dos legionários; por isso resolvera recuperar sua honra militar destruindo a cidade com ataque após ataque a fim de não dar descanso aos defensores e esmagá-los rapidamente. Porém os legionários lhe opuseram tenaz resistência, o que o fez se apegar ainda mais ao seu infantil projeto de vingança, alheio ao bom senso militar. O orgulho ferido de Átila, portanto, teve grande influência no resultado final da campanha.

Trecho do romance histórico "O Senhor dos Dragões"