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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Post nº 84

HELIOGÁBALO – O  ADOLESCENTE  SODOMITA
QUE  FOI  IMPERADOR  DE  ROMA  E  “ESPOSA”
DE  UM  ATLETA  DE  CIRCO

O imperador Heliogábalo vestia-se, depilava-se e pintava-se como mulher. Também adotava voz e trejeitos
femininos, exigindo que tratassem seu amante como seu "marido" e a si próprio como "imperatriz"
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Ao contrário do que muitos pensam a antiga Roma não era um antro de maldade e corrupção e nem todos os imperadores eram monstros perversos e devassos como Nero e Calígula. Na verdade estes foram exceção, pois a grande maioria foi de homens sérios e dedicados à causa pública, que trabalharam com zelo, competência e bravura pelo progresso e bem-estar do Império. Infelizmente as imagens que melhor se fixaram na memória popular foram as de uns poucos imperadores criminosos e depravados que anarquizaram a administração, quebraram o Estado e tornaram-se a vergonha do gênero humano. Entre estes um dos piores foi Heliogábalo, não tanto por seus crimes, mas por sua devassidão que chega a ser cômica.

Seu verdadeiro nome era Sextus Avitus Bassianus e pertencia a mais alta aristocracia romana, pois nasceu sobrinho do imperador Septimius Severus e primo do futuro imperador Caracala, mas sua riquíssima família tinha origem na Síria e ele próprio nascera na grande cidade síria de Emesa, hoje Homs, no final do ano de 203 DC. Ainda menino, o ouro dos seus pais o fez grande sacerdote do deus sol, venerado na cidade sob o nome de “El Agaballus”, mais tarde latinizado como Heliogabalus. Esta latinização rendeu ao seu jovem sacerdote o apelido que os romanos lhe deram ao tornar-se imperador.

A família de Heliogábalo era bilionária e a peso de ouro o fez ainda menino grande sacerdote
do deus sol da cidade de Emesa, na Síria, onde tinha seus domínios.

Em 217 DC o seu primo imperador Caracala foi assassinado e o general Macrinus tomou posse do trono. Uma das suas primeiras medidas foi mandar de volta à Síria a velha bilionária Julia Maesa, tia de Caracala e avó de Heliogábalo. Fria, astuta, decidida e cruel, fez Macrinus arrepender-se amargamente de não tê-la executado assim que chegara ao poder, pois com sacos de ouro fez a legião local aclamar novo imperador o seu neto adolescente Heliogábalo de apenas 14 anos de idade. Sempre usando o ouro como principal arma, ela comprou o apoio das demais legiões vindas para sufocar a rebelião e sem demora avançou sobre Roma. Isto fez Macrinus se por à frente de poderoso exército para esmagar os rebeldes, mas na batalha que se seguiu foi derrotado porque a astuta Júlia Maesa subornara suas tropas e estas o abandonaram no momento decisivo. Ele conseguiu escapar, mas foi preso e executado quando tentava chegar a Roma.

Ainda um adolescente, Heliogábalo viu-se senhor do mundo, podendo-se dizer sem ironia que foi a única vez na História que uma avó comprou um império para dá-lo de presente ao neto. Claro que o principal objetivo de Júlia Maesa não era presentear o neto, por mais querido que ele fosse, mas recuperar o poder que tivera nos reinados do seu cunhado Severus e do seu sobrinho Caracala. Julgou que isso ocorreria quando Heliogábalo trocasse a toga sacerdotal pela toga imperial, mas decepcionou-se ao ver que ele era ingovernável e pouco influiria no seu reinado, exatamente o que mais trabalho, perigo e ouro lhe custara.

Logo no início, desprezando os conselhos da avó e da mãe, ele trouxe de Emesa para Roma o deus estrangeiro de que era sacerdote e o entronizou no Panteon no lugar de Júpiter, dando-lhe proeminência sobre os deuses nacionais romanos. Isto chocou os conservadores, sobretudo porque o novo “rei dos deuses” não tinha forma humana, pois era um enorme meteoro negro caído na terra há milhões de anos. O povo também se mostrou descontente, mas ele o conquistou com farta comida e boa bebida distribuídas de graça nos freqüentes festivais que logo tratou de promover ao seu deus. Nestes festivais punha a enorme pedra coberta de jóias em cima de um carro puxado por cavalos brancos e desfilava em trajes riquíssimos sentado de costas em um trono elevado com o olhar fixo no deus. Para completar a maluquice, o suntuoso cortejo ia pelas ruas de Roma precedido por dezenas de escravos que polvilhavam o caminho com ouro em pó.

Na procissão do deus sol Heliogábalo fazia todo o percurso sentado de costas e com o olhar fixo em seu
deus enquanto escravos iam à frente dos cavalos polvilhando o caminho com ouro em pó

A absurda extravagância escandalizou os que ainda tinham alguma consciência porque só um louco jogaria ouro fora. Com razão, diziam que um imperador dotado de mínima sensatez o aplicaria em obras públicas, dando emprego à multidão de desocupados que vivia à custa da caridade do Tesouro e infestava Roma de miséria, crime e sujeira. Mas o povo e o exército, satisfeitos com a prodigalidade do adolescente enlouquecido pelo poder absoluto, não deram ouvidos às vozes sensatas e Heliogábalo desembestou em extravagâncias cada vez maiores, sobretudo de natureza sexual.

Assim que chegara a Roma, sua família lhe arranjara um casamento de interesse, mas em poucos meses se cansou da esposa e trocou-a por uma vestal por quem se apaixonara ao vê-la durante cerimônia religiosa. As vestais eram jovens das altas classes sociais munidas de deveres sacerdotais e obrigadas a conservarem-se virgens por 30 anos sob pena de morte. Elas só saiam de sua reclusão para renderem cultos aos deuses e foi num desses que Heliogábalo a viu e mandou trazê-la à força para o palácio, onde a desposou. O escândalo foi imenso e houve protestos em toda parte, inclusive no senado, onde acusações foram oficialmente feitas contra o sacrílego imperador, mas calaram após vários dos mais notórios acusadores serem presos e executados.

O sacrílego e devasso imperador de apenas 15 anos de idade repudia
publicamente a esposa para casar-se com a vestal que raptara

Em rápida sucessão, casou e descasou cinco vezes antes de completar 18 anos, mas tudo seria suportado pelo exército e pelo povo se ele tivesse dedicado um mínimo do seu tempo às suas obrigações militares e administrativas, limitando sua desenfreada devassidão apenas às mulheres. Mas não foi assim. Como se estivesse possuído por frenesi erótico, transferiu as obrigações do seu cargo a cortesões despreparados e corruptos, que cuidaram de enriquecer rapidamente enquanto o caos reinava, e dedicou-se de corpo e alma a todos os vícios e prazeres possíveis e imagináveis com escravos, soldados, gladiadores e toda espécie de homens da mais alta a mais baixa posição social. Para ter o máximo de parceiros em uma única noite, recrutou prostitutos nas ruas e instituiu campeonato onde o vencedor seria aquele que atraísse mais fregueses. Para o “jogo”, criou réplica de ruela da zona do meretrício em ala do palácio que dava para a via pública e cada um dos contendores ficava na entrada do seu quarto em vestes femininas provocantes, fazendo gestos obscenos, abanando a cortina e tocando o sininho das meretrizes para chamar a atenção dos passantes, como elas faziam. No fim da noite se apurava quantos fregueses cada um tivera e quanto ganhara, aclamando-se o vencedor e dando-lhe o prêmio combinado. Heliogábalo quase sempre ganhava, donde a suspeita de que seus agentes lhe traziam fregueses já previamente acertados.   

Como se apenas a prática desenfreada da sodomia não lhe bastasse, passou a vestir-se, depilar-se e pintar-se como mulher. Também passou a adotar voz e trejeitos femininos da forma mais escandalosa possível e a referir-se ao seu amante Hiérocles, o belo cocheiro louro de sua carruagem, como seu “imperador e marido”, exigindo aos demais que tratassem a si próprio como sua “imperatriz e esposa”. Por fim, fez público oferecimento de enorme soma ao médico hábil e talentoso que conseguisse lhe implantar órgãos sexuais femininos a fim de que melhor pudesse cumprir suas obrigações de “esposa” para com o seu adorado "marido" Hiérocles. Alguns historiadores dizem que a cirurgia foi tentada, mas dela resultou apenas a amputação dos seus órgãos masculinos, falhando na criação de um simulacro de vagina, porém é duvidoso que isso tenha realmente ocorrido. É possível que nos dias atuais Heliogábalo fosse visto apenas como “travesti” ou “transexual”, todavia os romanos eram menos sutis e passaram a vê-lo como aberração que precisava urgentemente ser amputada do corpo do império antes que o gangrenasse.

Ao mesmo tempo em que se entregava a luxuria mais louca, Heliogábalo exercia tirania brutal, ordenando não só a prisão e o exílio dos desafetos dos seus capangas, mas também a tortura e a execução dos que criticassem o seu desvairado comportamento, mesmo que fossem membros da mais alta aristocracia romana. Vários escaparam por serem amigos e protegidos de sua mãe ou da sua avó, mas a maioria tombou sob o seu cutelo e sinistro silêncio pairou sobre a cidade apavorada pela onda de terror, que não se detinha diante de nada e nada poupava. Nem mesmo as festas populares, que ele constantemente promovia em honra do deus sol, com distribuição de comidas e bebidas grátis, disfarçava o opressivo ambiente, mas ele não se importava e passava  os dias e as noites em frenéticos festins e bacanais, como se a vida se resumisse a uma permanente e alucinada orgia.

Heliogábalo passava quase todo tempo em frenéticos festins onde fazia cair do
teto chuvas de rosas sobre os convidados

As conspirações pululavam e somente o exército, a quem dava ótimas gratificações, o mantinha no poder, sobretudo porque a sodomia era comum entre as tropas e estas a aceitavam sem restrições se o sodomita fosse “macho”, cumprindo bem o seu dever na hora do combate. Todos os imperadores sob cujas ordens os militares tinham servido nos últimos 80 anos eram homens másculos e corajosos, mesmo quando outras virtudes lhes faltavam, mas agora viam com acerto que este não era o caso de Heliogábalo, efeminado ao extremo. Ademais, a tolerância dos militares com a sodomia cessava quando o sodomita deixava de ser “macho” e agia como “mulherzinha”, semeando o ridículo ao seu redor e fazendo os seus camaradas duvidarem da sua coragem e do seu valor combativo.

Comportamentos efeminados não eram tolerados pelo exército em nenhum soldado e muito menos em um imperador, por isso sua situação política se tornou dificílima após o seu público oferecimento de alta soma ao médico que lhe implantasse uma vagina. Com a irritação a flor da pele, os soldados se indagavam mutuamente sobre o que aconteceria caso tivessem que marchar para a guerra sob o comando de tal líder e começaram a conspirar. Porém, mesmo com a conspiração em andamento, o ouro que o ridículo monarca lhes dava em abundância os manteve quietos e nada aconteceria se não fosse por um dos mais inusitados fatos da história: Heliogábalo brigou com Hiérocles e para lhe fazer ciúme “casou” vestido de noiva em cerimônia pública com o seu camareiro e também amante, o atleta de circo Aurélio Zótico!

Através do seu bom serviço de informações, a velha bilionária Julia Maesa soube da conspiração e viu que após mais este escândalo o reinado do seu neto sodomita estava por um fio. Ela fora a única mulher na história do Império a ser eleita para o Senado logo que entrara triunfante em Roma com o neto recém proclamado imperador, mas ao contrário das suas expectativas ela pouco ou nada influíra no governo porque não havia sobre o que influir. Após passar as rédeas da administração para a sua desqualificada corja de infames bajuladores, Heliogábalo dedicou-se exclusivamente às maluquices religiosas e perversões eróticas, fazendo com que o governo imperial virasse ridícula ficção. A política desapareceu e os corruptos novos donos do poder, cientes de que o imperador queria distância da mãe e da avó, com as quais ficara furioso quando elas tentaram incutir-lhe alguma disciplina e responsabilidade, não deram às duas mulheres nenhuma atenção nem lhes permitiram intromissões nas suas atividades, dirigidas tão somente ao próprio enriquecimento. Assim, não sobrou nenhuma área onde a politiqueira Júlia Maesa pudesse influir. Ela ficou profundamente ofendida e indignada, passando a odiar o neto ingrato e a querer dele vingar-se, mas como não queria que o trono imperial saísse da posse da família no caso de queda do imperador reinante, fez sua filha Júlia Soêmia, mãe de Heliogábalo, conseguir dele, em nome dos interesses da família, nomear seu primo mais novo Alexandre Severo co-imperador e sucessor. Ele tinha apenas 13 anos e Heliogábalo mal o conhecia, por isso, ocupado com suas degradantes bacanais e fantásticos festins, não deu maior atenção ao caso e nomeou o primo por não ver nisso qualquer perigo, mas logo espiões o informaram de que ele agora tinha ao lado do trono não um menino tolo, incapaz de lhe fazer sombra, mas um jovem sério e decente, muito estimado e respeitado pelo povo e pelo exército.

Mergulhado em suntuosos festins e luxuosas bacanais, Heliogábalo custou a
perceber a armadilha que a sua implacável avó lhe preparava

Heliogábalo despertou do seu torpor orgiático e suspeitando que a implacável Júlia Maesa planejava vingar-se das ofensas sofridas, tirando-o do trono onde o pusera e substituindo-o pelo outro neto, mandou os seus vis capangas matarem o adolescente Alexandre, mas agindo com cuidado para não comprometê-lo. Porém a avó, já prevendo que isso poderia acontecer, o protegera com verdadeiro exército de guarda-costas e o atentado falhou. Desesperado com o fracasso, tirou a máscara e demitiu o primo, anulando todos os títulos e privilégios que lhe concedera. Isto tornou evidente ao povo e aos militares que ele invejava e odiava o querido príncipe, podendo matá-lo a qualquer momento. A astuta velha viu que o geral sentimento era favorável ao seu segundo neto e contra-atacou fazendo circular o boato de que o desprezível monarca o assassinara traiçoeiramente. O boato foi desmentido, mas o exército rebelou-se exigindo que o torpe imperador apresentasse às tropas Alexandre são e salvo para verem com seus próprios olhos que Heliogábalo ainda tinha um mínimo de dignidade e não estava mentindo.

Tudo indica que isso foi um estratagema de Julia Maesa para neutralizar a poderosa guarda imperial que a peso de ouro protegia o repulsivo tirano dia e noite, pois sua entrada no quartel não seria permitida e se entrasse seria cercada e desarmada pelos legionários, já devidamente subornados e instruídos. Assim, como previamente acertado, na manhã de 11 de março de 222 DC as comitivas de Heliogábalo e de Alexandre encontraram-se na entrada do quartel da legião e eles foram autorizados a entrar seguidos apenas de familiares e assessores, ficando de fora os guardas de ambos. Heliogábalo viera com a sua mãe e Alexandre estava não só com a sua mas também com a avó que planejara o Golpe.

No pátio fora montada uma tribuna em frente ao gabinete do general e os dois jovens nela subiram sozinhos para discursarem. Heliogábalo falou primeiro e o seu discurso foi ouvido do início ao fim em profundo silêncio, mas quando Alexandre começou a falar a soldadesca o aclamou delirantemente novo imperador, erguendo as lanças e com elas batendo nos seus escudos. Heliogábalo desceu da tribuna às pressas e trancou-se com sua mãe na anexa sala do comando onde solicitou proteção ao general, seu principal sustentáculo até pouco tempo atrás. Este estava tão envolvido no golpe quanto os outros oficiais, mas teve pena do jovem pervertido e disse-lhe que devido à fúria dos soldados o único modo dele sair vivo dali era dentro de um baú que seria levado para local de sua escolha. Depois fugiria para onde quisesse. Em meio aos festejos da aclamação de Alexandre, todos esqueceram o refugiado Heliogábalo e horas depois, quando o novo imperador já fora levado em triunfo para o palácio imperial, carroça transportando pesado baú e uma rica senhora envolta em véus saiu do quartel por uma porta lateral e rodou pelas ruas desertas, pois quase todos tinham ido ao centro da cidade festejar o início do novo reinado.

Heliogábalo tinha apenas 18 anos quando foi deposto e morto pelos soldados revoltados. Após
cortarem-lhe a cabeça, seu cadáver foi jogado no rio Tibre para ser comido pelos peixes
   
Heliogábalo teria escapado de fim tão sórdido quanto foi a sua vida se não fosse o acaso, pois a carroça topou com soldados bêbados que voltavam das festas e eles resolveram saquear o grande baú da “rica senhora”. Quando o abriram, viram com surpresa que lá estava todo encolhido e implorando piedade o outrora “senhor do mundo”. Os brutais soldados o espancaram cruelmente e quando Júlia Soêmia interveio, abraçando-se com o filho para defendê-lo, também a espancaram e mataram os dois a punhaladas, cortando-lhes as cabeças e espetando-as em lanças perante a multidão que se juntara para assistir o tétrico espetáculo. A turba depois arrastou o cadáver mutilado do decaído imperador pelas ruas até o rio Tibre onde foi jogado para ser comido pelos peixes, mas respeitou o cadáver da sua mãe. Heliogábalo viveu apenas 18 anos e reinou somente 4, mas foram os 4 anos de mais completa anarquia, surrealista loucura e frenética luxúria que o mundo já vira.

Parece que a morte cruel da filha e do neto não estava nos planos da dura Júlia Maesa e que o ardil para tirá-lo vivo do quartel fora previamente combinado entre ela e o general comandante, mas o acaso interveio e deu-se a tragédia. De qualquer modo, tenha ou não sido de sua autoria o fracassado plano de fuga, ela pôs de lado lágrimas e lamentações e tratou de concluir a sua obra, executando todos os amantes e capangas do neto ingrato que a tinham tratado com desdém, entre os quais os notórios sodomitas Hiérocles e Zótico, “marido” do caricato governante. Embora tendo de fazer algumas concessões à "nova ordem", entre as quais renunciar ao Senado onde sempre fora vedada a presença de mulheres, ela manobrou habilmente e voltou a ter mais poder do que jamais tivera antes. Com maestria, superou todos os obstáculos em seu caminho e, terminada a faxina, resolutamente dirigiu os primeiros passos de Alexandre na chefia do império, tornando-se o centro do poder, objetivo que não lograra atingir com Heliogábalo. Para sorte de Roma, seus interesses resumiam-se à micro-política, tipo troca de favores, distribuição de cargos, nomeações, demissões, promoções, remoções, obras públicas pedidas por compadres, e por aí vai. Após dar bons assessores a Alexandre, ela deixou nas mãos deles matérias complexas, como legislação, reforma do Estado, organização militar, estrutura provincial, finanças públicas e relações exteriores, para dedicar-se apenas à politiquice miúda de que tanto gostava e que exerceu até a sua morte alguns anos depois. Isto permitiu ao jovem imperador familiarizar-se com a alta política e cercar-se de ministros corretos e capazes que o ajudaram a reconstruir os abalados alicerces da sociedade e do império.

O virtuoso imperador Alexandre Severo orando e queimando incenso
diante do altar dos deuses


Simples, sério, culto e operoso, Alexandre Severo prezava a generosidade, a virtude e a justiça, mandando colocar no pórtico do palácio imperial o seguinte mandamento em letras bem visíveis: "Fazei aos outros aquilo que quiserdes que vos façam". Apesar de lhe faltarem qualidades de liderança e de não ter talento militar, ele era justo, leal e corajoso, por isso manteve a afeição do povo e o respeito do exército. Com exemplar honestidade e correta moderação, ele conseguiu dar aos romanos decente reinado de paz e prosperidade, em notável contraponto ao tirânico e infame reinado do seu primo Heliogábalo, o pior, o mais escandaloso e o mais imoral que Roma teve em toda a sua história.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Post 83

UTHER  -  "O  SENHOR  DOS  DRAGÕES"  TORNA-SE  DITADOR  DA  BRITANNIA


Dizia a lenda que em seu castelo nas montanhas de Cornwall o príncipe Uther criava e domava dragões


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Eis como o frade Gildasius Pisanensis relata em seu manuscrito medieval recentemente descoberto a ascensão de Uther a ditador da Britannia no século V DC.

Os britons foram apanhados de surpresa quando a muralha de Adriano foi atravessada e todo o norte do reino ocupado em menos de duas semanas pelos caledônios. Arthur contra-atacou em grave desvantagem, pois o adversário o superava em quase o dobro. O resultado é que embora não tivesse derrotas também não tinha vitórias e suas tropas sangraram durante todo o verão no que parecia ser um cruel empate. Porém os invasores vendo que não teriam nenhuma vitória resolveram se retirar, mas Arthur os perseguiu e foi gravemente ferido, sendo removido às pressas para a capital onde ficou entre a vida e a morte sob os cuidados médicos de Merlin durante todo o outono.

Uther veio com o irmão assim que soube do estado do filho e me indagou como fora possível o desastre, já que Arthur era um general brilhante e nunca sofrera derrotas. Eu lhe expliquei que a causa era simples: grave inferioridade numérica do exército para enfrentar um inimigo que agora agia com disciplina e inteligência.

Procurou saber as causas da inferioridade e eu lhe expliquei que além dos orientais há muito tempo terem deixado de se alistar, agora os ocidentais também não o faziam, seja por julgarem a profissão militar demasiado arriscada devido às matanças anteriores, seja porque os salários eram baixos e não atraiam ninguém. Uther, que estava acompanhado de Corciari, respondeu que o remédio seria dobrar os salários, mas eu lhe disse que não havia recursos para isso. Ele então me pediu para olhar as contas do tesouro e viu abismado que apesar do leste ser dez vezes mais rico que o oeste, contribuía apenas três vezes mais. Quis ver então os registros das contribuições dos cem senhores mais ricos do leste e constatou assombrado que enquanto eles eram em média cinco vezes mais ricos do que os senhores do oeste, estes pagavam o dobro. Expliquei-lhe que isto se devia ao fato do imposto ser cobrado em função da extensão das propriedades e não em função do seu valor ou da riqueza por elas geradas. Como as propriedades do oeste eram muito mais extensas, embora muito menos valiosas e produtivas devido à escassez de população e atraso econômico, gerava-se o descompasso. Uther ficou indignado porque julgava corretamente dever o imposto ser cobrado em função da riqueza, vez que os ricos eram os que mais gozavam da proteção dada pelo estado aos cidadãos. Sem ela suas riquezas nada valiam.

Enquanto examinava atentamente os registros com Corciari, ele me mandou chamar Kay para uma urgente reunião e o general veio ansioso para saber do que se tratava. Sendo homem do oeste ele também ficou indignado ao saber que seu pai, um médio proprietário, pagava tanto imposto quanto um riquíssimo senhor do leste e aí estava a razão da pobreza do reino e do exército.

No Oeste o poder de Uther era absoluto e todos lhe pagavam tributo, mas no Leste ele era desconhecido
e teve de agir com dureza para impor sua autoridade 

Uther expôs seu plano sob o olhar frio de Corciari, a expressão prazerosa de Kay e o terror do meu rosto. Dos cem contribuintes mais ricos do leste, cinqüenta e oito moravam na capital e todos foram presos ao amanhecer pelos soldados de Kay, levados a um vasto salão no palácio e obrigados a sentar em cadeiras enfileiradas em frente a uma mesa atrás da qual eu me sentava como se fosse presidir à assembléia. Enquanto eu ouvia calado o insulto dos orgulhosos proprietários furiosos com “a afronta”, duas dezenas de guardas de Uther entraram no salão e o chefe mandou se calarem; como não foi obedecido, bateu violentamente com o cabo da lança no rosto de um dos arrogantes falastrões jogando-o ao chão ensangüentado; depois lhe encostou a ponta da lança no peito e ordenou: “Agora se levante, sente-se e cale-se antes que eu o mate”! Foi o bastante para que a arrogância sumisse e o silêncio reinasse.

Às oito horas não faltava mais ninguém e Uther entrou solenemente no salão acompanhado de Kay e Corciari. Falou firme e polidamente, expondo a grave situação da ilha e a injustiça do sistema tributário vigorante: “Apesar dos senhores do leste serem em média cinco vezes mais ricos que os do oeste, pagam apenas a metade do que eles pagam; isto é intolerável e vai ser corrigido agora mesmo, não só para o presente e o futuro como para o passado, pois vocês terão que pagar o que por justiça deveriam ter pago antes. Como sou homem justo e bondoso, vou lhes cobrar só o devido nos últimos cinco anos sem juros e multas, lhes perdoando generosamente os débitos anteriores”!

Depois leu pausadamente a lista com os cem nomes e as importâncias que deveriam pagar. Quando acabou a leitura houve um momento de estupor e um dos presentes levantou-se e protestou indignado, dizendo que aquilo era um ultraje e não ficaria sem resposta. Quase imperceptivelmente Uther sacou do punhal e o atirou bem no coração do rebelde. O homem fez uma careta segurando o cabo da arma cravada no seu peito e caiu pesadamente no chão sob os olhares horrorizados dos demais. Friamente Uther ordenou que os guardas arrastassem o morto até ele, levantou sua cabeça pelos cabelos e a decepou com um só golpe de espada. Depois exibiu o sangrento troféu à platéia, e pondo-o num dos lados da mesa disse-me bem alto para que todos ouvissem: “Prepare um decreto confiscando os bens desse mau pagador de impostos”!

Eu sabia que na conformidade do plano que ele nos expusera no dia anterior um dos presentes morreria para dar o exemplo caso houvesse protestos, mas não disse que além de matá-lo também lhe cortaria a cabeça e a poria ao meu lado na mesa. Tentei disfarçar o meu pavor e tremedeira pegando um papel e fingindo escrever, pois não conseguia formar palavras coerentes, mas mantive a cabeça baixa com se estivesse cumprindo suas ordens enquanto ele dizia aos apatetados ouvintes: “Vocês têm até amanhã ao meio dia para pagarem os impostos exigidos; depois disso os que não pagarem serão executados e terão seus bens confiscados. O secretário Gildásio lhes fornecerá papel e tinta para escreverem aos seus familiares e administradores ordenando-lhes trazerem o dinheiro devido. Logo que pagarem ficarão livres para voltarem em paz às suas casas. Tenham um bom dia”!

Em seguida ordenou aos guardas que entregassem o corpo do falecido aos familiares, mas determinou que a cabeça dele ficaria ao meu lado na mesa até que todos pagassem ou fossem também executados. Em seguida retirou-se com Kay e Corciari, deixando-me sozinho na companhia dos guardas, dos “contribuintes” e da cabeça do arrogante proprietário. Quando a noite caiu quatro quintos dos presentes já tinham pago o que deviam e voltado às suas casas, mas os onze restantes tiveram dificuldades para levantar a soma em moeda sonante e dormiram no assoalho do tétrico salão em companhia da horrenda cabeça que os contemplava.

Passei uma noite horrível, mas voltei ao amanhecer e por volta das onze horas o último dos aflitos “contribuintes” pagou seu débito e foi liberado. Uther conferiu comigo e Corciari a vasta soma obtida e depois mandou fincar a cabeça do morto em estaca na praça central com uma tabuleta onde se lia: “Este é um homem rico que não quis pagar impostos”!

Com Arthur impossibilitado de governar pelos graves ferimentos sofridos em batalha, Uther assumiu
o poder como ditador e restaurou a ordem na Britannia

Logo após a reunião do dia anterior ele tomara uma série de medidas. A primeira fora chamar o bispo e lhe ordenar que tocasse os sinos convocando o povo para missas em ação de graças pela morte no nascedouro de uma “conspiração” de ricos aristocratas que não queriam pagar os impostos que deviam à coroa. Na mesma ocasião determinou que fosse lida do púlpito uma declaração sua dizendo que após sufocar a “rebelião” assumira o governo e nele permaneceria até que tudo se normalizasse e o rei reassumisse. Dizia também que a antiga política de jogar a quase totalidade dos tributos nas costas do povo através do expediente de embuti-los nos preços das mercadorias seria radicalmente mudada: a partir de agora tais impostos seriam cortados pela metade e os ricos teriam que pagar dez vezes mais do que pagavam antes, já que eles eram os principais beneficiários da proteção que o estado e o exército davam às suas propriedades. Concluía dizendo que o tempo dos absurdos privilégios tinha acabado e doravante o rei governaria diretamente com o povo sem a intermediação de aristocratas estúpidos e gananciosos.

O bispo quis recusar por ser ligadíssimo aos nobres locais, mas Uther lhe indagou se ele preferia ver igrejas incendiadas e cristãos martirizados pelos bárbaros pagãos que ameaçavam o reino por todos os lados e o bom sacerdote viu que ele tinha razão, pois as perspectivas não eram nada animadoras. Por isso fez tudo que lhe foi ordenado e os sinos repicaram enquanto eloqüentes sermões eram feitos em apoio do governo e das justas medidas adotadas para sufocar a “rebelião”. Pode parecer estranho a um homem culto dotado de sensibilidade, mas o fato é que o povo ao invés de ficar apavorado com as façanhas do Senhor dos Dragões as comemorou cantando e dançando nas ruas, sobretudo na praça central onde estava a cabeça do nobre recalcitrante fincada em uma estaca.

O povo sempre se regozija com a desgraça dos ricos e poderosos.

Uther governou dois meses e meio como ditador e além de recuperar as finanças e dobrar os salários do exército fez também importantes modificações administrativas. Embora tenha me conservado como segundo homem do governo tirou da minha órbita o fisco e o serviço secreto, pondo-os aos cuidados de Corciari, que passou a trabalhar ao meu lado com o título de censor do reino.

Quando Arthur reassumiu, o governo estava em ordem, o exército aumentava seus efetivos, a ilha prosperava, o povo estava satisfeito e O Senhor dos Dragões era o homem mais popular da Britannia.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Post nº 82

AS  GRANDES  POETISAS  GREGAS  DA  ANTIGUIDADE

Safo ouve embevecida o poeta Alceu dando recital na Academia Poética só para mulheres que ela
fundou em Lesbos. Homens só entravam quando especialmente convidados


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Uma das características mais extraordinárias do “Milagre Grego” foi o relevante papel dado às mulheres nas atividades culturais da sociedade. Isto é tanto mais surpreendente quando sabemos que as sociedades orientais nunca lhes permitiram participar de sua vida cultural e ainda hoje algumas delas sequer lhes permitem acesso à educação. Desse absurdo não escapou a nossa moderna sociedade até tempos bastante recentes e embora sempre lhes tenhamos permitido acesso à educação primária e média, os portões das universidades para elas ficaram fechados até o século XIX, quando só então algumas escolas superiores na Suíça e nos Estados Unidos timidamente começaram a admiti-las. Mas foi só no século XX que a admissão se tornou geral e as mulheres voltaram a ter na sociedade a mesma atuação intelectual que tiveram há 2.500 anos na Grécia antiga.

Esta se dava em todos os campos do intelecto, mas foi na literatura que ela atingiu o seu ponto mais alto, dando-nos poetisas que até hoje nos maravilham com a alta qualidade dos seus poemas. Infelizmente nenhum deles nos chegou completo e tudo que temos são fragmentos, mas, reforçados por citações de autores da época, eles nos dão boa ideia do alto valor literário da obra das poetisas gregas. Não temos versos de todas elas e nem mesmo sabemos quantas foram, mas entre os poemas da época feitos por homens para homenageá-las está o elegante epigrama de Antípater da Tessália:

“A estas donzelas de falar divino nutriam de cantos Helicon e Pieria, rocha macedônia: Praxila, Miro e Anita iguais a Homero; Safo, honra da Lésbia, de cabelos longos; Erina e a nobre Telesila, e tu, Corina, que ousaste cantar a égide de Palas; e Nossis, de voz feminina, e Mírtis de suave voz, todas criadoras de carmes imortais. As nove musas são filhas de vasto céu; filhas da terra são estas nove, para eterno júbilo dos homens.”

O autor enumera só nove poetisas, chamando-as de musas terrenas, para igualar seu número ao das nove musas celestes, mas sabemos que houve outras, entre as quais Damófila, Megalóstrata, Clitágoras e Femaon. Desta última sabemos apenas que viveu na época de Safo, foi sacerdotisa de Apolo e inventou o verso hexâmetro, adotado pelos poetas gregos Eumolpo, Orfeu e Lino e usado até hoje por poetas de vários matizes, sobretudo os populares, por ser talhado para a poesia oral através da qual era feita a profecia. Os oráculos, portanto, eram apresentados aos consulentes em versos e a sacerdotisa Femaon ficou famosa ao fazê-lo no verso hexâmetro por ela inventado que encantava a vasta audiência presente às cerimônias divinatórias. Das outras poetisas não sabemos quase nada e do pouco que sabemos é impossível distinguir o verdadeiro do lendário.

Para o esquecimento da obra das poetisas gregas foi decisivo o advento do Cristianismo porque todos os textos religiosos e filosóficos importantes eram escritos no dialeto ático de Atenas. Esta não fornecia poetisas e todas elas eram de outras regiões da Grécia onde predominavam os dialetos eólico e dórico nos quais escreviam. Ambos são difíceis e aos poucos tornaram-se pouco lidos, fazendo com que os copistas fossem parando de reproduzi-los a partir do século IV DC. A falta de reprodução fez com que as obras em eólico e dórico desparecessem lentamente das bibliotecas por desastres ocasionais e ação do tempo. Para completar, no século XI DC a Igreja promoveu uma "caça às bruxas" e as obras de Safo foram banidas das bibliotecas e queimadas em público por serem "imorais". O resultado de tantas adversidades foi que poucas das suas obras, assim como das demais poetisas gregas, chegaram até nós. Porém o atual aprofundamento das pesquisas tem descoberto muitas raridades e recentemente surgiram seis poemas de Safo quase completos. Graças a isso hoje podemos dizer que ela era de fato genial, assim como também devem ter sido as suas colegas famosas cujas obras ainda permanecem desaparecidas. Passemos uma rápida vista d'olhos sobre algumas grandes poetisas gregas a começar por Safo, a mais famosa de todas. 

Safo


Safo e uma amiga no jardim da sua Academia Poética em Lesbos. O fato da academia ser exclusiva
para mulheres originou no puritano século XIX o mito da sua homossexualidade

Safo viveu no final do século VII AC e dela temos o maior número de fragmentos apesar de ser a mais antiga. São cerca de 200 e sabemos que era uma rica aristocrata da cidade de Mitilene na ilha de Lesbos, foi casada com o nobre Cercila e teve uma filha chamada Cleide. Alguns a descrevem como de boa estatura, belas feições e cabelos violeta e outros como baixinha, feições comuns e cabelos negros. As esculturas e pinturas de vasos do século V que chegaram até nós, feitas não muito depois da sua morte e que devem ter se baseado em imagens suas mais antigas, ainda existentes na época, adotam a primeira descrição, donde concluirmos que deve ser a mais fiel, pois uma mulher não poderia despertar as paixões que despertou se não possuísse beleza física e uma voz bonita e sedutora, condições básicas para a celebridade numa sociedade fortemente auditiva e visual como a grega, onde predominavam altíssimos padrões estéticos. Sabe-se que ela criou uma Academia em seu palácio para reunir as poetisas de Lesbos e de regiões próximas, onde homens só entravam raramente, como era o caso do seu amigo o poeta Alceu, de quem se diz ter sido amante e que era às vezes convidado para fazer palestras, recitar poemas e porfiar ao som da lira com Safo e outras poetisas da seleta audiência. Isto criou a infundada crença na Europa do século XIX de que ela fora uma educadora que possuía ou dirigia um colégio para moças, atividade feminina altamente aceitável e muito bem adequada aos puritanos padrões da Inglaterra vitoriana.

Safo antes de se suicidar abraçando a sua lira no alto de um rochedo
sobre o mar em sua ilha natal de Lesbos

Parece que foi o fato da sua Academia admitir somente mulheres e nela ser rara a presença de homens, o que deu origem ao mito da sua bissexualidade. O inusitado para os padrões gregos de uma academia literária exclusivamente feminina, acrescida de dubiedades em seus versos achadas pelos lexicógrafos e exegetas do século XIX, despertou suspeita e originou o mito da sua perversão sexual. Na puritana Europa Vitoriana o mito logo se tornou verdade e adotou-se Lesbos, terra natal de Safo, como base semântica para a criação dos termos lésbica e lesbianismo, com os quais se passou a designar a homossexualidade feminina. Dizemos mito porque nenhum autor antigo conhecido refere-se ao assunto, porém isso talvez se deva ao fato do homossexualismo entre os gregos ser comum e não haver maiores razões para mencioná-lo no caso de Safo ou de qualquer outra pessoa, célebre ou não. De qualquer modo, diz a lenda que a grande poetisa amou apaixonadamente vários homens, tendo o último, o barqueiro Faon, causado-lhe a morte ao abandoná-la quando já era mulher madura. Deprimida com o desprezo do amante, ela teria se suicidado jogando-se ao mar do alto de um rochedo em sua ilha natal.

Safo, reprodução romana de escultura grega do século 5º AC. Esta é talvez
a imagem mais fiel e autêntica que temos da grande poetisa

Há também a versão de que ela morreu idosa de morte natural e para isso alguns baseiam-se em fragmento de poema onde a poetisa lamenta a velhice que traz rugas, branqueia os cabelos e torna difícil amar, porém há sérias indicações de que se trata apenas de uma antecipação do que lhe acontecerá no futuro ao ver o surgimento dos primeiros cabelos brancos, coisa que em muitos ocorre na casa dos trinta anos, e não de um lamento pelo estado em que já se encontra. Entre as duas versões, preferimos a primeira, pois está muito mais de acordo com o caráter apaixonado de Safo, capaz de todas as loucuras por amor.   

Cercada por suas discípulas em pé, Safo sentada lê seus poemas para elas - Vaso grego do século 5º AC 

Seja pelo seu fim trágico, bem ao gosto dos gregos da época, seja por sua beleza física ou pelo notável valor da sua obra, Safo virou tema de peças teatrais dramáticas e cômicas de vários autores, dentre eles destacando-se os poetas cômicos Difilo de Sínope, Antífenes de Rodes e Tímocles de Atenas. Em seguida vieram os epicuristas promovendo-a a membro do seu grupo através de narrativas sobre o prazer onde ela é o personagem central 300 anos após a sua morte. Os epicuristas, portanto, foram os principais responsáveis pela ligação do nome de Safo a temas escandalosos, como é o caso da sua exacerbada bissexualidade.

Mas eles talvez não tenham exagerado e sido fiéis à verdade, pois nos séculos III e II AC, época do fastígio da Escola Epicurista, a grande fama de Safo continuava viva e a sua popularíssima obra certamente ainda estava completa, nada mais fazendo os epicuristas do que constatar o seu alto grau de paixão e erotismo, bem de acordo com uma filosofia que punha o prazer material e espiritual acima de tudo. Caso tenha sido assim, divulgar a obra de Safo por todos os meios ao seu alcance teria sido apenas a atitude correta a adotar do seu ponto de vista literário e filosófico.      

Corina

Detalhe de estátua de Corina destacando seu belo rosto

Depois de Safo, a poetisa grega mais conhecida pelo valor literário dos seus versos é Corina, filha do aristocrático casal Apolodoro e Procrácia. Ela nasceu e viveu no final do século VI AC em Tanagra, que lhe ergueu bela estátua para homenageá-la pelos “invejados ramos sobre as negras tranças”, referindo-se às coroas de louros por ela ganhas em cinco Olimpíadas poéticas nas quais derrotou o grande poeta Píndaro, seu rival e colega na Academia da poetisa Mírtis, da qual só sabemos que nasceu em Antédon na Beócia.

Píndaro foi um dos maiores poetas da antiguidade e por isso alguns dizem que ele só foi
derrotado por Corina porque a grande beleza dela influenciava os juízes

Píndaro era brigão e mau perdedor, tendo insultado Corina chamando-a de “porca” após uma de suas derrotas, mas esta não lhe deu resposta e até censurou Mirtes por fazê-lo nesta ou em outra ocasião, como diz em um dos seus fragmentos: “Eu censuro a harmoniosa Mirtes, e censuro por, mulher que era, ter entrado em disputa com Píndaro”. Para a gentil Corina não era apropriado a uma dama brigar com homens nem baixar o nível de competições poéticas ao nível de disputas pessoais. Todavia, dado a alta qualidade da poesia de Píndaro, é possível que os poetas Eliano e Pausânias estejam certos ao afirmar que, pelo menos nessa ocasião específica, os juízes deram a vitória a Corina porque foram influenciados pela sua grande beleza, acrescentando Pausânias que para a sua vitória também foi importante Corina compor no dialeto eólio, o mesmo dos juízes, enquanto Píndaro o fazia no dialeto dórico.

Estátua de Corina. Ela foi a mais vitoriosa das poetisas gregas, pois derrotou
em cinco Olimpíadas Poéticas seguidas o grande poeta Píndaro

Particularidade única de Corina foi não ter se limitado à poesia lírica como as demais poetisas gregas e feito também poesia épica, gênero próprio dos homens, onde celebra deuses e heróis conforme nos informa a lista das suas obras elaborada pelo gramático Fabrício no volume II da Biblioteca Graeca. Infelizmente, nem mesmo um fragmento dos seus poemas épicos chegou até nós, sendo-nos impossível aquilatar o seu valor.

Anita

Anita era de Tegéia, onde nasceu no final do século IV AC, mas passou parte da sua vida adulta em Epidauro como Chresmopoios do templo de Esculápio, espécie de secretária encarregada de por em versos as respostas do deus aos consulentes. Pelo visto, a sacerdotisa do oráculo não tinha o mesmo talento de Femaon, que como sacerdotisa de Apolo já dava as respostas em versos hexâmetros diretamente do seu altar. Anita não podia fazer o mesmo, pois trabalhava nos bastidores e não aparecia para o público, por isso teve que buscar reconhecimento para sua obra poética através dos livros que publicou e dos concursos de que participou.

Estátua de Esculápio deus da medicina em seu templo de Epidauro
onde Anita era encarregada de por em versos suas respostas

Fica a pergunta, “por que não foi Anita promovida a oráculo?”, pois segundo Pausânias ela possuía faculdades especiais e íntimas comunicações com o deus. Talvez tenha tido sérios desentendimento com seus superiores e em represália estes lhe negaram o cargo a que seu talento a credenciava. Porém ela mantinha contacto pessoal com os consulentes quando lhes entregava e explicava em privado as respostas versificadas. Graças às suas "faculdades especiais" é possível que ao dar aos consulentes as respostas do deus em versos o contato pessoal com eles tenha lhe possibilitado exercer essas "faculdades" e identificar as doenças, prescrevendo o apropriado tratamento e obtendo curas "milagrosas". Os doentes devem ter percebido que sua cura se devia tanto à minuciosa e dedicada atenção por eles recebida do "chresmopoios"  quanto aos poderes do deus, ficando muito gratos a Anita. Em consequência, ela fez amizades que lhe propiciaram régios presentes, permitindo-lhe obter independência econômica e demitir-se do templo para dedicar-se exclusivamente às musas. Infelizmente sua obra sumiu na poeira do tempo, deixando para trás apenas alguns fragmentos pelos quais nos é possível dizer que ela pertencia à Escola Árcade, conforme estes dois belos epigramas:

      “Forasteiro, senta-te nesta pedra para dar descanso aos teus doridos membros. Em cima de ti através das folhas sopra um suave vento. Bebe a água desta fonte límpida que jorra do rochedo, pois aqui no calor do dia é doce o repouso do viajante.”
      “Rústico Pã, é para mim, sentado na densa floresta por onde vagueiam as ovelhas, que tocas docemente a flauta a fim de que, ao pé destes declives úmidos de orvalho, as minhas jovens reses se apascentem da relva deliciosa?”

Erina

Nada sabemos da vida pessoal ou pública de Erina e nem ao menos onde nasceu e viveu, embora a mistura dos dialetos eólio e dórico por ela usado indique que era oriunda das mesmas regiões poéticas da antiga Grécia de onde vieram as demais grandes poetisas. Dela recebemos bom número de versos, inclusive uma epopeia feminina completa em mais de trezentas linhas intitulada A Roca. O poema é alegórico e tem como tema homenagear a memória do seu íntimo amigo de infância Baucis falecido antes dela. No belo poema aborda a vida da família no recesso do lar doméstico e a vemos sentada, virgem ainda, tendo nas mãos a roca e o fuso, tecendo os fios da vida que sempre se emaranham para tornar infelizes os seres humanos, os quais, tal como ela na roca, tentam em vão recolocá-los em ordem. O drama para desfazer os nós dos fios emaranhados se passa sob os olhos vigilantes e a severa autoridade de sua mãe temida, o que nos faz concluir que ela era de família austera e muito rica, pois não exercendo atividade externa e não tendo vida pública, pois a isso não permitiu a brevidade de sua vida, logrou publicar vasta obra no curtíssimo período de sua existência. Isto diz muito da fortuna do autor porque publicar 20 ou 30 exemplares de um livro na antiguidade era caríssimo, limitando tal façanha apenas às pessoas ricas ou com protetores ricos. Quanto à brevidade da sua vida, o sabemos através de poema da época composto em sua homenagem, talvez por poeta contratado e pago pela família, onde se diz que ela morreu virgem aos 19 anos vítima de mal súbito que a fulminou quando colhia flores no jardim.

Erina viveu na época helenista (séculos 4º a 1º  AC), quando o centro cultural da Grécia mudou de Atenas
para Alexandria, onde a sua grande biblioteca atraía intelectuais de todo o mundo conhecido

Apesar de muito jovem, Erina foi uma das mais populares poetisas do seu tempo e pelo estilo dos seus versos pode-se afirmar que viveu na época de hegemonia cultural de Alexandria, ocorrido depois da morte de Alexandre Magno em 322 AC. Assim, Erina deve ter vivido no século III ou no século II AC, não se podendo excluir a hipótese de ter sido no final deste último ou no início do seguinte, quando a expansão de Roma era avassaladora e estava prestes a devorar a Grécia. Para reforçar a tese de período mais recente existe uma Ode sua intitulada Eis Romen, podendo a última palavra significar “Força” ou “Roma”, dependendo do contexto, e no contexto do poema o significado é “Roma”. Há, portanto, um período de aproximadamente 150 anos dentro do qual poderá ter transcorrido a sua breve e profícua existência.

Telesila

Telesila nasceu e viveu em Argos no século VI AC e pertencia à alta nobreza, mas só tornou-se poetisa quando procurou um oráculo para tratar-se de males que a atormentavam e este respondeu, "dedica-te às Musas". Ela seguiu o conselho e seus versos logo a fizeram famosa a ponto de tornar-se a poetisa mais popular e conhecida da Grécia depois de Safo. Porém forçoso é dizer que isto não ocorreu somente por causa da sua poesia, que embora excelente não era superior a de suas colegas, mas por causa de notável feito militar, tão extraordinário que apenas alguns séculos depois apareceram autores dizendo tratar-se apenas de uma lenda, já que Heródoto, nascido pouco tempo depois e considerado o fundador da ciência da História, não o menciona em suas obras.

O fato teria se passado assim: Argos, cidade natal de Telesila, estava em guerra com Esparta cujo exército avançou disposto a obter uma vitória rápida. Os argivos o enfrentaram e foram postos em fuga pela superioridade do inimigo, que vitorioso intimou a cidade indefesa a render-se. Face à fuga do seu exército e não tendo como resistir, os idosos senadores aceitaram os termos da rendição e mandaram abrir os portões para que os espartanos entrassem, mas do meio da multidão Telesila ergueu-se e subiu à tribuna para discursar eloqüentemente protestando contra a covardia dos homens fujões e incitando suas irmãs de sexo a assumirem o lugar deles para lutarem até o fim. Não se sabe o que fez a multidão apoiá-la naquela situação desesperada, mas cheias de entusiasmo as mulheres tomaram o arsenal, vestiram as armaduras masculinas e armaram-se até os dentes, indo depois para o alto das muralhas esperarem o inimigo. Os espartanos quando souberam do ocorrido riram incrédulos, mas decidiram atacar e resolver o assunto definitivamente, pois estavam certos de que elas fugiriam tão logo ouvissem o seu apavorante grito de guerra. Isto não aconteceu e alguns dizem que o primeiro ataque foi rechaçado com grandes perdas, obrigando-os a refletirem melhor, mas outros dizem que não chegaram a atacar por achar desonroso a um guerreiro lutar contra mulheres, e mais desonroso ainda matá-las em combate. Fato é que ao verem as comandadas de Telesila não desertarem dos seus postos e aguardarem calmamente o ataque, prontas para o combate, os espartanos contentaram-se com sua honrosa vitória no campo de batalha e desistiram de tomar a cidade. Em conseqüência, fizeram meia-volta e regressaram a Esparta.

Marte, o deus da guerra. Somente homens podiam participar
do seu culto, mas em Argos abriu-se uma exceção

A narrativa do extraordinário feito heróico percorreu a Grécia e Telesila subiu aos píncaros da glória. Cerca de 500 anos depois quando visitou Argos, o historiador Pausânias ainda viu em uma coluna fronteira ao Templo de Vênus a estátua erguida em sua honra, que ele assim descreve: “aos seus pés alguns livros, na mão um capacete que ela olha como se estivesse prestes a pô-lo na cabeça”.

Em memória da valente poetisa ainda celebrava-se na época uma festa chamada ybristica, à qual as mulheres iam vestidas de homem e os homens vestidos de mulher. Fato inusitado, Argos era a única cidade da Grécia onde as mulheres podiam participar do culto a Marte, deus da guerra. Sobre sua obra poética tudo que pode ser dito é que os antigos a consideravam no mesmo nível de Safo e Corina, mas nada podemos afirmar porque tudo que dela nos chegou foram apenas dois versos, insuficientes para qualquer juízo de valor. O tempo destrói não só as pessoas, mas as suas obras por mais belas e valiosas que sejam.

Sic Transit Gloria Mundi



terça-feira, 26 de agosto de 2014

Post nº 81

JOHANNES  -  O  IMPERADOR  QUE  ANTES  DE  SUA  EXECUÇÃO  DESFILOU  COMO  PALHAÇO
MONTADO  DE  COSTAS  EM UM BURRO

Moedas com a efígie de Johannes cunhadas no seu curto reinado (425-26 DC). De todos os imperadores
romanos, ele e Maximus foram os que tiveram morte mais ignominiosa


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Em 423 a imperatriz Galla Placídia, viúva do ex-imperador adjunto Constâncio, foi expulsa da Corte imperial em Ravena por seu irmão o imperador Honório. Comentava-se que após a morte de Constâncio ela tentara forçar o irmão a adotar como herdeiro e sucessor o seu filho Valentiniano de apenas quatro anos de idade e isto irritara Johannes, secretário de Honório e verdadeiro governante civil do Império. Em consequência, Placídia foi expulsa e exilada em Constantinopla.

O imperador Honório reinou por 30 anos mas nunca governou coisa nenhuma, pois era um idiota enfermiço que deixava tudo na mão dos seus incompetentes e corruptos assessores. Na verdade Honório não tinha capacidade para distinguir ou julgar da competência ou honestidade de quem quer que fosse.

Durante o seu incompetente reinado, de 395 a 425, Roma foi tomada e saqueada pelos Godos em 410 e o Império só não se esfacelou antes ou depois porque teve a sorte de ter no comando do exército competentes generais como Stilicon, Constâncio, Bonifácio e Aécio, sendo que Constâncio chegou a ser seu cunhado e imperador adjunto. Porém passou pouco tempo no cargo, pois morreu subitamente dois anos antes de Honório.

Durante o reinado do incompetente Honório os aguerridos Godos conquistaram e saquearam Roma 

Em 425 os romanos receberam a notícia de que o imbecilizado Honório finalmente morrera e souberam com estupefação que o burocrata Johannes proclamara-se imperador com o apoio do ilustre patrício Castinus, usurpando o trono do herdeiro legítimo Teodósio II, imperador Romano do Oriente e sobrinho do falecido imperador do Ocidente.

Johannes era um burocrata astuto e sabia muito bem que o distante Teodósio nada poderia fazer contra a sua usurpação desde que tivesse a seu favor um poderoso exército, por isso escreveu a todos os altos comandantes militares das províncias fronteiriças, onde se concentrava o grosso das legiões, pedindo o seu apoio. Quase todos evitaram comprometer-se com o secretário usurpador e responderam que eram militares profissionais que não entendiam nada de política e não queriam envolver-se em assuntos fora da sua alçada. De qualquer forma, disseram-lhe que não se opunham à sua pretensão e o serviriam nas mesmas funções, tal como serviriam a qualquer outro governo que fosse legitimamente aceito.

A única exceção foi o general Aécio, que após alguma reticência prometeu auxiliá-lo com um exército de cavaleiros hunos, pois vivera como refém entre eles por vários anos e construíra sólidos laços de amizade com os líderes dessa tribo guerreira estabelecida onde hoje é a Hungria. Contudo há dúvidas sobre a sinceridade de Aécio porque ele nada fez de concreto para sustentar Johannes no poder, ausentando-se do palco dos acontecimentos sob o pretexto de que iria buscar pessoalmente o exército huno que prometera e ficando fora por vários meses enquanto a situação do novo imperador deteriorava-se.

Porém Johannes entendeu as dúbias declarações dos demais generais como sendo apoio tácito e exibiu as cartas aos comandantes das fracas guarnições da península italiana, deles recebendo a peso de ouro o apoio militar de que tanto necessitava. Mas o conde Bonifácio, comandante do poderoso exército do norte da África, foi radical e o informou que se não estivesse ocupado com uma grande revolta dos berberes marcharia sobre Ravena para destronar o usurpador.

O prestigioso general Bonifácio era rival do general Aécio e posicionou-se contra
Johannes a favor de Teodósio

Mas fosse pela falta de algo melhor, fosse porque estavam motivadas por substancial gratificação, as tropas metropolitanas reunidas em praça pública aclamaram Johannes imperador e ele continuou o seu curto reinado que terminaria em humilhação e tragédia. 

Não obstante a ausência de Aécio e a oposição de Bonifácio, ele formou meia dúzia de legiões pagando largas somas aos soldados, e preparou-se para lutar contra as tropas de Teodósio II, legítimo sucessor do seu tio Honório no trono do Ocidente. Para os altos chefes militares tanto fazia um como o outro, pois ambos eram corruptos e incompetentes, incapazes de fazer face aos problemas que o Império enfrentava. Na verdade, os mais importantes generais estavam esperando que Bonifácio apresentasse sua candidatura para apoiá-lo, pois se tratava de brilhante oficial muito popular entre as tropas, com enorme prestígio na aristocracia romana e no alto clero da Igreja por sua devoção e amizade com Agostinho, bispo de Hipona e eminente filósofo católico, considerado santo por muitos. Mas quando ficou claro que Bonifácio não se candidataria, pois se posicionara firmemente em favor de Teodósio, os comandantes resolveram continuar neutros e silenciosos.

Pouco depois foram surpreendidos com a notícia de que uma tempestade afundara a frota do Império do Oriente, afogando o exército mandado por Teodósio para combater Johannes, e este aprisionara o general comandante que sobrevivera ao desastre. Isto fortaleceu a posição do usurpador e ela seria segura se na mesma época não viesse a novidade ainda mais surpreendente de que a viúva Placídia conseguira do seu sobrinho Teodósio o que não conseguira do seu irmão Honório: a abdicação do trono do Ocidente em favor do menino Valentiniano, então com seis anos de idade. Para completar, Teodósio nomeara Placídia regente na menoridade do filho!

Todos acharam que se tratava de uma piada, pois não viam como poderia uma mulher assumir o trono naquela difícil situação e governar um império em guerra civil, atacado pelos bárbaros por todos os lados. A pergunta que se fazia era como seria possível Placídia retirar Johannes do poder e assumir o trono, pois ele estava firme em Ravena, possuía o controle da administração da Itália e tinha ao seu lado um exército de aderentes dado a catástrofe que se abatera sobre a frota e as tropas de Teodósio. Ademais, ela estava a centenas de milhas em Constantinopla, não tinha apoio popular e não dispunha de tropas dispostas a lutar pelo seu direito. Mesmo o fervoroso apoio de Bonifácio de nada lhe servia, pois ele estava às voltas com a rebelião dos berberes na África e não podia deslocar um único soldado para combater na Itália. Somando as coisas, tudo que Placídia tinha era um decreto de Teodósio transferindo-lhe um trono que não possuía, o que causava risos nas pessoas, certas de que ela fazia o papel do otário que comprara algo que não existia.

A imperatriz Galla Placídia e os seus filhos Valentiniano e Honória

Porém as dúvidas na época mostram que os seus contemporâneos ainda não conheciam a mulher de ferro que ela era. Sem perder a calma, Placídia levantou grande soma de dinheiro e mandou agentes secretos à Ravena para contatar os generais de Johannes e suborná-los para que mudassem de lado. Ademais, ele cometera o erro fatal de ao invés de meter no cárcere o general de Teodósio aprisionado o mantivera imprudentemente em confortável prisão domiciliar onde recebia visitas e contatava partidários, conspirando contra o seu captor quase que abertamente. Assim, o general prisioneiro avalizou o acordo de Placídia com os generais traidores e foi o fim do breve reinado de Johannes.

O poderoso burocrata imprevidente, que ousara desafiar as instituições, tivera a má sorte de tornar-se inimigo de Placídia logo depois que ela enviuvara de Constâncio e movera céus e terras na tentativa de fazer o amalucado imperador Honório reconhecer como herdeiro o seu filho órfão Valentiniano de apenas quatro anos de idade na época. Apesar de todos os agrados e carinhos com os quais procurara conquistar o favor do irmão, este não se abalara e preferira ouvir as sórdidas intrigas do seu secretário Johannes, o qual fizera espalhar por toda a capital o maldoso boato de que a ambição e a indecência de Placídia não tinham limites, pois para fazer do menino Valentiniano imperador ela era capaz até mesmo de seduzir o irmão idiota e com ele manter relações sexuais incestuosas. Suas excessivas demonstrações públicas e privadas de “amor doentio” pelo irmão mentalmente enfermo não poderiam ter outro significado senão este.

Habilmente, Johannes fizera com que os boatos por ele mesmo fabricados chegassem aos ouvidos do quase demente Honório, altamente devoto e que muitos diziam ser casto, contando-se como piada que ele era o único homem na face da terra que enviuvara duas vezes de esposas que morreram virgens. Em pânico, ele procurara o seu íntimo auxiliar e conselheiro Johannes para dizer-lhe que estava horrorizado com a “enormidade do pecado” das intenções da irmã Placídia, das quais jamais suspeitara e jurava inocência, vendo com terror demoníaco a infame possibilidade de que as pessoas pudessem acreditá-lo capaz de cometer tamanha aberração, como era o caso do sórdido “crime de incesto”, por si só suficiente para condená-lo às eternas chamas do inferno! Em tão terrível situação, o que lhe aconselhava o seu “fiel amigo”? Hipocritamente Johannes mostrara-se chocado e, após manifestar sua solidariedade ao devoto imperador, disse-lhe que o melhor modo de afastar as acusações seria eliminar a sua causa, expulsando Placídia e exilando-a com os filhos na Corte do seu sobrinho Teodósio II em Constantinopla. Com essa medida o mal seria cortado pela raiz e o povo veria que o virtuoso imperador nada tinha a ver com a torpeza da irmã, tanto que a expulsara e exilara. Em breve tudo seria esquecido e poder-se-ia respirar de novo ar puro na Corte, pois “longe dos olhos longe dos pensamentos”!


O imperador Honório era um completo imbecil, pois se ocupava mais com as aves do
galinheiro do palácio do que com os negócios do Império

Em nome do imbecil Honório, o pérfido burocrata agira imediatamente. Placídia foi presa em seus aposentos no palácio e posta sob forte guarda. Antes que a notícia se espalhasse, ela e os dois filhos pequenos foram embarcados na calada da noite em um navio militar com destino a Constantinopla levando somente bagagem leve e acompanhada por modesta comitiva de apenas uma dúzia de serviçais e damas de honra. Embora formalmente bem recebida na Corte do sobrinho, ela foi tratada pela nobreza com o desdém que sofrem os poderosos quando subitamente decaem de suas antigas posições de grandeza, mas não se abalou nem baixou a crista e passou a planejar cuidadosamente a sua vingança, acumulando dinheiro e cultivando relacionamentos no meio civil e militar, de sorte que estava com tudo pronto e caiu sobre a cabeça de Johannes como um raio quando a ocasião favorável surgiu.  

Johannes foi deposto e preso em um calabouço infecto (426 DC) e quando Placídia chegou triunfante a Ravena com sua brilhante comitiva, em condições completamente opostas às de quando partira em opróbrio dois anos antes, ordenou que Johannes fosse submetido as mais cruéis torturas. Depois mandou que lhe cortassem a mão com a qual assinara a ordem de sua prisão e expulsão e lhe cortassem a língua com a qual espalhara o torpe boato que tanta dor moral e injusta humilhação lhe tinham causado.

Detalhe do belíssimo teto do mausoléu da imperatriz
Gala Placídia em Ravena

Não satisfeita, esperou que o deposto imperador se recuperasse fisicamente dos horríveis ferimentos e deu prosseguimento à sua atroz vingança.

Em um belo dia de sol, Placídia mandou vestir Johannes de palhaço e o fez montar de costas em um burro no qual foi fortemente amarrado. Depois ordenou que o infeliz prisioneiro fosse conduzido em desfile perante a multidão que gargalhava e aplaudia nas ruas apinhadas o imperial “palhaço”, seguido por uma trupe circense como se ele fosse o seu chefe. O grotesco desfile terminou no circo da cidade, onde o decapitaram publicamente e espetaram sua cabeça, assim como a mão e a língua amputadas já ressecadas, em três lanças postas lado a lado em uma praça para simbolizar a justa punição dos que pensam indecências, assinam indignidades e espalham infâmias.

De todos os imperadores romanos em cinco séculos, Vitelius, Heliogabalus, Johannes e Petronius Maximus foram os que tiveram morte mais ignominiosa. Curiosamente, as duas últimas ocorreram no século V, último do Império e quando o Cristianismo já reinava absoluto no mundo romano. Parece que devotos cristãos, como Galla Placídia, não tinham assimilado muito bem os ensinamentos Evangélicos sobre caridade e misericórdia.

A trajetória do secretário cuja ambição o fez viver gloriosamente como imperador e cuja torpeza o fez morrer humilhantemente como palhaço, terminou com uma brutal alegoria sobre a fatuidade da grandeza material e uma sangrenta advertência ética. Por outro lado, Placídia reinou sozinha gloriosamente por vários anos com o apoio do competente general Aécio até a coroação do seu filho Valentiniano III. Mesmo assim continuou a mandar por trás do trono até sua morte em 450 DC e passou à história como a única mulher que governou o Império Romano por seus próprios méritos políticos e administrativos. Mais de mil anos se passariam até que na pessoa de Elizabeth I da Inglaterra surgisse à frente de uma grande nação outra mulher tão valente, dura e capaz quanto ela.